As proclamações políticas sobre o reconhecimento do mérito na vida profissional não conferem com a realidade.

Recentemente foi conhecido um estudo (“Valores, Qualidade Institucional e Desenvolvimento em Portugal”), desenvolvido por oito investigadores, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que concluiu exatamente o oposto. Ou seja, que a chamada meritocracia não passa de um fator sem grande relevância na evolução profissional dos portugueses, já que tanto o recrutamento como as promoções baseadas em critérios universais de qualificações e desempenho continuam a não exercer influência decisiva.

As seis entidades cujo funcionamento foi avaliado com detalhe, são: Autoridade Tributária; EDP; ASAE; CTT; Bolsa de Valores; e Hospital de Santa Maria.

Embora estas empresas e organizações em regra funcionem bem, segundo as conclusões da investigação, e estejam abertas a “novos procedimentos e novas tecnologias”, o grande problema é mesmo a irrelevância do mérito, tanto por via da austeridade, que congelou recrutamentos e promoções na carreira, como (o que é mais grave) pelas “preferências e conexões pessoais”, as quais desempenham “um papel fundamental em várias situações”. Apenas 16 por cento dos inquiridos acredita que, “se seguirem as regras e fizerem o seu trabalho de modo competente, as pessoas são promovidas”.

Tanto na ASAE com o nos CTT crê-se que a cor do governo, os pequenos favores e as relações pessoais ou políticas representavam fatores importantes, em especial antes da privatização. Mas o que provocou mais ressonância na opinião pública foi a conclusão a que chegou esta investigação, de que o Hospital de Santa Maria estaria cativo de lealdades ideológicas, filosóficas e religiosas, pelo que, em lugar do mérito, haveria favorecimento de pessoas ligadas a partidos políticos ou associações secretas.

A quase irrelevância do mérito parece ser, portanto, a maior falha detetada neste exame, o que não deixa de ser estranho num país que é parte da União Europeia e que se quer desenvolvido e a olhar o futuro. Se o facto de alguém trabalhar de forma competente não conta quase nada para as promoções e a progressão na carreira profissional, então estas empresas e organizações estão a dar um tiro no pé. Além disso o discurso do governo não passa de um mero arrazoado de palavras sem sentido.

Sendo assim, qual é o estímulo ao brio profissional, ao aperfeiçoamento dos procedimentos, à dedicação a uma empresa ou instituição que nos paga, à comparticipação e co-responsabilização no resultado final dos produtos ou serviços por elas prestados ao cidadão, cliente ou utente? É o próprio sistema de organização social e do trabalho que está em causa, uma vez que a ideia liberal se baseia no esforço do indivíduo, que espera assim ser recompensado pelo seu trabalho, esforço e dedicação.

Se nada disto conta só podemos esperar então uma política de massificação, despersonalizada, os inevitáveis conformismos, cinzentismos, inércias e talvez… a emigração.

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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