Como inúmeros analistas já afirmaram a questão Sócrates arrisca-se a ter efeitos provavelmente devastadores nas perspectivas eleitorais do PS e, muito mais importante, na esperança que tantos portugueses deposita(va)m no seu Governo. Como era de prever muitos já o absolveram claramente, muitos também o condenaram definitivamente e (ainda) poucos tentam manter alguma razoabilidade nas suas apreciações. E cada vez mais, como venho dizendo “ad nauseum” há uns 3 anos, é urgente fazer uma catarse, conduzida pela cúpula do PS, sobretudo sobre o último Governo Sócrates, que nos liberte de vez desta teia em que nos querem envolver. E até nem parece tão difícil:

   

Os motivos pelos quais está detido e presumivelmente irá ser julgado são de índole pessoal e não devem arrastar o Partido. A sua importância (que não serve de justificação se for verdade) é mais de 100 vezes menor que os casos BPN ou BES e inferior aos submarinos e Pandur, e quantos de nós já não viram este “filme” noutros Países. E ainda resta saber se se provam as suspeitas. Só podem tornar-se catastróficas se alguns membros importantes do Partido continuarem a clamar por uma inocência que desconhecem. António Costa faz bem em desligar o Partido do caso individual.

   

Claro que o feitio de Sócrates, convivendo pessimamente com quem o critique ou contradiga (e eu que o diga pelo menos 3 vezes), nada contribui para julgamentos frios ou ações corretas mas a ver vamos, como dizia o cego.

   

Quanto à parte politica que mais nos interessa há, a meu ver, 3 pontos a considerar:

   

Como estratega não houve até hoje e após o 25 de Abril ninguém com a visão de Sócrates e do seu Governo: foi o acabar das lixeiras e a construção de aterros, as energias renováveis, a aprendizagem cedo de inglês, as Novas Oportunidades, o Magalhães, o Parque Escolar, as estradas para o interior, os veículos elétricos etc. Claro que houve erros dos quais para mim os mais graves o favorecimento do transporte rodoviário (inimigo das renováveis) face ao ferroviário, ou o luxo faraónico de algumas escolas, sem capacidade de pagar o funcionamento dos equipamentos (estrangeiros e topo de gama) instalados, preterindo os inúmeros fornecedores nacionais etc., etc.

   

Como gestor dos recursos públicos o problema parece-me mais complicado. Segundo muitos todos estes investimentos, assim como as PPP etc. foram feitos com recurso único ao endividamento, o que levou ao desastre de 2011. No entanto há quem afirme que a directiva de Bruxelas na altura era fazer exatamente isso, uma politica contra-ciclica para combater a crise, o que mais tarde foi abandonado a favor da famosa e inútil austeridade. Conhecendo eu (embora não seja do ramo) a facilidade com que os Bancos da Europa Central financiavam na altura todos os investimentos, sobretudo quando havia empresas deles interessadas, e a igual facilidade com que depois tudo era transformado em divida publica, não me espanta este cenário.

   

É também essencial desmistificar a autoria do célebre “Programa de Resgate” assinado com a “tríade” em 2011. Não só a assinatura pelo então Governo foi “à pistola” perante a ação da aliança espúria então formada, como o seu conteúdo foi em grande parte imposto pelo PSD através sobretudo do inefável Catroga. Além do que lá consta agora aparentemente ter pouco a ver com a versão inicial após todas as revisões feitas. Acho fundamental chamar à responsabilidade todos os participantes com dados concretos e factos. O que não se pode é permitir que sejam assacadas ao PS todas as responsabilidades, quando até o PCP contribuiu para a demissão do Governo e a entrada da “tríade” e da austeridade que agora quer combater.Fotografia de capa por Ordem Tecnicos Contas

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António Jardim

Engenheiro

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