As eleições de 4 de outubro determinaram uma alteração profunda no quadro politico português. A direita teve o seu segundo pior resultado de sempre apenas melhor que o de Santana Lopes em 2005.

Existe uma maioria de partidos de esquerda na Assembleia da República mas com uma dispersão de mandatos que não permite apresentar uma solução governativa credível. O PS teve um significativo crescimento eleitoral mas que não lhe permitiu atingir o objetivo de ser o maior partido parlamentar.

A criação de um novo Governo de direita, agora com uma mara maioria relativa, tem viabilidade constitucional mas só terá viabilidade política caso seja assumida com clareza a alteração de rumo em domínios como a estratégia económica ou a relação com as políticas sociais que permita admitir a sua viabilização parlamentar.

Medidas como os atentados à Constituição da República cometidos nos últimos anos ou marcas de preconceito ideológico como o retrocesso em matéria de IVG não serão possíveis neste novo quadro político. A eventual constituição de um Governo do PS dependeria do fracasso da tentativa inicialmente atribuída à coligação de direita e de garantias efetivas de estabilidade governativa.

As eleições demonstram uma inequívoca vontade de mudança toldada por um resultado politicamente inconsequente. A dispersão de votos entre forças de esquerda criou as condições constitucionais para a reivindicação da vitória e do direito a formar Governo pela direita.

De algum modo podemos dizer que estamos perante uma mudança política que ficou a meio caminho . A lucidez na gestão política das próximas semanas determinará em que medida a vontade incompleta dos portugueses por uma mudança de ciclo político se consolida ou se perde nas tentativas de desestabilizar o PS e nas conversas fratricidas típicas da esquerda portuguesa.

O distrito de Setúbal foi um caso exemplar de manifestação clara de vontade de mudança com a perda de cerca de um terço do eleitorado pela coligação de direita e a vitória do PS em todos os concelhos.

Ana Catarina Mendes foi o rosto de uma campanha de proximidade que apostou na confiança na capacidade de colocar a nossa região no centro da estratégia de desenvolvimento do País. Maria Luís Albuquerque foi o rosto do que os setubalenses não desejam que prossiga.

Por mais que a direita se tente convencer que é mais do mesmo entramos numa nova fase da vida política portuguesa com a primeira tentativa de constituição de um Governo de direita com uma maioria parlamentar de esquerda. Esperemos que os próximos tempos permitam aprofundar e consolidar o desejo de mudança.

Fotografia de League of Women Voters of California

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Eduardo Cabrita

Deputado do PS eleito pelo distrito de Setúbal
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