No dia 8 de Maio, diretores editoriais de jornais, rádios e televisões emitiram um comunicado conjunto pela liberdade de informação, a propósito do novo projeto de diploma do PSD e do CDS-PP para regular a atividade dos jornalistas e dos órgãos de comunicação social durante o período eleitoral.

Não sendo o projeto ainda público, esta tomada de posição pretende claramente condicionar o referido projeto, para que ele se adapte melhor à vontade dos diretores que subscrevem o documento.

Porém, os mesmos diretores que afirmam que “uma leitura do documento permite concluir que a liberdade de informação em Portugal está mais uma vez ameaçada” não parecem compreender que as maiores ameaças à liberdade de informação estão atualmente no interior dos próprios órgãos.

O esvaziamento humano que ocorreu nas redações ao longo dos últimos anos está, cada vez mais, a sobrecarregar os jornalistas que ainda resistem, tornando os problemas de saúde e as consequentes baixas mais frequentes, o que só piora a situação para quem vai aguentando.

Junte-se a isto que, com alguma regularidade, as chefias não consideram relevante abordar temas importantes como o TTIP, propostas e ações de forças políticas emergentes e projectos sociais fora do mainstream, mas arranjam sempre espaço para cobrir a espuma dos dias, sejam sms enviados por líderes partidários ou, pior ainda, reações de outros partidos a esses sms…

Pergunto-me quem será favorecido por tais opções editoriais e a resposta nunca é “o cidadão que se quer informar”. E depois os media espantam-se por terem cada vez menos audiência e por a credibilidade da comunicação social andar pelas ruas da amargura…

Esta minha posição crítica não me faz, todavia, concordar com o controlo prévio dos planos de trabalho dos jornalistas no que toca à cobertura eleitoral. Simplesmente, não a considero a principal ameaça à liberdade de informação.

A maior ameaça a esse pilar democrático está nas más condições de trabalho dos órgãos de comunicação, está em critérios editoriais muitas vezes pouco transparentes, está em quem coloca interesses privados acima do interesse público.

No fundo, o folhetim a que agora assistimos em torno das regras para a cobertura das eleições não é mais do que uma luta entre dois poderes pelo protagonismo na manutenção do status quo. Tudo porque tanto o poder político como o poder mediático são tendencialmente conservadores e encaram a liberdade de imprensa e a liberdade de informar como propriedade sua, quando ambas são como as cantigas da rua: nem minhas, nem tuas, são de toda a gente.

The following two tabs change content below.

Luís Humberto Teixeira

Tradutor

Últimos textos de Luís Humberto Teixeira (ver todos)