Agora que se aproximam as eleições é bom fazer um pequeno exercício de memória.

António Lobo Xavier (militante do CDS) afirmou no programa da SIC Notícias, “Quadratura do Círculo”, que haviam sido o PSD e o CDS que forçaram a intervenção da “troika” em Portugal, com o objectivo de pressionar o Governo de José Sócrates. Lobo Xavier disse que nem mesmo a chanceler alemã Angela Merkel queria que o resgate a Portugal fosse feito da forma como foi.

“No princípio a senhora Merkel não queria uma intervenção concertada, regulada, com memorando, este aparato formal de memorandos com regras, promessas e compromissos tudo medido à lupa”.

No mesmo programa Pacheco Pereira (militante do PSD) realçou que este “formato foi desejado como instrumento de pressão externa para a política interna”, considerando que “houve alguém que desejou e que o utilizou de forma teórica e política”. Neste debate, tanto Pacheco Pereira como Lobo Xavier apelidaram o primeiro-ministro de “aprendiz de feiticeiro”.

À boleia da troika o governo PSD/CDS outra coisa não fez do que implementar um agenda ideológica de direita. O jornal Dinheiro Vivo, citando diversos economistas, no ano passado (21 de Junho), escrevia que: “Entre o início da crise financeira de 2007/2008 e o final de 2013 assistiu-se, em Portugal, a uma transferência de riqueza do factor trabalho para o capital de grandes proporções.”

Na campanha eleitoral para as últimas legislativas, Passos Coelho assegurou que não seria necessário baixar salários, pensões e reformas ou retirar subsídios. O equilíbrio das contas públicas far-se-ia com a redução de gorduras nos sectores intermédios do estado, a diminuição das rendas das parcerias público-privadas e, a longo prazo, com uma profunda reforma da Administração.

Passados quatro anos, verifica-se que o primeiro-ministro Passos Coelho aplicou medidas precisamente opostas às que tinha prometido. Mentiu-nos, numa atitude em que foi acompanhado pelo seu parceiro de coligação, como já muito bem notava Paulo Morais, em artigo no Correio da Manhã (9/4/13):
“O CDS defendia a diminuição da carga fiscal, até chegar ao governo e se tornar cúmplice do seu agravamento.”

“O comportamento de dirigentes que, deliberadamente, enganam o povo em campanha não é admissível. A democracia só é autêntica quando se contrapõem, nas eleições, projectos alternativos. Os eleitos devem-se sentir obrigados a honrar e implementar o programa vencedor. Não há desculpas para não cumprir, nem mesmo o desconhecimento da realidade concreta. Quem se candidata a lugares desta importância não pode revelar tamanha incompetência. Com estas práticas de mentira reiterada, desacredita-se todo o sistema democrático.
Os deputados votam leis contrárias ao programa a que se vincularam em campanha, violando assim a lealdade que devem aos seus eleitores. Os partidos do arco do poder transformaram os processos eleitorais, que deveriam servir para o debate de ideias e confronto de projectos políticos, em circos de sedução, em que acaba por ganhar quem é mais eficaz a enganar os cidadãos. As eleições transformaram-se em concursos para a escolha do melhor mentiroso. O troféu em jogo é a chefia do governo.”

Entretanto, João Almeida, primeiro nome do CDS na lista da coligação “Portugal à Frente” pelo distrito de Aveiro, afirmou em 2013 que os eleitores obrigam-no a mentir para poder ganhar as eleições… Ouve-se e não se acredita. Em vez de ser afastado, dois meses depois de ter largado esta pérola no programa “Prós e Contras” (RTP, 23 de Outubro) foi nomeado secretário de Estado da Administração Interna…

Concluindo. PSD e CDS forçaram a queda do governo socialista – com a ajuda e um empurrão decisivo de Cavaco Silva – devido à sede do poder. Para isso mentiram ao país com todos os dentes.
A política de ir para além da troika tem uma marca ideológica muito clara: empobrecimento geral do país, expulsão de meio milhão de portugueses para a emigração, destruição paulatina da escola pública, do Serviço Nacional de Saúde e da segurança social, com vista à sua privatização, destruição de mais de 210 mil postos de trabalho (menos 66,6 mil jovens com trabalho e um desemprego jovem que atinge 31,6%), um desemprego real a rondar os 28 por cento da população activa, destruição da classe média e diversos episódios de perseguição fiscal, a quase paralisação judiciária devido à pane do Citius, e uma ministra de relações cortadas com os operadores judiciários, aumento exponencial da dívida pública, descontrolo do défice, e muitas outras mazelas.

Quando esta gentinha que governou nos últimos anos nos vem agora pedir de novo um voto de confiança, com falinhas mansas, novas promessas (que não são para cumprir, já se sabe!) e um programa sem medidas nem orçamentação, ou seja, quando nos vem pedir um cheque em branco, há que saber dizer: cheque? xeque-mate!

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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