A televisão mostrou-nos, recentemente, cenas de bullying passadas na Figueira da Foz. É impossível um ser humano equilibrado não sentir indignação e repugnância pelo ato de cobardice perpetrado por jovens com idade para já terem juízo – jovens, diz-me a experiência, que também não devem ser grande coisa como alunos. Ter acontecido ali, numa rua da cidade, à luz do dia, diz bem da precaridade da segurança dos cidadãos.
A verdadeira dimensão dos danos psicológicos no rapaz violentado, ninguém a poderá quantificar. Quanto às valentonas e aos valentões das dúzias que o seviciaram, veremos o que lhes vai acontecer – o senso comum vaticinará que serão tratados com paninhos, pois a nossa terra é pródiga na mão leve e nos brandos costumes.
Em conversa sobre o caso, um amigo contou-me como lidou com dois meliantes que se meteram com um filho seu, na altura a frequentar o 2º ano do Ciclo Preparatório na Escola Preparatória de Bocage, já lá vão três décadas. Os matulões, aí pelos dezasseis ou dezassete, eram alunos do Liceu e costumavam rondar a escola, assaltando, roubando e maltratando os miúdos. Naquele dia, quando o filho do Jota e um colega regressavam a casa para o almoço, pelo carreiro que dava ao Bairro de S. Gabriel, tentaram extorquir-lhes dinheiro e tirar-lhes os relógios e os blusões, bateram-lhes e ameaçaram deitá-los ao ribeiro que corre perto da escola e vai desaguar ao Sado (era novembro, e o ribeiro levava muita água) se fizessem queixas a alguém. O miúdo não contava nada, mas a mãe notou que ele não estava bem, pô-lo em confissão e ficou a saber o que se passara. Naturalmente preocupada, quando o marido chegou a casa contou-lhe o sucedido. O meu amigo pôs-se a caminho e foi esperar o filho à saída da escola, já noite cerrada.

Mas é melhor que seja ele a concluir a narrativa e a explicar a “sua receita” para lidar com estes paspalhos armados em valentões que se divertem a maltratar os outros:
– Fui esperá-lo, com a esperança de encontrar os dois marmelos. Estava a ouvir o que o meu filho me contava, quando ele me diz: “Olha, pai, são esses dois que passaram agora por nós”. Tinham corpo para comê-las, um deles era até mais alto e encorpado do que eu. Agarrei o que estava mais à mão pelo braço, puxei-o, joguei-lhe a mão ao gasganete e comecei a apertar, enquanto ia falando para os dois: “Estão a ver estes dois miúdos? Hoje, à hora do almoço, vocês assaltaram-nos, tentaram roubá-los, bateram-lhes e disseram que os matavam e atiravam para o ribeiro”. O melro que eu filei pelo gargalo tinha perdido o pio e já se aguentava mal nas canetas. O grandalhão, acobardado, tratou de sacudir a água do capote, gritando que não tinha feito nada. Sempre a apertar o pescoço ao palerma, que já tinha os joelhos no chão, li-lhes o responso: “Se voltam a meter-se com o meu filho e com o amigo, vou à procura de vocês, ao liceu, ao vosso bairro, nem que seja ao fim do mundo, e dou-vos um enxerto de porrada que nunca mais esquecerão na vossa vida, seus grandes…”.
Remédio santo: os dois cobardolas continuaram a rondar o carreiro e a assaltar, a extorquir e a bater, impunemente. Porém, nem olhavam para o filho do Jota e para o seu colega.

Fotografia de nist6ss

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Juvenal Danado

Professor

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