Ana Chora considera que no distrito de Setúbal a nível de poesia “falta muita coisa para se fazer algo de maior dimensão”, destacando como principal entrave a carência de financiamento. A poetisa de Setúbal refere que “tudo começa pelos apoios”, uma vez que “sem eles é difícil haver iniciativas”, como jornadas poéticas, festivais ou concursos, que “podem funcionar como incentivos no âmbito da criação poética”.

Ana Chora_poetisaA também investigadora do Centro de Estudos sobre o Imaginário da Universidade Nova de Lisboa adianta que “neste momento não é fácil conseguir verbas, a não ser que se faça algo amador” e de “pequena escala, a contar com a boa vontade de alguns colaboradores”. Ana Chora sublinha que “os únicos apoios que as entidades competentes concedem são logísticos”, nomeadamente através “da cedência de espaços para iniciativas”, como a Casa da Cultura, a Biblioteca Municipal ou a Casa da Baía, o que “não deixa de ser um apoio à produção poética”.

A poetisa lembra que no distrito de Setúbal a “entidade que mais tem feito a nível editorial tem sido o Centro de Estudos Bocageanos”, mas que “trabalha sem financiamentos” e “sem fins lucrativos”, recorrendo “apenas ao contributo dos sócios”. Ana Chora reconhece que “no que se refere ao meio literário, editorial e promocional”, Setúbal “não é um meio fácil”, uma vez que “a publicação de obras está confinada à iniciativa dos autores” e a “educação literária setubalense não é das melhores”, visto que “o público representa uma esfera muito limitada em número”.

A também docente faz um “balanço positivo” da poesia que tem sido feita no distrito, lamentando, no entanto, que “haja muita produção poética que não passa por publicações”, pois “estas carecem de meios que nem sempre estão ao alcance dos autores”. Por outro lado, a setubalense assegura que “há bons trabalhos a serem publicados”, nomeadamente os de Ana Paula Rosa, de Setúbal, e de Lina Soares, do Barreiro, que “publicaram obras no Centro de Estudos Bocageanos”, entre outros autores setubalenses que “vão dando a lume os seus trabalhos”.

Ana Chora realça que têm decorrido atividades “interessantes” no distrito, como “Maratonas de Poesia”, iniciativas associativistas que “promovem concursos e sessões culturais”, bem como valoriza o facto de “recentemente ter sido inaugurada a Casa da Poesia”, que “dinamiza alguns eventos”. A investigadora defende que é “importante sensibilizar as pessoas para outras linguagens”, designadamente “as estéticas”.

A também pintora lembra que para se “apreciar” um poema é “preciso conhecer, tomar contacto”, porque “há quem pense que não gosta de poesia, por não conhecer nenhum poema”, sendo que o conhecimento “pode ajudar a transpor essa barreira que está na base de muitas limitações culturais”. A docente, apesar de não ligar muito a dias comemorativos, entende que o dia 21 de março, Dia Mundial da Poesia, é uma data em que pelo menos quase toda a gente “tem possibilidade de ter algum contacto com uma linguagem que não é a do quotidiano prosaico”, ressaltando que “mesmo os que não têm conhecimentos de poesia pelo menos podem ouvir falar nela”.

Ana Chora considera que a poesia é “uma linguagem que traduz esteticamente o indizível” e para se ser poeta “não basta produzir poemas”, sendo necessário ter “uma atitude e, sobretudo, um percurso que implica conhecimento poético, linguístico e literário”, dos quais “vai depender a qualidade da poesia” e a “sua inserção nesse género literário”. A setubalense adianta que na sua próxima publicação os leitores, por um lado “podem esperar uma exigência estética a que se já habituaram”, por outro “podem contar com inspirações imprevisíveis, que nem ela sabe quais vão ser”.

A docente não avança para quando o seu próximo livro, uma vez que “tem trabalhos académicos a concluir que são prioritários neste momento”. Contudo, diz que “o facto de não prever para já uma nova publicação não significa que os poemas estejam à espera de ser escritos”, porque “isso vai surgindo sempre”. Ana Chora no âmbito da poesia já publicou as obras “Janela sobre o Tempo”, em 2010, pelo Centro de Estudos Bocageanos e “Diadema, em 2014, pela Chiado Editora.