Passava perto da Gulbenkian nesta quase húmida manhã de 25 de abril.

Quase na esquina tropeço com o João Palmeiro, o “outro” que entre 1975 e 1989 fui responsável pelo Centro de Difusão de resultados Eleitorais.

Por aqui? Disse-lhe eu, estou nas últimas lembranças de há quarenta anos daqueles sete dias épicos que foram a instalação, treino e gestão do Centro de Imprensa da Gulbenkian, de 21 a 28 de Abril de 1975….,.

Mas é dificil lembrar, disse-me ele, das centenas de jornalistas portugueses que pela primeira vez trabalharam em eleições livres, não estarão agora ativos mais do que umas poucas dezenas.

A memória vai-se, sobretudo a das Redações dos jornais, e, já ninguém se lembra como foi, quanto mais o que foram aqueles dias cheios de promessas e de reconhecimento do quase milhar de correspondentes estrangeiros aportados em Lisboa para o coroar da revolução dos cravos…

A Memória, essa traidora com quem temos de aprender a conviver nas faltas e nos atrasos quando e sempre que a chamamos e ela está entretida a vasculhar outras épocas ou outros dias da nossa vida.

A chuva ameaçava mesmo mas “o outro” João Palmeiro parecia indiferente, absorvido na doçura que o seu olhar transparecia de uma memória feliz. Ali na Gulbenkian tinha sido feliz durante os anos em que o fluxo eleitoral foi comandando o sonho dos portugueses, depois mudado para o Forum Picoas e finalmente numa teimosa certeza de que um centro de imprensa se faz onde houver liberdade, vontade e responsabilidade para o Palácio Foz, ali nos Restauradores, onde décadas antes vivera a propaganda e a censura.

Foi difícil, perguntei, por esses dias os jornalistas deveriam querer passar à frente de tudo e todos na última (digo eu) saudável concorrência de notícias sem telemóveis ou ainda dígitos para além dos bauds que corriam nas linhas dos telexes.

Grandes debates se viram na televisão disse “o outro” como quem quer mudar de conversa para o tema do dia.

Hoje nem grandes nem pequenos, os debates são matéria da política, sem sentido, e que nos está a aprisionar cada vez mais.

E reparei que do outro lado do passeio a Maria tinha acabado de abrir o chapéu de chuva e ainda me acenou um breve, estou com pressa vou para a Assembleia…

No dia da liberdade estávamos a aprisionar a nossa memória nas vãs coisas do mundo. Então não era que a Assembleia queria reinstalar a censura? Era uma pilha de linhas que os jornais do dia tinham acrescentado as vociferações dos dois últimos dias.

Afinal nem com memória se sabia ao certo se uma «tal» lei existia ou não.

Mas há quarenta anos, foi fácil? Insisti, recordando “ao outro” João Palmeiro que a lei mãe de todo o descontentamento era precisamente de 1975, da mesma leva quem nos dera a Lei de Imprensa e afinal, porque a cobertura das eleições era coisa diferente do dia a dia de um repórter e por isso merecia lei especial e própria.

Não, não foi difícil porque todos esperavam menos do que o que foi possível fazer, sussurrou ao meu ouvido não fosse alguém pensar que se promovia, mesmo sem escolas de jornalismo ninguém seria capaz de escrever que uma lei dizia o que lá não está.

Afinal, concluiu “o outro” lembrando-se de recente aventura para relançar o Partido Liberal Português, e que não passara da largura de uma coluna nos diários de Lisboa ou de uma breve envergonhada nos semanários, não percebi como é que não viram que os partidos com assento parlamentar continuavam a ter a vantagem de existir e que a tal comissão só existia para quando alguém se queixasse.

A humidade do ar engrossara, o Presidente da República já tinha começado a falar na Assembleia, ainda que meio entrecortado pelo reflexo da montra do café da esquina, timidamente aberto, à espera da transmissão direta do futebol da manhã na Sportv…

“O outro” João Palmeiro desaparecera enquanto eu estava absorvido a comentar com os meus botões aquela imagem televisiva pós eleitoral que me habituara a considerar como o ponto final de cada uma das salas de imprensa eleitorais.

Se calhar ele, “o outro” fazia parte do tal complot. Mas qual? O da comissão de censura que não existia ou o da mediocracia que todos fazem de conta que não veem?

Eu também não, e antes que a Maria voltasse e me pedisse ajuda, deitei fora as memórias e, sem querer, choquei com a Olinda que confundido-me com o outro exclamava:

“Venho aqui todos os anos cheirar este parque da Gulbenkian onde deixámos tantas e tantas esperanças de que um dia mais tarde todos quereriam saber como tinham sido, aqueles frenéticos e criativos dias mas de que já ninguém tem memória”.

Deixa lá, sorri-lhe eu sem explicar que era o outro, e feliz porque o parque da Gulbenkian era agora para mim definitivamente feliz. Mesmo sem a memória das eleições de há quarenta anos.

(Perdoem-me os leitores o sentido metafórico e nostálgico destas linhas, mas às vezes Portugal inventa mesmo umas coisas que só a felicidade salva).

Fotografia de capa por pedrosimoes7

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João Palmeiro

Presidente da Associação Portuguesa de Imprensa

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