A tradição de produção para o papel, os recursos humanos e o tempo são os principais factores que determinam as rotinas de produção de notícias online na imprensa regional portuguesa. Conclusões que podemos encontrar em “Ciberjornalismo de proximidade: Redações, jornalistas e notícias online”, da autoria de Pedro Jerónimo, membro da nossa Provedoria do Leitor, e que resulta de um estudo centrado na imprensa regional em Portugal.

O livro agora publicado é o resultado de uma tese de doutoramento, na qual o autor procurou responder sobretudo a duas questões: Que tipo de conteúdos produz a imprensa regional no âmbito do ciberjornalismo? E quais são os fatores que determinam as rotinas de produção do ciberjonalismo na imprensa regional?

“Embora estejamos a comemorar os 20 anos do ciberjornalismo em Portugal, a realidade é que esta é uma área recente de estudo. No caso concreto dos média regionais e locais, paira o quase desconhecido, embora o número publicações ultrapasse as mil”, começa por justificar Pedro Jerónimo, cujo primeiro contributo é precisamente uma panorâmica daquilo que se passa no país. “O objectivo inicial era ‘mergulhar’ em três casos concretos e estudá-los em profundidade. Porém, como entretanto percebemos que a investigação era escassa, decidimos começar por traçar um quadro geral da presença da imprensa regional na Internet”, adianta. Desse percurso é feito uma radiografia pouco animadora: copiar os conteúdos dos jornais para os próprios sites é a prática mais frequente nas redacções.“Encontrei alguns casos em que são publicados vídeos, oportunidade que o papel não permite. Ainda assim são poucos os jornais a fazê-lo, sobretudo se estivermos a falar de produção própria”, acrescenta. E a justificação avançada tem a ver com o facto de serem ainda as edições em papel aquelas que centram a atenção dos jornalistas e administrações.

Na procura por respostas às questões levantadas, o autor partiu para um estudo etnográfico, que decorreu em três redacções de semanários regionais. “Foi um período particularmente exigente, mas extremamente rico, na medida em que pude estar no ‘lugar sagrado’ de qualquer jornalista: a redacção. Fui um previligiado, porque não é qualquer pessoa que entra naquele espaço e tem a possibilidade de ver e ouvir o que por lá se passa. E ainda questionar os diferentes actores que estão envolvidos na construção noticiosa, fazendo-os parar para pensar sobre o que fazem e como fazem”, refere. Todo o processo foi um desafio permanente de aproximações e afastamentos que o autor teve que gerir. “Não foram fáceis algumas situações que assisti, como as relações tensas entre patrões, chefias e jornalistas. Lembro-me de um caso em que o meu período na redacção coincidiu com um ambiente muito tenso que acabaria por resultar num despedimento”, recorda. Já sobre o seu principal objecto de estudo, aponta a carolice de alguns jornalistas como o principal mobilizador do jornalismo feito com e para a Internet. “À excepção de um caso, que assume claramente o papel e a Internet como meios, nos restantes o que podemos encontrar nas versões online dos jornais regionais é o resultado do voluntarismo de alguns jornalistas que, acumulando trabalho e sem receberem mais por isso, assim os vão mantendo. É mais a carolice que reina nas redacções regionais em relação ao online do que propriamente estratégias empresarias”, sublinha.

O trabalho agora publicado pela editora Livros LabCom, é o resultado da tese “Ciberjornalismo de proximidade: A construção de notícias online na imprensa regional em Portugal”, defendida na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em Janeiro de 2014, no âmbito do doutoramento em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais. É gratuito na sua versão digital (apenas pago na versão impressa) e está disponível em http://www.livroslabcom.ubi.pt/book/148.