Quero começar por pedir desculpa aos editores do “Setúbal na Rede” por este atraso no envio da minha crónica de provedor do leitor, mas desta vez, querendo corresponder a um apoio do Provedor do Leitor do “Público” acerca do processo de cobertura das eleições (Público 29/8), achei indispensável deixar acontecer os debates eleitorais em Portugal, na Grécia e nos EUA.

As alterações introduzidas à última hora na lei da cobertura mediática das eleições (pelo Parlamento que sai) conduziram os portugueses para uma verdadeira armadilha.

Enquanto o espaço mediático vai sendo ocupado por uma competição entre políticos e jornalistas, entre suportes  concorrentes às eleições, divididos numa 1ª e 2ª divisões, o silêncio ativo das redes sociais, dos blogues e dos sites vai criando uma camada de nevoeiro que, envolvendo o espetáculo mediático, vai fazer emergir um Sebastião no dia 5 de outubro, seja a necessidade de uma coligação, seja um primeiro-ministro de improvável compromisso.

Enuncio-vos apenas os dados da armadilha: o isco é o espetáculo da televisão, a prisão será o desconhecimento das propostas de partidos que por reação ao espetáculo, podem vir a estar na frente das decisões do País.

O argumento para o isco foi forte, um espetáculo que propõe ideias, não pode suportar alternativas em número de participantes, que baralhem os recetores da mensagem e, por isso, os 4 ou 5 partidos do estabelecimento são os necessários (porque têm poder parlamentar) e suficientes (porque evita explicar escolhas entre os outros (17), que vão esticar os boletins de voto).

Mas logo do outro lado do Atlântico, da pátria dos debates e das teses das influências dos media nas nossas vidas e nos nossos comportamentos, chega o impensável, um debate na televisão com 16 (dezasseis…) candidatos à nomeação pelo partido republicano e, entre eles, a estrela candente, as candidaturas às presidenciais americanas em 2016, Donald Trump!

E na Grécia, os ecos que nos chegam são os de uma assumida bipartidarização do sistema num modelo emulado de Nixon versus Kennedy em que o moderador é isso mesmo e apenos isso, moderador.

Numa rádio de informação ouvi um comentário de um jornalista avisado, este modelo na televisão mistura um debate com uma entrevista e os entrevistadores assumem um protagonismo pelo menos igual – maior, diria eu, pois eram três contra dois e a atenção do telespetador concentrou-se mais nos três do que nos dois, pois eles tinham a chave do mais importante, que era a iniciativa.

A armadilha de que falo (e que é da responsabilidade da impensada decisão legislativa dos partidos assentados em S. Bento) é a transformação do tempo das propostas politicas e da sua explicação, num debate entre os media e os políticos, num braço de ferro entre as agendas dos media e a dos políticos, que por vezes se complementaram mais do que antagonizaram, se tivermos em conta a competitividade dos entrevistadores entre si.

A armadilha fica completa, quando compreendemos que o dabate na rádio foi uma continuação do da televisão e onde nem sequer a mudança de suporte foi efetiva, pois os que não tiveram acesso ao streaming na internet, recorreram ao da sua memória sobre a entrevista na televisão…

Embora só um dos três canais tivesse direito efetivo a bisar, o público, verdade é que a matriz ideológica de cada um conduziu, no imaginário do eleitor, a correspondências muito simples, a TSF = à SIC (esteve para ser em 1993) a RR = à TVI (já foi até 2002) e a RDP já se chama RTP. O que em termos de pluralismo e diversidade, repito no imaginário do cidadão eleitor, não é la grande coisa.

A esperança deste modelo estafado da aliança partidos/agenda mediática está nas redes sociais e na internet em geral, que vão tornar muito importantes as outras alternativas mais criativas e por isso interessantes e próximas dos eleitores, como nas entrevistas ou nos debates cruzados, como por exemplo o modelo que o grupo Media Centro (quatro jornais e três rádios) de Coimbra ensaiou há dias, juntando cinco cabeças de lista do Distrito, que tinham em comum serem professores universitários (independentemente dos partidos que os propõem) colocando o debate mais ao nível das pessoas e das suas experiências e competências do que ao nível das máquinas partidárias; o resultado deste inovador modelo só não foi explosivo porque o moderador, ao se apagar do debate, permitiu que as enormes diferenças de experiência política entre aqueles candidatos fosse mais visível do que as suas também notórias competências e interesses.

Mas o caminho ficou apontado, quem assistiu ou ouviu ou leu o resultado deste debate conimbricense ficará mais preparado para votar, escolhendo, do que os milhões de portugueses que se deixaram apanhar na armadilha do concurso político/mediático, que foram os debates Passos/Costa que creio vão votar sentindo.

Ainda podemos emendar muita coisa para janeiro, quando as discussões entre candidatos poderão ser mais poderosas do que as máquinas partidárias, como nos EUA!

Fotografia de National Library NZ on The Commons

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João Palmeiro

Presidente da Associação Portuguesa de Imprensa

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