A eleição do presidente da República é só em Janeiro de 2016 mas já há candidatos com fartura; é uma espécie de “raspadinha” em que se anunciam, ou se perfilam, Henrique Neto, Paulo Morais, Paulo Freitas do Amaral, António Sampaio da Nóvoa, Manuel Carvalho da Silva, Rui Rio, Pedro Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa. E em que também já se falou de Helena Roseta, Maria de Belém, António Guterres, Jaime Gama, António Vitorino, Paulo Portas, sendo que estes seis já disseram, por razões diversas, que não estão “nem aí”.


Das eleições legislativas que se realizam meses antes, em Outubro próximo, e de que sairá o verdadeiro Executivo, não se fala tanto como isso. Compreende-se, os partidos do chamado “arco da governação” estão de acordo no essencial e não oferecem, por ser assim, a possibilidade de uma verdadeira opção ao eleitorado; a escolha reside afinal entre uma austeridade “hard” e uma austeridade mais “soft”.


É certo que António Costa proclama, com razão, que nos últimos quatro anos, Portugal andou “muitas décadas para trás”, sendo “o grande aumento da pobreza” o indicador mais grave desse “retrocesso”. Mas mesmo ao juntar a este indicador os factos da riqueza produzida no país estar ao nível de 2003; da população empregada ser igual à de 1996; do investimento ter caído para um nível semelhante ao de há 30 anos; dos números da emigração não serem “tão elevados desde 1966”, não se vê como vai o PS resolver os problemas, mantendo simultaneamente o respeito pelos compromissos europeus, pelo (impossível) pagamento da dívida, pela redução das (inexistentes) gorduras do Estado.


O sistema capitalista é um sistema-mundo e quem lhe aceita as regras, como é o caso de Portugal e dos partidos políticos portugueses com maior expressão eleitoral, não tem muito por onde dar a volta. Por isso, “os riscos e incertezas que afectam a economia portuguesa estão ligados aos que podem vir a afectar a economia mundial”, e o incremento das nossas exportações “depende, em primeira instância, do comportamento dos mercados externos mais relevantes”, como se diz no Relatório do Conselho das Finanças Públicas, que analisa a “Situação e Condicionantes” da nossa economia para os anos de 2015-2019.


Além disto, e conforme o mesmo documento, “no caso específico português, são relevantes os efeitos que os elevados níveis de endividamento da economia podem induzir na dinâmica de crescimento. Para lá de um elevado nível de dívida pública, Portugal é também um dos países europeus com maiores níveis de divida privada (228% do PIB, no final de 2014)”. E há ainda a vulnerabilidade portuguesa às “variações da taxa de juro, resultante do elevado nível de dívida”. Na nossa economia mantem-se “a tendência para o crescimento ser essencialmente suportado pela procura interna”, mas o “crescimento modesto do emprego”, aliado a “uma redução lenta” do desemprego, faz prever que “o crescimento do consumo público não deverá ser suficiente para cumprir os objectivos estruturais”.


Ora é neste quadro que as eleições para a Presidência da República ganham particular importância. Eleito uninominalmente, o locatário de Belém, para além dos poderes fáticos de garante da independência nacional, da unidade do Estado, do regular funcionamento das instituições democráticas, e de comandante supremo das Forças Armadas, tem um poder simbólico inultrapassável, como único e verdadeiro representante de todo o povo. Deve influenciar decisões, mediar conflitos e, sobretudo, representar os portugueses e defender os seus interesses de forma transparente e democrática e não no segredo dos gabinetes e ou na esfera de influência deste ou daquele partido, deste ou daquele grupo empresarial.


Quando da “raspadinha” das presidenciais emergirem os verdadeiros candidatos, Sampaio da Nóvoa pode contar com o meu voto. O ex-magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, duas vezes doutorado, com um percurso académico notável (entre Genebra, Madison, Oxford, Nova Iorque, Paris, Lisboa) é um homem bom, com “uma relação forte com o país” que entende ser da responsabilidade dos cidadãos que, por isso, devem “fazer alguma coisa por ele”.


É também alguém que nunca trilhou os caminhos propriamente políticos, sem que isso o impeça de afirmar “um sentido muito agudo de bem comum”. Um homem que confessa a influência de António Sérgio na trajectória do seu pensamento, que sabe viver com continência, e que recusa o “jogo da bajulação, da pequena intriga”. Finalmente, é alguém que se afirma “uma pessoa mais do contra-poder do que do poder”. Tanto me basta. Não vou jogar na “raspadinha” mas votarei em Sampaio da Nóvoa.


Nota: o autor não escreve com o Novo Acordo Ortográfico.

Fotografia de capa por dynamosquito

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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