Está-se a viver em Portugal um momento singular. A agitação, demasiada para o meu gosto, está a turvar o bom senso e a razoabilidade. A política foi enjaulada na descrença, as finanças na desconfiança, a informação no imediatismo rentável, a justiça no linchamento popular pelos raciocínios.


Há uma cadeia de “capturas” porque têm sido muitos os disparates e o preço, esse, vai ser alto se não for reposto, rapidamente, o normal funcionamento do razoável.


Há um somatório de excessivos “inconseguimentos” que, ou se estancam, ou não há austeridade viável para colmatar o deficit de princípios e de valores nesta sociedade que se deixa capturar por práticas inaceitáveis em sociedades verdadeiramente civilizadas.


Há muito que é tema, não só académico nem nacional, a captura do poder político pelo poder financeiro. Captura que se diz traduzir, entre outros aspetos, na produção legislativa “à medida”, no enfraquecimento da decisão política quando a fez brilhar pela disponibilidade de dinheiro facilitado e, em crise, pela cobrança inflacionada deste agrado, agora dívida.


A prevalência e a extensão do braço financeiro sobre a ação política ofuscaram as diferenças desta, assentes, como deve ser, nas opções ideológicas.


Como disse, a tensão que se está a viver, trouxe a lume outras “capturas”. O direito à presunção da inocência foi capturado pelo “circo” mediático do diz que disse. A comunicação social foi capturada pelas audiências do sensacionalismo imediato. O jornalismo, capturado pela exploração da vulnerabilidade dos sentimentos. O exercício do poder de defesa, num Estado de direito, foi capturado pela violação unilateral do segredo de justiça. A justiça permite-se ser capturada pelo reality show rasca.


Estas “capturas” suportam-se numa cadeia de cumplicidades, permitidas ou não, onde cada interveniente tem um papel, nem que seja o de ingénuo útil.


Parece-me avisado rever o “olhar” sobre tudo isto, afinal, e a acrescer, parece só ser normal aceitar ter sobre a política um olhar crítico, mesmo sendo o poder que é permanentemente escrutinado.


Numa democracia deve recair sobre todos os poderes de soberania um olhar analítico atento, afinal a circunstância de existirem legitimidades diferenciadas, no quadro da separação de poderes e dos titulares do poder judicial serem independentes no exercício das funções que desenvolvem, nenhum deles está, por natureza, acima da crítica.


Aliás, o contrário disso, ou seja, excluir da apreciação um poder, seria aceitarmos sermos também todos nós “capturados. E, para ingénuos, já basta os úteis…

Fotografia de capa por stavros karabinas

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Eurídice Pereira

Deputada do PS eleita pelo distrito de Setúbal

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