Primeiro gostaria de fazer uma declaração de princípios: Não acredito na gestão só pública das empresas, pois já senti o que é ser dirigido por comissários políticos, normalmente completamente impreparados. Julgo a gestão privada mais eficaz mas totalmente incapaz de uma visão global, pelo que deve ser limitada às empresas não estratégicas. Acho assim (como todos os que se dizem socialistas e/ou social-democratas), que só os setores estratégicos devem ter uma gestão mista, que assegure a sua eficácia mas também uma contribuição para a estratégia global do País.


Posto isto confesso que não me sinto minimamente tranquilo. Passos continua a ignorar a realidade, mesmo com o aumento de desemprego e a queda do PIB e recusa-se a exigir uma renegociação da divida com os credores abutres, Pires de Lima continua a pensar que investir os poucos Fundos Europeus disponíveis em transportes ferroviários, energia ou cervejeiras é o mesmo, Costa não dá (ainda?) quaisquer sinais de ter uma estratégia para o País, Portas e Cavaco parecem cada vez mais inúteis e sobretudo perniciosos no seu otimismo bacoco. E no entanto os problemas do País vão-se agravando e, pior, continua a não se ver solução.


– O desemprego é de longe o problema mais premente e claro que não é resolvido com as já conhecidas medidas de formação profissional apressada, destinadas apenas a embelezar as estatísticas, apanágio deste Governo desumano e incompetente. Não se trata apenas de dar um mínimo de meios de vida a uma parte substancial dos nossos concidadãos mas a diminuir os apoios sociais, melhorar a situação da Segurança Social e, na medida do possível, produzir qualquer coisa de útil, corrigir assimetrias etc. Claro que a solução ideal seria a criação em massa de empregos sustentáveis mas não deve haver condições para tal. O início de combate mais consensual parece ser a reabilitação urbana (à qual, acrescento eu, a reabilitação de escolas abandonadas em lares permanentes ou de dia para idosos ou os edifícios abandonados das termas), de preferência incorporando já meios de eficiência energética e resistência sísmica, mas tal exige avaliações, projetos, consultas etc., tudo processos demorados! E quem paga? E como se vai recuperar o investimento? E qual o efeito de arrastamento? Não haverá, na agricultura, floresta, limpeza de matas, aquacultura etc. meios mais expeditos e menos dispendiosos de resolver o problema? E ainda captar jovens técnicos, normalmente bastante aptos em inglês e programação (necessários para regas e aquacultura)? E ainda usando equipamentos nacionais (tubagens, pivots etc.) para aumentar o efeito de arrastamento? E não será necessário (como defendem alguns economistas) injetar previamente dinheiro na economia, por exemplo repondo e/ou pagando os corte e subsídios diversos retirados, caducados ou em vias de caducar ou subsidiando reformas parciais, abrindo novos postas de trabalho? Não teria isso um efeito bastante melhor que os Audi, Bmw ou Mercedes na procura interna? E não deveriam a UE e o FMI, cúmplices desta situação, pelo menos participar? E não seria isto verdadeira solidariedade?? E tudo isto sem esquecer que há cerca de 100.000 empresas inativas neste momento em Portugal, principais veículos forçados dos mais de 300.000 postos de trabalho destruídos por este Governo. Claro que grande parte serão dos setores da restauração e construção civil e que não correspondem portanto aos postos de trabalho clássicos mas muitos não e a sua situação tem de ser considerada!


– O segundo problema mais premente é livrarmo-nos da “classe politica” (no sentido lato) atual, geralmente oriunda das malfadadas juventudes, que colonizou o nosso País desde os anos 80. Não são só os ordenados acima de 3000 € (14 meses/ano) logo aos 20 e poucos anos, mesmo em tempo de crise. É a incompetência, inexperiência e falta de sensibilidade social de uma nova classe vampiresca muito mais interessada em singrar na vida de qualquer maneira do que em servir o Povo que no mínimo elegeu os seus patronos (igualmente ignaros mas normalmente mais velhos). Fora a via revolucionária só vejo uma solução: primárias para todos os cargos políticos (deputados, ministros etc.) em todos os Partidos e limites mínimos de idade e/ou CV profissional para assessores e afins. Não sendo a solução perfeita não vejo outra forma de nos livrarmos de grande parte dos B&G de todas as idades, condição que considero fundamental para restaurar alguma ética e assim ter moral para implantar um plano credível e mobilizar o País. E isto claro associado ao encerramento dos cerca de 1500 (?) organismos, observatórios, fundações etc. completamente inúteis, coio de vários B&G obviamente com seus imóveis, “staff”, carro, motorista etc.


– Igualmente importante é a renegociação da divida. Deixemo-nos das “bazófias” estúpidas de quem não sente a austeridade e só quer levar palmadinhas nas costas dos F–P da UE. Para haver dívidas é preciso haver quem peça emprestado mas também quem empreste e aí ninguém ultrapassa a Banca alemã. Já Portugal estava quase na situação económica atual de qualquer trabalhador alentejano reformado e aí estavam eles a financiar (indiretamente claro) Submarinos, Pandur`s, PPP`s etc. Mesmo agora gostaria de saber quem está a financiar a compra maciça de carros topo de gama, quase todos alemães? Não é com vinte e poucos mil milhões de euros que se recupera uma economia diligentemente destruída durante mais de 3 anos por uma “triade” de aprendizes de feiticeiros liberais servilmente apoiados pela maior quadrilha de autistas insensíveis que governou o País desde 1974. Portugal tem de se aproximar pelo menos da Itália, Espanha, Grécia e Irlanda para defender aquilo que é fundamental: diminuição dos juros e aumento dos prazos de pagamento da divida. Mas até poderia haver mais: só uma contabilização de quanto nos custou formar a MO qualificada que teve de emigrar para a Europa Central e que agora UK, Alemanha, Suiça etc., aproveitam de borla (mas não deviam porque nós não trabalhamos!), deve dar uns bons milhões de euros que deviam ser abatidos à divida. Ou será que a nossa redução para o nível da China foi também para isto? E não falando dos incríveis perdões da divida alemã da Guerra Mundial! E é preciso analisar com cuidado o que é realmente o “quantitative easing” tão propalado. Isto de troca de obrigações por liquidez (aos Bancos) parece-me muito mais uma nova injeção de capital nas instituições financeiras à nossa custa que outra coisa.


– Por ultimo a estratégia para o País. Uma das características mais notáveis deste Governo é a sua absoluta incapacidade de construir seja o que for. Parecem os US quando invadem um País, destroem tudo, estabelecem o caos e depois abandonam as vitimas, deixando um capital de ódio para eles incompreensível! Na minha opinião, face aos recursos disponíveis, não se pode novamente promover investimentos que não sejam sustentáveis e tenham retornos assegurados. Por isso o betão e asfalto, exceto em casos óbvios como o Porto de Sines e a ligação ferroviária Sines-Europa Central, me incomodam, pese embora reconhecer a sua importância para o emprego e o efeito de arrastamento que possam ter. No resto sou um defensor entusiasta das recomendações de Michael Porter: “façam o que sabem fazer mas melhor e de forma mais integrada”. Foi o que os setores do vinho e dos sapatos, móveis e texteis de qualidade e dos moldes fizeram com o sucesso conhecido. Portugal, dada a sua dimensão, localização e estrutura não pode, na minha opinião, envolver-se em setores de produção em massa facilmente exportáveis tipo telemóveis, “chips”, memórias etc. Terá sempre de procurar “nichos”, de preferência com alto valor acrescentado como a filigrana e certamente outros, ou bens perecíveis ou ainda aqueles em que temos claras vantagens naturais (vinho, cortiça, etc.) ou adquiridas (moldes etc.). E os investimentos (reais, não financeiros) nas áreas estratégicas têm de ser descriminados positivamente, como aliás já se tentou fazer antes com o SIII. É esta definição estratégica umas das principais diferenças entre os socialistas e sociais-democratas verdadeiros e os liberais de pacotilha que (des)governam o País e ainda acreditam que Salgado, Oliveira e Costa, Bava, Granadeiro e alguns outros têm uma palavra válida a dizer. Ainda na minha opinião deve ser criado um Conselho Estratégico Nacional, englobando os Parceiros Sociais, o CES, alguns (poucos) políticos seniores e nenhum B&G para definir esta linha de rumo, que deve ser submetida a escrutínio público. E como certamente não vou lá estar, aqui vão algumas das minhas opiniões atuais, certamente superficiais e incompletas, colhidas de várias fontes:


– Agricultura: Segundo parece Portugal está particularmente vocacionado para a produção de vegetais e flores fora-de-época, mesmo sem recurso a estufas. É um setor onde já há experiência, inclusive exportadora, e que parece necessitar de bastante mão-de-obra e pouco investimento. O equipamento para estufas pode ser feito no País e a sua regulação (humidade e temperatura) não é dificil. Havendo falta de terreno pode-se ir sempre para o arrendamento compulsivo, o que aliás já devia ter sido feito há anos. Também o milho é considerado como sendo o único cereal de alto rendimento que se pode produzir no País. Será assim? Claro que o vinho de qualidade deve ter a primazia sobre todos os outros! E ainda resta a bomba atómica, legalizar as drogas leves e permitir a plantação de “cannabis” como o fazem a Holanda e pelo menos 6 ou 7 Estados Americanos.


– Pescas: Não há Partido que não diga em campanha que vai apoiar as pescas e quando no Governo não apresente quotas mirabolantes para algumas infelizes espécies. Só que nem essas são atingidas e a razão é simples: Os “stocks” de quase todas as espécies em águas Europeias estão a diminuir todos os anos! É como se se fixasse uma quota de duzentos patos bravos por dia só que no deserto do Sahara. Mesmo que o Governo disponibilizasse alguns Ministros, Secretários de Estado e B&G como alvos, seria difícil.


– Aquacultura: Portugal importa anualmente uns largos milhões de euros de pescado. Claro que nem todos (i.e. sardinha) podem ser criados em aquacultura mas muitos podem e já são. Em vez de discursos vazios sobre a economia do Mar, não seria inteligente analisar cuidadosamente com quem sabe como aumentar a produção, quer para consumo interno quer para exportação? E como criar alevins, o que exige um acompanhamento técnico que certamente poderia interessar a muitos dos nossos jovens quadros??


– Floresta: É um dos setores com maior pujança em Portugal mas a matéria-prima já escasseia, enquanto os incêndios continuam forte para gáudio das Televisões (exceto nas áreas administradas pelas papeleiras e no Alentejo) e proveito dos fornecedores de equipamento. A vária legislação, insistindo sempre em multas e coimas sobre proprietários desconhecidos por não limpeza das matas, claro que não leva a nada. Não seria boa ideia analisar sériamente as razões das falhas com quem conhece o terreno, e corrigir as causas, nem que para isso se tenha de ir para arrendamentos compulsivos, ampla utilização de drones de deteção (outra área para os nossos jovens quadros) ou outras medidas menos ortodoxas? E não se deveria acarinhar mais o montado? E porque não há (que eu saiba) no maior produtor do Mundo máquinas de desfalcar, o que deveria aumentar a produção significativamente?


– Industria: A indústria é um campo muito vasto e portanto de análise difícil. Há setores evidentes do tipo montagens, manutenção e agroindustrias e alguns altamente discutíveis, como a construção civil, sobretudo pelo poder “sugador de recursos” que o seu “lobby” sempre teve. Quanto aos outros há que os analisar de forma aprofundada, desde o caso evidente (pela positiva) dos moldes, até aos mais esdrúxulos. De qualquer forma acho que o enfoque deve ser sempre em “nichos” e nunca em produções em massa, onde seremos sempre muito vulneráveis.
Serviços: É indiscutível que dos chamados serviços, o turismo é o mais importante no País. Até que ponto foi beneficiado pela instabilidade da “primavera árabe” não sei, mas o facto é que parece ter-se ultrapassado o clássico “sol e praia” para algo mais sustentável como se faz atualmente em Lisboa e no Norte. Sempre defendi que se deveria tomar o caminho de uma animação inteligente mas há ainda dois setores que acho que deveriam ser estimulados: o “turismo de saúde” tão em uso na Ásia, aproveitando as inúmeras instalações termais quase abandonadas e os delfinários, fonte de grande atração em inúmeros Países e mais uma vez enquadrável na Economia do Mar. Quanto às TIC,s reconhecendo embora os seus vários sucessos, não lhes vejo massa critica nem capacidade de gerar emprego (exceto nos malfadados “call centers”) que justifiquem apostas estratégicas.


– Transportes: Para mim um dos grandes erros dos Governos Sócrates foi a aposta (indireta) no transporte rodoviário, o mais caro e o mais poluidor, em detrimento do ferroviário. E não só: tanto o gasóleo como a gasolina, o “jet-fuel”, o GPL e o próprio asfalto são produtos derivados da refinação do petróleo e para os quais (exceto no caso da gasolina), não há ainda alternativas técnicas e sobretudo económicas bem estabelecidas. Tal coloca um limite (por enquanto inultrapassável) na diminuição da quota de petróleo nas importações do País, não porque seja usado para produção de eletricidade (neste momento residual) mas pelo seu uso como matéria prima para a produção sobretudo de combustíveis líquidos, plásticos e fertilizantes. Por isso (e não só), na minha opinião, a importância das viaturas elétricas, do biodiesel a partir de microalgas (mais uma vez a tal Economia do Mar) e do transporte ferroviário inteligente dos nossos produtos para o centro da Europa (já há quem estude o transporte ferroviário do próprio camião TIR carregado).


– Energia: É indiscutível que sob o ponto de vista conceptual a questão das renováveis foi um dos grandes sucessos dos Governos Sócrates. Mas também que, ao fim de um período de digamos 5 ou 10 anos, não se fez qualquer auditoria ao que tinha ou não provado e sobretudo aos custos reais da sua produção e às tarifas em vigor. Tal levou, com o costumado “chico-espertismo” nacional, a distorções gigantescas como por exemplo a energia das ondas ou a das foto-voltaicas que desacreditaram o esforço junto do contribuinte, levado a crer que eram essas distorções o principal responsável pelos enormes incrementos das facturas de energia. E em grande parte foram-no (face aos custos de produção “clássicos” de cerca de 60 € /Mwr) não diretamente mas graças a vários “apêndices” que o produtor quase único conseguiu contratualizar, como Mira Amaral não se cansa de denunciar. No entanto continua o facto de que Portugal é particularmente beneficiado não só no que respeita a cursos de água (para eletricidade e/ou rega) como por uma taxa de insolação elevada no Baixo Alentejo interior e Algarve e ainda, segundo parece, por uma taxa anual de produção de biomassa notável. São entre outros estes fatores, a que se deveria juntar uma maior aposta (critica) na produção de eletricidade por placas oscilantes junto à costa, assim como uma auditoria ao que já está feito, que deveriam conduzir a um relançamento efetivo mais transparente e credível de um novo Plano Energético Nacional.


– Investigação: A investigação é um ponto difícil de analisar dada a sua extensão, a continuada dicotomia entre básica e aplicável e até que ponto é aceitável impor orientações, evitando a falta de uma estratégia. De notar no entanto que, embora anárquicas, tais orientações já existem, muitas vezes sob a forma de apoios apenas a temas predefinidos por outros e que pouco têm a ver com as nossas necessidades como País. O caso dos investigadores portugueses a trabalhar no CERN ou na fusão nuclear é paradigmático. Na minha opinião deveriam descriminar-se positivamente os temas que nos interessam, alguns dos quais indicados nos pontos anteriores. Mas para tal é preciso resolver o problema base dos objetivos, do financiamento e como escolher e formar as equipas. Sobre este assunto acho que se deveria fazer uma reflexão aprofundada sobre o sistema anglo-saxónico de “grants” e analisar o papel das empresas, que no caso dos Centros Tecnológicos tem sido muito importante.

Fotografia de capa por kevin dooley

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António Jardim

Engenheiro

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