Sempre classifiquei de muito pouco didáctica, ignóbil e nada imaginativa aquela ideia que os pais transmitiam ás crianças que os seus irmãos recém-nascidos vinham de França pendurados no bico de uma cegonha; noção essa perfeitamente patética e que ainda, nos dias de hoje, se insiste em ilustrar nos livros de banda desenhada e outros afins.

Como se as crianças tivessem que ser eternamente iludidas perante a verdadeira natureza e origem das coisas, alimentando tabus indesvendáveis que, na circunstância, só serviam para ocultar a tacanhez de uma sociedade pouco evoluída, conservadora e de uma indisfarçada submissão a poderes bizarramente instalados.

Por contraste, vivemos actualmente uma era de incomensuráveis progressos – que não sabemos onde vai parar – e onde as crianças têm um fácil acesso a mecanismos tecnológicos que rapidamente os colocam perante o universo da informação, do conhecimento e da realidade, sem imagens virtuais, sofismas, enganos ou ilusões maquiadas.

É vulgar vermos agora o desembaraço com que um qualquer petiz domina as novas tecnologias através dos ofertados “notebooks”, “tablets”, “smarphones”, “ipads”,” iphones” e por aí afora, recorrendo a um simples “click”, para que acedam a qualquer informação que queiram, deixando-se inebriar pela velocidade dos “bytes” da “internet” e percorrendo os insondáveis caminhos da transmissão de dados.

Mas, com cegonhas ou com “internet” ainda subsiste o surrealismo do desconhecido.

Fiquei incrédulo quando há poucos dias, num supermercado da cidade, uma criança de uns 9 ou 10 anos questionava a mãe que acabara de pedir ao talhante para lhe cortar uns bifes de perú: “Ó Mãe, de que parte da vaca é que tiram os bifes de peru…?”. A senhora com uma expressão embaraçada esclareceu o miúdo que os bifes de peru provinham do dito cujo e não da vaca. “Mãe, eu nunca vi um peru!”

Não me surpreende. No mundo moderno é comum não haver a preocupação de sabermos a origem das coisas. Começa a ser uma marca da “acultura” vigente.

É grave que a maior parte das crianças não se interesse da proveniência dos produtos e bens que consome, nem os próprios pais tenham a preocupação de lhes transmitir; porventura até alguns deles desconheçam mesmo. São factos preocupantes, mas que, ao ser-lhes acicatada a curiosidade (que lhes falta), a “internet” poderia dar resposta; mas nem para aí estão voltados.

Li que se tornou agora moda nos Estados Unidos da América, as famílias alugarem galinhas e respectivas capoeiras bem equipadas. Sim repito, alugar galinhas para que as crianças tomem contacto com a realidade. Melhor dizendo, para que saibam qual a proveniência dos ovos, porque muitas pensam que estes são um produto fabricado pelo homem.

Felizes daqueles que ainda têm a possibilidade de se deleitarem com o bucolismo dos campos e pastos, com as vaquinhas, as ovelhas, cabrinhas e galináceos, mesmo com a esperança de ver alguma cegonha passar com um bebé no bico, consultando o “Google” no “tablet” perante a dúvida de que o bife do acém não se tira da coxa da perua, que o queijo de cabra não é feito com leite de burra, que os papo-de-anjo não constam da Bíblia ou que a massa cinzenta não é um qualquer esparguete confeccionado na panela do desconhecimento.

Que mundo este !

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Álvaro Oliveira

Técnico de Logística e Transportes e ex-Gestor - Reformado

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