Um leitor atento de jornais certamente que já terá notado padrões de comportamento dos media onde alguns temas interessam a uns jornais mais do que a outros. Não estou a falar de jornais de desporto, económicos ou de política, mas de certas notícias que se desenvolvem como um folhetim, com o seu novo episódio a cada dia, geralmente tratado como uma ‘cacha’ jornalística, ainda que o tema não interesse de igual forma a outros jornais.
Poderíamos dizer que tais notícias se devem a ‘fontes bem colocadas’ a que só esse jornal tem acesso, o que seria verdade se não fosse o caso de, sempre que surge alguma notícia com sinal diverso daquele para que as ‘fontes bem colocadas’ apontam, o jornal as ignorar, ou remetendo-as para algum recanto discreto nas suas páginas interiores.
Usar os media para veicular ódios particulares não é novo, já Eça de Queirós nas suas farpas referia alguns jornalistas que filavam as suas ‘vítimas’ por simples vaidade ou vingança pessoal. Naturalmente que o leitor interessado encontrará nos dias de hoje bons exemplos do que digo.
Esse tipo de jornalismo não é exclusivo da imprensa sensacionalista. Mesmo a chamada imprensa ‘séria’ não escapa à manipulação organizada pelos seus próprios jornalistas com o objetivo de favorecer interesses pessoais, ou retribuir serviços de ‘fontes bem informadas’. Acontece por exemplo em tempos de formação de governos, quando a imprensa aponta nomes de ‘ministeriáveis’  com o propósito de destacar as qualidades de algumas das pessoas que são fontes do jornal. Do mesmo modo, outras personalidades são citadas como tendo sido ‘sondadas’ com o propósito de as ‘queimar’, perante quem sabe que não as convidou.
Esta manipulação da informação pelos seus próprios agentes (jornalistas e diretores) tem-se tornado mais evidente nas últimas semanas do período pós-eleitoral. Uma onda de propaganda – claramente orientada para criar um clima de suspeição – tem enchido os jornais com editoriais e artigos de opinião dos seus próprios jornalistas.
Naturalmente que não há mal nenhum em que os jornais tomem uma posição política. É melhor até que se assumam de direita ou de esquerda, que apoiem este ou aquele candidato, do que pretenderem fazer-se passar por isentos quando na realidade não o são. Ao menos, daquela forma, os leitores sabem ao que vão. O problema é mais grave quando, no afã de ver realizados os seus desejos ou de fazer passar os dos outros, os media se tornam agentes de desinformação, espalhando boatos ou omitindo informação.
Há algum tempo, um profissional da comunicação, cuja memória respeito, disse que eleger um político “é como vender sabonetes”. Foi um lamentável lapso, no contexto em que a afirmação foi proferida, porém ela é infelizmente verdadeira.
A comunicação social tem um papel relevante na capacidade de influenciar as decisões dos eleitores, quer para eleger quer para demitir governos. Esse poder resulta não da sua habilidade de condicionar a capacidade de decisão dos cidadãos, mas na sua credibilidade. Porém, a credibilidade esgota-se e a mentira tem a perna curta.
Ao alinhar na propaganda, alguns jornalistas podem conseguir alcançar os seus objetivos pessoais, mas a maioria dos leitores perde a confiança nos media. Quando a informação de um jornal não valer mais do que a de um folheto de promoções de supermercado, perdemos todos. E isso, meus amigos, é muito pior do que a censura.

Fotografia de striatic

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José Mendes

Jornalista
Licenciado e mestre em Sociologia; Auditor da Defesa Nacional. É titular de Carteira profissional de Jornalista e iniciou a atividade com o aparecimento das rádios piratas; Foi redator na Rádio Azul, de Setúbal, e chefiou a redação da Rádio Pal, em Palmela. Em 1989 integrou corpo redatorial da Rádio Comercial desempenhando funções de repórter parlamentar de 1991 a 1998. De 1999 a 2006 foi diretor de Informação da Media Capital Rádios. De 2007 a 2010 foi o responsável pelas delegações regionais do Rádio Clube Português. Atualmente é consultor e formador. É também colaborador regular em várias publicações e Provedor no Setúbal na Rede - o Futuro da Região.

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