“Porque a felicidade é também uma reivindicação política. Deveria ser a reivindicação de uma vida feliz em comunidade, a predisposição de uma comunidade para viver intensamente, para existir intensamente”.
(José Gil, jornal I)



José Gil, em entrevista a Luís Osório, para o Jornal I, diz que pensar não é só urgente. É mesmo uma questão de vida ou de morte.


O filósofo defende que, mais do que apenas os portugueses, mas os europeus em geral, têm que “pensar numa nova teoria do poder, uma nova organização que repense a democracia”. Ou seja, a nossa forma de viver em sociedade precisa de ser repensada, questionada, porque não está a funcionar bem. O equilíbrio de forças, o poder, a guerra, a violência, o crime, tudo isto necessita de uma reflexão profunda que ainda não foi feita, de modo que “estamos como o antropólogo diante das sociedades primitivas”.


A alternativa, no dizer do filósofo, é sermos capazes de nos abrir ao novo, mas isso só acontece em situações de crise como esta, quando forças externas nos obrigam “a pensar onde estamos”, mas por medo. O problema é que o medo nunca foi bom conselheiro do pensamento. Foi por medo que os povos abriram as portas a ditadores implacáveis que os acabaram por destruir, como a história da Europa atesta.


José Gil não reconhece elites na actual classe política, mas apenas pessoas normais, com duas ou três excepções. Pelo que se torna urgente encontrar homens “fora do seu tempo, fora da superfície”. E sem medo de existir. Só assim poderemos sair da actual situação de volatilidade, da banalização permanente, de forma a passarmos a dar importância ao que é realmente importante, uma vez que “já não distinguimos bem o que é importante do que é acessório”.


Este é um dos problemas do nosso tempo, que contagia a política, a religião e todos os domínios da vida em sociedade. Perdeu-se a noção do essencial, do que é realmente importante, levando a um desgaste escusado e a uma perda de tempo que poderia ser precioso para combater o que é realmente fundamental.


Por outro lado o pensamento único é inimigo da criatividade e da liberdade, e por isso “o mundo tenta domesticar quem pensa o que não é o pensamento único”. Isso sucede através da ditadura dos média mais poderosos, que nos impede de pensar, tornando-se eles mesmos a própria mensagem. Vimos isso com a política da troika e da EU, que contribuíram decisivamente para a destruição das sociedades nos países europeus periféricos, como vai hoje sendo reconhecido por quase todos.

Fotografia de capa por dSeneste.dk

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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