Corrupção não é uma palavra estranha na imprensa portuguesa e, ainda que muitos de nós tenhamos uma ideia de que a dimensão desde problema é muito maior em Portugal do que noutros países do mundo, não constituiu grande surpresa a revelação dos casos de corrupção na FIFA. O futebol é um dos sectores onde a perceção de corrupção é maior, e os detidos no âmbito deste processo são, na sua maioria, latino-americanos, uma das regiões do globo que nos parece conseguir produzir ainda mais corruptos do que nós.

Falamos naturalmente de perceções. E, se substituíssemos “Portugal” por Itália, França ou mesmo Alemanha, o parágrafo anterior continuaria a fazer sentido para um leitor em cada um desses países. A preocupação com a corrupção é transversal, e todos temos consciência que ela nos afeta mais a nós, ao mesmo tempo que parece ser endémica a um determinado povo ou atividade.

A forma como alguns órgãos de comunicação social generalizam e simplificam as complexas redes de corrupção criam a perceção de que estes casos ocorrem com mais regularidade, por exemplo, no futebol do que no ciclismo; que envolvem uns clubes mais do que outros; ou são protagonizados por determinados dirigentes e não por outros. Ou seja: as perceções estabelecem fronteiras. Umas vezes são norte-sul, outras ricos e pobres, ou brancos e pretos.

Mas quem corrompe os corruptos?

Quando olhamos a corrupção, pensamos na pessoa que tem poder para tomar uma determinada decisão que pode favorecer ou prejudicar outro, mas que entende que essa posição lhe dá a vantagem de fazer-se beneficiar a si própria, em primeiro lugar. No entanto raramente pensamos na pessoa, ou entidade que, para obter vantagem sobre os outros, está disposta a pagar os favores de alguém.

O caso da FIFA é um bom exemplo. Quando foi conhecido o escândalo e divulgadas as detenções ficámos a saber os nomes dos detidos, as razões da acusação e a tipificação dos crimes envolvidos. Mas até mesmo o comunicado do Departamento de Justiça norte-americano é cauteloso ao referir o pagamento de subornos por “uma grande marca desportiva dos EUA”. Provavelmente dir-se-á que não há a certeza de que a marca em causa esteja diretamente envolvida no escândalo de suborno mas, do mesmo modo, os suspeitos apregoados são presumíveis inocentes até prova em contrário.

A diferença é que quem paga subornos são os ricos. Paga quem tem dinheiro para pagar. E quem tem dinheiro tem tudo, sobretudo quando é um grande patrocinador dos media. Nos dias seguintes, a imprensa internacional referia que “A NIKE está a colaborar com o FBI”, um eufemismo para dizer que a empresa está a ser investigada, embora não tenha sido formalmente acusada. Na verdade, até pode nem estar envolvida, mas para haver corrupção, haverá sempre alguém a corromper.

A corrupção envolve sempre que dá e quem recebe, mas no jogo das perceções, quem corrompe não parece ser denunciado. Pode valer para o caso da FIFA, como valeria para os britânicos do Freeport ou para os alemães dos submarinos, para citar apenas alguns casos mediáticos que se esfumaram no ar. O escândalo da FIFA, sendo um caso de polícia, é também polifacetado. Tem componentes geopolíticas, económicas e de lóbis de interesses regionais. Deve por isso ser acompanhado com detalhe e atenção pela comunicação social, mas o jornalista não se pode esquecer que neste, ou noutro caso de corrupção, por exemplo em autarquias ou cartas de condução, há sempre o corrupto e o corruptor.

Na corrupção perdemos todos, mas há dois que ganham: o que corrompe e o que é corrompido. Não condenemos apenas aquele que vende a alma ao Diabo, perdoando o Diabo talvez porque o negócio dele é desviar almas alheias.

Fotografia de futureatlas.com

The following two tabs change content below.

José Mendes

Jornalista
Licenciado e mestre em Sociologia; Auditor da Defesa Nacional. É titular de Carteira profissional de Jornalista e iniciou a atividade com o aparecimento das rádios piratas; Foi redator na Rádio Azul, de Setúbal, e chefiou a redação da Rádio Pal, em Palmela. Em 1989 integrou corpo redatorial da Rádio Comercial desempenhando funções de repórter parlamentar de 1991 a 1998. De 1999 a 2006 foi diretor de Informação da Media Capital Rádios. De 2007 a 2010 foi o responsável pelas delegações regionais do Rádio Clube Português. Atualmente é consultor e formador. É também colaborador regular em várias publicações e Provedor no Setúbal na Rede - o Futuro da Região.

Últimos textos de José Mendes (ver todos)