O Alentejo está de parabéns, rejubilam os alentejanos e os apreciadores do cante.

   

Não sou alentejano, mas tenho costelas alentejanas, o quanto basta para o arrepio, quando oiço o belo cante. Um canto épico, em que se percebe o sofrer mas também a dignidade ancestral de um povo martirizado, vítima da exploração desenfreada dos senhores da terra, do desprezo dos poderes, das sevícias de mastins ao serviço dos poderosos. “A Guarda Republicana arrancava a pele a um pobre que colhia umas bolotas para dar de comer aos filhos”, ouvi a meu pai e aos meus avós. Passava-se isto no concelho de Montemor-o-Novo, onde Casquinha e Caravela, operários agrícolas, caíram sem vida às mãos da mesma GNR, já depois da Revolução de abril (setembro de 1979). Passava-se por todo o Alentejo, de Alcácer a Mértola, de Odemira a Nisa.

   

Alentejo, terra esquecida, povo mártir. Tanta terra e tanta míngua! Muita terra, pouco fruto, povo pobre e desocupado – D. Pedro Justiceiro, sabei que Vossa vontade é desprezada! Planície infinda dos antigos trigais a ondear às brisas suaves de maio. Pródiga terra morena regada com o suor dos simples, em longas jornadas da aurora ao sol-pôr. Gente tranquila mas valente, moldada pelas calmas impiedosas dos estios. Povo de poetas e cantadores inspirados por uma existência sofrida, vigiada, reprimida. Povo insubmisso – as balas do Carrajola não te vergaram, Catarina! – e inteligente, que soube fazer do canto uma maneira de estar e um hino à sua revolta.

   

“Abalei do Alentejo para não morrer lá de fome”, também ouvi aos meus ascendentes. Saíram aos milhares, num êxodo que durou décadas (e que continua), despovoando a província. Mas a alma alentejana veio com eles, como cantava Francisco José: “Abalei do Alentejo/Olhei para trás chorando/Alentejo da minha alma/Tão longe me vais ficando”.

   

O alentejano é orgulhoso da sua proveniência e apegado à cultura que bebeu desde o berço. Não passa sem a sua açorda, as migas, a sopa da panela e outras joias da sua gastronomia. Não esquece o cante que ouviu aos pais e aos avós ou na taberna da aldeia ou vila onde nasceu. E canta e encanta por aí onde se instalou, na folgança do petisco entre amigos, ou em grupos formais, devidamente ataviados, versos singelos cantados com sentimento, vozes profundas, semblantes sérios e braços dados, que a resistência quer-se solidária.

   

O cante ressurgiu, está vivo, é cantado ainda com mais orgulho e ouvido com interesse redobrado. Formam-se novos grupos (alguns femininos ou mistos), revitalizam-se os antigos com sangue novo, já se pensa em rotas de cante conjugadas com a riquíssima oferta gastronómica e vinícola da região, para atrair turistas.

   

O reconhecimento do cante como património cultural imaterial da Humanidade constitui um marco histórico para o Alentejo, uma oportunidade para a afirmação das suas potencialidades e para o desenvolvimento. Assim os dirigentes alentejanos saibam, como se espera, apoiar as iniciativas locais e canalizar esta onda de orgulho e otimismo para projetos que mudem o Alentejo, criando condições para a fixação dos jovens alentejanos e dos que quiserem regressar à terra-mãe.
   

Fotografia de capa por pedrosimoes7

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Juvenal Danado

Professor

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