Já é recorrente dizer que a classe média foi a principal prejudicada pela política do atual Governo. Foi e não foi ! Foi na medida em que suportava mais encargos, que tinha em principio capacidade para pagar e de repente deixou de ter sem sacrifícios gigantescos, e/ou porque teve de apoiar (do que não estava à espera) filhos e netos, e/ou ainda porque ganhando normalmente mais e sendo assalariados foi o alvo evidente do fisco etc, etc. Não foi porque em geral não lhe foram retirados apoios sociais diversos, incluindo saúde, de que já não usufruíam e que são essenciais para a sobrevivência dos mais pobres, nem lhe caíram em cima vários predadores (até sobre o salário mínimo) como constantemente é noticiado.

Ora o que me parece é que o que está em jogo nestas eleições é a própria existência de uma classe média decente, o que nunca será conseguido com baixos salários e precariedade, mas sim com inovação e qualificação.

E é sintomático que o grande embate da austeridade nestes últimos 4 anos tenha caído sobre a ex-classe média agora também chamada a pronunciar-se sobre os próximos anos do seu futuro e aqui duas forças principais se perfilam :

De um lado a coligação PSD/CDS, pedindo um cheque em branco para o futuro, baseada em que (segundo eles) salvou o País da bancarrota a que o levou principalmente o 2º Governo Sócrates, e tem assim provas dadas de que poderá conduzir-nos a uma era de desenvolvimento e recuperação. E digo cheque em branco porque (e considero-me bem informado) não vejo qualquer estratégia para atingir esse objetivo tirando o aumento das exportações (o que é benéfico), embora me pareça estar a ser conseguido através da redução dos custos do trabalho e aumento da precariedade. Aliás faço notar que uma parte importante do aumento de importações inevitavelmente associado ao das exportações é para carros de gama alta (Ferraris, Porshes, BMW de topo etc.) e para criar os atuais 10.000 novos milionários anuais, sinal claro da exploração. Sobre inovação, investigação, qualificação, investimento produtivo etc., ou seja tudo o que devia ser feito para nos tirar da dinâmica dos baixos custos e qualificações não vejo ser feito nada de substancial, pelo contrário!

Do outro o PS, penando para se livrar do “ativo tóxico” Sócrates (o que na minha opinião já devia ter feito há muito numa catarse interna), mas que parece ter aprendido a lição. Não há duvida que o seu programa foi preparado com uma cautela pouco habitual e sobretudo escrutinado economicamente, o que não é usual. Parece-me que Costa se apercebeu que os eleitores já não vão em promessas fáceis, que o essencial é o investimento produtivo e, se formar Governo irá, ao seu estilo, fazer tudo para que casos submarinos, professores, TAP, BES, PT, etc. etc. não voltem a ensombrar a governação. O problema maior, para mim, é uma definição de estratégica ainda pouco clara e como e onde ir mobilizar o capital necessário para o desenvolvimento e combate ao desemprego e precariedade. Muito vai também depender da amplitude da eventual vitória. Se pequena tanto socratistas como seguristas irão afiar as garras. Se substancial Costa sentir-se-á mais à vontade para lidar com os socratistas que atualmente a ele se colam e sobretudo poderá mobilizar muitos seguristas a meu ver injustamente ostracizados. Aliás a sua posição em relação aos seguristas (a não ser que tenha havido uma recusa da parte destes), pareceu-me inclusive exagerada e mesquinha. Não ter feito primárias para as listas de Deputados, dando a iniciativa ao Livre, pareceu-me um erro gigantesco.

Quanto a mim primeiro tenho de fazer uma declaração de interesses: Fui do PRD; Entrei no PS de Guterres; Nunca gostei de Sócrates e tenho 3 razões pessoais muito fortes para isso; Sou militante (adormecido) do PS e votei sempre AJSeguro. Nestas eleições entre quem quer mais do mesmo (incluindo caríssimas “incompetências”) sem fim à vista e uma política de mão de obra barata sem qualificações e precária, criando postos de trabalho sim, mas em Inglaterra e na Suíça, mentindo, omitindo, manipulando estatísticas e sobretudo de uma crueldade e insensibilidade sociais incríveis (do tipo se a estatística diz que cada 4 portugueses come 1 frango, já não interessa se 1 come o frango todo e os outros nada). Entre os autores do “sermão aos piegas” e do “estamos a viver acima das nossas possibilidades” (nós e não eles e o seu séquito de Boys e Girls, mais o capitalismo financeiro e outros rentistas) e quem irá dar a volta, não só internamente como nas nossas relações com a UE, e tem quadros, equipa (como provou), larga experiência no maior Município do País, e capacidade de diálogo para tal, escolho claramente Costa. E não julguem que é clubismo. Não fossem estes 4 anos tão miseráveis (para nós, não para todos) e até podia ser diferente. Comigo não era a primeira vez (em autárquicas).

Fotografia de National Library NZ on The Commons

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António Jardim

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