Em junho de 2008, quando o Governo Bush estudava lançar um projeto de ajuda à economia americana, Marc Faber encerrava seu clipping mensal com um comentário bem-humorado: “O Governo Federal está concedendo a cada um de nós, uma bolsa de U$ 600,00.Se gastarmos esse dinheiro no supermercado Walt-Mart, esse dinheiro vai para a China. Se gastarmos com gasolina, vai para os árabes. Se comprarmos um computador, vai para a Índia. Se comprarmos frutas e vegetais, irá para o México, Honduras e Guatemala. Se comprarmos um bom carro, irá para a Alemanha ou Japão. Se comprarmos bugigangas, irá para Taiwan… E nenhum centavo desse dinheiro ajudará a economia americana.”

Ocorreu-me este texto de Marc Faber, analista de investimentos e empresário, para caracterizar as promessas eleitorais, que já fazem parte da pré-campanha, de que as medidas anunciadas criarão umas centenas de milhar de empregos, pois irão injetar dinheiro na economia aumentando a procura. Mas que procura? A procura satirizada por Marc Faber? As promessas eleitorais não quantificam os setores da economia que esse dinheiro vai ajudar, porque os políticos sabem que já quase nada existe para ajudar. As fronteiras estão escancaradas à invasão de bens oriundos de países de mão de obra barata e explorada. Gostaria de saber, preto no branco, como se vai criar o emprego eleitoralmente prometido, para que, em nome de coerência e compromisso, todos pudessemos acreditar.

O emprego sustentado, cria-se quando as políticas são sérias e sustentadas. Tomando como exemplo, a linha de promessa do Partido Socialismo, encontro propostas eleitorais válidas em programas do “empurra para a frente” pois primeiro vamos gastar e depois acontecerá o milagre do emprego e da recuperação económica. Foi nesta linha de pensamento, que as políticas económicas do passado conduziram o país à beira da bancarrota, aos investimentos técnicamente falidos à sua nascença, à corrupção, à evasão fiscal e à geração de novos ricos. Será que num curto período de quatro anos os políticos pensam que já nos esquecemos das razões que obrigaram a mendigar a intervenção da troika?!

Por muito que o intelectualismo universitário faça esforços de retórica económica, sabemos que Portugal está condenado a não atrair investidores credíveis. Na realidade, os últimos trinta anos mostram que nada mudou em relação às condições para promover o emprego. O primeiro fator é a indisponibilidade dos políticos para assinarem um pacto de estabilidade, um compromisso sério e transparente, de política fiscal e equilíbrio orçamental. Mesmo em plena crise, o governo de Passos Coelho mostrou-se incapaz de fazer a reforma estrutural do Estado, prometendo, mas ficando tudo na mesma. Precisamos de um compromisso sério quanto à sustentabilidade da segurança social, um compromisso quanto ao ensino técnico, um compromisso quanto à sustentabilidade da saúde. Mas rejeitam-se os pactos de política orçamental, porque estamos em presença de vendedores de promessas que empurram os problemas gerados para os vindouros. Só assim, se pode entender que o Partido Socialista não esteja aberto à revisão da Constituição quanto à inclusão de limites da dívida. É que António Costa sabe, que as promessas eleitorais são pagas no futuro pelos contribuintes e por todos os portugueses, pois a culpabilização dos políticos morrerá orfã.

Um segundo fator é a credibilidade dos políticos e das políticas. Nos últimos trinta anos o que o investidor sabe, é que Portugal desenvolveu um quadro de subsistência e de favorecimentos. Num e noutro, foram muitos os que engordaram sem que tenha havido maior justiça social. Abriu-se o caminho ao privilégio dos “poderosos” e daí à corrupção política e económica foi um passo. Como podem os investidores, geradores de emprego, acreditar num país em que as empresas “poderosas” estão inundadas de figuras públicas? Como podem os investidores estrangeiros acreditar num país que tem um ex-Primeiro Ministro em prisão preventiva e sob o risco de ser acusado de branqueamento de capitais e, ao mesmo tempo, os políticos a gritarem contra a honra da justiça? Só investe neste país quem tem “rabo de palha”, melhor dizendo, quem se aproveita das fraquezas para branquear dinheiro. E qual é o investidor de cara lavada que quer investir, criar emprego, num país que dá mostras de se ter tornado num paraíso para os corruptos? E, por estranho que pareça os políticos não foram capazes dum pacto para o combate ao enriquecimento ilícito, dando a imagem que, nesta matéria tão sensível, vamos continuar a bagunça.

Um terceiro fator é o estado da justiça em Portugal. Sem independência pela forte intervenção do poder político e dos poderosos, como podem os investidor coabitar numa sociedade em que os processos em tribunal duram anos? Num país de direito, em que a justiça não funciona, não se pode acreditar. Num país em que a classe política é a primeira a atirar pedras ao sistema quando um dos seus está a prestar contas à justiça, quem pode acreditar? O poder judicial, humilhado, não é uma referência para quem queira investir em Portugal. Quem investe num país em que quem manda são os sindicatos e o seu poder “selvagem”, como ainda aconteceu na greve da TAP? Quem vem investir neste país quando o presidente do sindicato, derrotado pela maioria dos trabalhadores que não aceitaram a greve, vem publicamente atribuir êxito à greve pelo prejuízo de 38 milhões de euros que provocou no capitalismo da empresa, quando a dívida da TAP é paga por todos nós, pelos impostos que pagamos e que algumes lutam para que seja eternamente? Quem investe na criação de emprego quando sabe que o poder sindical não se exercer para defesa do emprego mas para a destruição deste? Veremos o que acontece com a TAP, nacionalizada ou não… Na verdade quem investirá num país em que os interesses de classe se sobrepõem ao interesse comum?!

Neste espaço, a 24 de junho do ano passado na crónica com o título “Como a criação do emprego esteja na arte dos políticos!”, escrevi: “nunca uma palavra para o erro das políticas económicas que emanam da vontade política, para a burocracia que afasta qualquer investidor, único criador de emprego, para o clientelismo político em que só sobrevive quem emprega ex-políticos que auferem chorudas reformas, para o funcionamento da justiça que só privilegia os corruptos, para a falta de transparência nas contas públicas e no compadrio político que prevalece nos negócios públicos”.

Hoje está-se a assistir à repetição de mais do mesmo, porque nunca aprendemos! Com António Costa e o programa eleitoral do PS lança-se o isco do emprego, tão caro a todos os portuguesas e famílias no desemprego. É oportuno pensar que na época das vacas gordas, em que o governo esteve nas mãos de José Sócrates, assistimos à criação de cerca de 60 mil empregos. Mas na época das vacas magras e sob a austeridade imposta pelo troika, a coligação PSD/CDS, num mesmo espaço de três anos, assistimos à criação de cerca de 135 mil novos postos de trabalho, ou seja o dobro do milagre socialista. Mas no período das vacas magras, o mesmo governo do PS assistia à eliminação de mais de 300 mil postos de trabalho, enquanto o atual governo observou a extinção de cerca de 250 mil. António Costa deveria pensar sériamente na verdade do pensamento de Marc Faber.

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António Figueiredo

Gestor Reformado
Foi trabalhador estudante, licenciado e Executivo de três empresas multinacionais, tendo exercido cargos no exterior. Foi Oficial do Exército, casado com dois filhos, reformou-se aos 55 anos, após 40 anos de trabalho. Na pensamento político é social democrata. Dedica o tempo de reforma ao voluntariado social e foi durante dois mandatos presidente da UDIPSS de Setúbal.

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