A primeira mulher diretora do serviço de cirurgia geral do Centro Hospitalar de Setúbal defende o diagnóstico precoce para a prevenção das patologias mamárias e o acompanhamento sistemático das pacientes e das suas famílias.

Por Carolina Bico

 
 

Fundadora da consulta da mama no Hospital de S. Bernardo em Setúbal, Emília Santinhos de Sousa Vaz Pereira faz um balanço do seu percurso profissional, desde a formação académica até à atualidade. Com 37 anos de carreira, a cirurgiã geral especialista em cancro da mama não se arrepende de ter escolhido medicina, apesar de ter feito um exame de aptidão a farmácia.
Reformada do hospital, hoje com 62 anos de idade, continua a atender os doentes no consultório e a operar uma vez por semana, porque “um médico nunca se pode desligar da profissão”.

 
 

Sempre quis ser médica ou foi um desejo que surgiu depois?

Não, por acaso surgiu depois. Quando era miúda dizia que queria ser enfermeira: dava injeções nas bonecas com água, seringas, agulhas e estragava todas as de papelão e as de trapos. Depois quando andava no 7º ano disse ao meu pai que já não queria estudar mais, queria ir trabalhar para ganhar dinheiro e ele aceitou. Mas como fiz os exames todos na primeira época pensei em realizar o exame de admissão à faculdade. Fui fazê-lo para farmácia e passei. Depois pensei: ‘já que tenho o exame feito, vou inscrever-me na faculdade’. E num domingo à noite passou lá em casa um primo meu, que me disse para ir antes para medicina em vez de farmácia, uma vez que não havia nenhuma médica na família. Aceitei a sugestão dele e inscrevi-me em medicina, porque também gostava de tudo o que se encontrava ligado à saúde. Não estou nada arrependida, acho que foi o melhor que fiz.

 
 

Onde estagiou?

No Hospital de S. Bernardo. Fiz lá a formação básica e uma parte no centro de saúde durante o estágio de aprendizagem tutelada. Atualmente, devido a uma mudança na lei, os estudantes que saem da faculdade ficam autónomos nos hospitais. Discordo completamente, porque ninguém está capacitado para ser largado neste mundo de responsabilidade sem experiência nenhuma. Aquilo que se aprende nos livros é uma coisa, a experiência e a prática é outra completamente diferente, ainda por cima na área da medicina.

 
 

Que tipo de atividades desenvolveu ao longo do seu estágio?

Tínhamos oito meses de estágio na medicina familiar e na saúde escolar. Íamos à escola ver se os miúdos viam bem, se tinham cáries e também fazíamos a parte de saúde pública. O resto decorria no hospital, desde medicina, cirurgia, pediatria até ginecologia e obstetrícia e, ainda havia um estágio opcional. No meu caso, optei por fazer dois meses no Hospital Ortopédico Sant’Iago do Outão em Setúbal, porque gostava de ortopedia. E foi útil saber pôr e tirar gessos, ver as lesões e alinhar ossos para fazer reduções de fraturas.

 
 

Por que razão decicidiu especializar-se em cancro da mama?

Isso já vem a posteriori. Depois do estágio houve um exame de avaliação para todos os internos com um número limite de vagas. Queria uma especialidade cirúrgica por ser mais interventiva e decidi-me pela cirurgia geral, porque dentro das vagas existentes era a que mais se adequava. Dentro da cirurgia geral fiz os seis anos de internato, o exame de saída da especialidade e tornei-me especialista em março de 1989. Em dezembro de 1991 abri uma consulta de senologia, isto é, de patologia mamária. Esta decisão teve a ver com o meu contacto com algumas doentes nas consultas, porque
nessa altura não havia subespecializações. À cirurgia geral chegava tudo, desde patologias do estômago, dos intestinos, hérnias, varizes, vesículas com pedras,
hemorróidas, tiróide. E apercebi-me do número crescente de doentes com cancro da mama. Nessa época, em cirurgia, cerca de 90% ou 95% eram homens e achei que não se dava a devida atenção às mulheres com esta situação clínica, que mereciam outro tipo de abordagem e um tratamento mais cuidado nas suturas por causa da estética. Na verdade, estava em causa uma patologia que ia mexer com a sua imagem corporal, autoestima, relacionamento a nível familiar, profissional e sexual. Portanto, entendi que era uma área à qual talvez fosse capaz de dedicar um pouco da minha atenção e talento. Na altura, o meu diretor de serviço não concordou muito, dizia que ia ficar deprimida, porque ia ver só desgraças. E eu disse: ‘os doentes de outras patologias também morrem e todos têm o direito de ser tratados’. Fui eu quem inaugurou a consulta e criou a equipa de tratamento do cancro da mama no Hospital de Setúbal, pois não existia nada.

 
 

Com base na sua experiência, que tipo de perfil deve ter uma médica desta especialidade?

É difícil definir um perfil. Mas para esta ou para qualquer área, nomeadamente no tratamento de doentes oncológicos não basta só ter conhecimentos teóricos, saber executar muito bem as técnicas ou fazer as cirurgias bem feitas. Temos que dar um bocado de nós a estas doentes. A humanização dos doentes oncológicos é fundamental.
Temos que ter tempo para os ouvir, responder às suas dúvidas e ser fortes para não nos deixarmos envolver emocionalmente. Por vezes, é muito difícil, é um esforço tremendo que as pessoas de fora não compreendem, porque pensam que é ‘mais um’ que tratamos ou que aquilo para nós ‘é como beber um copo de água’, mas não é. Há doentes que nos tocam mais do que outros, consoante o grau de relacionamento ou afetividade. Mas quantas vezes eu esperei que as pessoas saíssem do consultório para eu chorar também. Os médicos não são feitos de ferro, são de carne e osso e é difícil não nos envolvermos.

 
 

No início, as pacientes que a procuravam vinham apenas para um rastreio preventivo ou já manifestavam alguns sintomas da doença?

Inicialmente, todas as pacientes eram referenciadas pelo Instituto Português de Oncologia (IPO). Quando comecei a dedicar-me a esta área, houve um trabalho de base que tive de fazer, que foi o de criar determinados tipos de protocolos. Fui a esses centros de saúde por minha iniciativa, do meu dinheiro, reunir com os vários colegas dos postos para informá-los de que existia uma consulta. Não havia ainda a parte informática como hoje e no fundo foi um contacto pessoal que fui efetuando com os dirigentes dos postos de saúde. E a partir desse momento começaram a vir doentes.

 
 

Qual a média de idades das suas pacientes?

A prevalência do cancro da mama é a partir dos 50 anos. A média ronda os 50 e os 60 e muitos. No entanto, o meu leque de doentes vai desde os 24 aos 93 anos. E é cada vez mais comum aparecer em mulheres mais jovens. A idade é um risco, isto é, à medida que a mulher vai ficando mais velha, a probabilidade de vir a ter um cancro da mama é maior, o que não exclui a hipótese de surgir em doentes jovens, independentemente da sua história familiar. Só 5 a 10% dos cancros são hereditários, o resto são esporádicos.

 
 

Em que diferem os homens das pacientes do sexo feminino?

Geralmente, os homens quando aparecem com cancro da mama já vêm com estádios muito avançados, porque há a ideia errada de que não podem ter cancro da mama, porque não têm mamas. O homem tem uma glândula mamária rudimentar e por isso a probabilidade de aparecer cancro também existe, só que numa percentagem ínfima de 1%. Tenho cerca de seis doentes do sexo masculino operados.ima2

 
 

Como é que estes doentes reagem às alterações estéticas provocadas pela doença?

Não reagem muito mal, desde que sejam devidamente elucidados acerca do seu percurso de tratamento.

 
 

Sendo mulher e mãe, como se habituou a lidar com os casos mais dramáticos?

Temos de arranjar maneiras de nos defendermos e refugiarmos. De início, era mais complicado, porque sendo mais nova não estava tão preparada emocionalmente. Mas emoções são emoções e tanto faz serem vividas aos 20, aos 60 ou aos 80. E há casos que nos afetam bastante, mas há que tentar reagir e levar a vida para a frente. Há mais trabalho a fazer e as decisões têm de ser tomadas de cabeça fria. A decisão e a transmissão da decisão é que definem o perfil do profissional.

 
 

Para além das consultas particulares, fez bancos hospitalares. Como eram as suas rotinas no Centro Hospitalar de Setúbal?

Foram tempos de muito trabalho. Fazia bancos de 24 horas e às vezes nem me deitava.
Aqui em Setúbal, apanhei essencialmente acidentes graves, na unidade de traumatologia, antes de existir a autoestrada. Quando construíram as autoestradas
também havia muitos acidentes, só que devido ao excesso de velocidade muitas pessoas morriam logo e já nem vinham ao hospital.

 
 

Recorda-se de alguma situação mais delicada durante os bancos?

Lembro-me de um caso de uma senhora de Alcácer que chegou aqui morta, porque um vizinho era toxicodependente e já tinha assaltado várias casas. Como queria dinheiro para comprar droga, apanhou-a em casa a passar a ferro e esmagou-lhe a cabeça com o ferro.

 
 

Quando chegava a casa após um dia de trabalho, conseguia “desligar” dos casos dos pacientes ou um médico nunca o consegue fazer?

Nunca se desliga da profissão, porque temos sempre pessoas amigas ou conhecidas, que telefonam e pedem opiniões, conselhos e ajuda. Tem que haver sempre uma disponibilidade, que faz parte da profissão.

 
 

Já alguma vez sentiu que chegou ao seu limite e fez tudo o que estava ao seu alcance, apesar de se ter perdido uma vida?

Sim, algumas vezes, nomeadamente com os doentes que morrem no bloco operatório. Estou a lembrar-me de um caso de uma doente, que entrou no hospital a falar e morreu no bloco com uma hemorragia incontrolável. É uma frustração, uma sensação de perda, impotência e incapacidade. Toda a equipa fica muda, as lágrimas vêm-nos aos olhos muitas vezes, porque são sempre pessoas jovens. E vai-se até à exaustão, em termos físicos e emocionais. São horas e horas seguidas e no fim perde-se o doente.

 
 

Com o passar dos anos, os casos de patologia oncológica foram aumentando e a necessidade das mulheres realizarem intervenções cirúrgicas cresceu exponencialmente. Que tipo de operações realiza mais?

Na área da mama, sem dúvida, operações para o tratamento da patologia maligna. A patologia maligna teve um crescendo. Arrisco dizer que hoje há uma maior prevalência de cancro da mama e uma perspetiva até 2030 de um aumento da proporção da doença a nível mundial, segundo a qual, em cada três doentes, um irá ter cancro.

 
 

Do ponto de vista do diagnóstico, como evoluíram as técnicas?

Houve uma evolução muito grande das técnicas de diagnóstico e do acesso a essas técnicas, nomeadamente da ecografia e da mamografia. E também uma maior
informação por parte das mulheres, uma maior divulgação através dos meios de comunicação social, o que culminou no diagnóstico precoce. No cancro da mama, tal como todos em todos os cancros, o essencial é o diagnóstico precoce, porque permite um tratamento ou uma cura igual ou superior a 85%.

 
 

Ao longo do tempo, a sua carreira foi-se consolidando, chegando a ocupar o cargo de diretora do serviço de cirurgia geral. Que percurso teve de esboçar até chegar a esse lugar de chefia?

Fiz parte da comissão de antibióticos, fui membro e presidente da comissão oncológica, que é obrigatória a nível hospitalar, fui diretora do bloco operatório, adjunta da direção médica para a área da cirurgia e, ultimamente, saí como diretora do serviço de cirurgia geral. Trata-se de um cargo de nomeação, mas tive de fazer a minha carreira enquanto profissional de saúde através de concursos e cheguei ao topo, àquilo a que se chama assistente graduada sénior, que corresponde ao antigo cargo de chefe de serviço.

 
 

O que faz uma diretora de serviço?

Nunca deixei de ser médica, sempre quis continuar a exercer a minha atividade. Continuei a fazer consultas, operar e visitar doentes na enfermaria. Depois passava por mim toda a gestão do serviço e do pessoal médico. Tive 27 médicos a meu cargo e estava encarregue de fazer escalas de bancos, planos de férias, a gestão de consultas e a gestão trimestral da produtividade, fazendo a contabilização do número de consultas e cirurgias realizadas.

 
 

Recentemente tem crescido o debate em torno dos testes de genética médica. Em fevereiro de 2014 foi aprovada a sua venda direta ao público nos EUA, mas em Portugal esta prática foi proibida através da sua regulamentação legal. O que são testes preditivos?

Os testes preditivos servem para averiguar a probabilidade de determinada mulher vir a ter um cancro da mama, embora não sejam 100% exatos. Por isso, é preciso muita atenção com este tipo de testes. Já tive o caso de uma doente, que tinha uma história familiar carregada de cancro de mama, foi a uma consulta de risco familiar, fez o teste genético, que deu uma mutação do gene do BRCA (Breast Cancer) e com essa mutação positiva tinha indicação para a realização de uma mastectomia profilática bilateral. Só que apesar de o saber, ainda hoje não decidiu se quer tirar as mamas.

 
 

Como médica, encontra-se a favor ou contra a realização deste tipo de testes no nosso país?

Hoje em dia fala-se muito de testes genéticos, mas as pessoas, muitas vezes, não têm conhecimento daquilo que a sua realização acarreta posteriormente. Antes de mais, nem todos têm indicação para fazer um teste genético, senão banalizava-se. Um teste genético é bastante caro e tem determinadas informações que podem alterar por completo a vida de qualquer um e as pessoas não percebem isso.

 
 

Caso a paciente opte por saber o resultado do exame e dê positivo, esta poderá realizar terapias alternativas, como as mastectomias. Como encara essa opção?

Um teste genético positivo, no caso do cancro da mama, significa que mais cedo ou mais tarde durante a vida essa mulher irá ter uma patologia maligna da mama. Neste caso, a prevenção na mulher é feita através da realização de uma mastectomia profilática preventiva, se ainda não tiver sido operada.

 
 

Como é o seu processo cirúrgico?

Esta mastectomia é feita de uma forma diferente daquela que se realiza quando já existe um tumor. Quando se tem um tumor e se faz uma mastectomia sai a pele da mama, a glândula mamária e o complexo aréolo-mamilar. Quando se faz uma mastectomia profilática, devido à mutação do BRCA (Breast Cancer), realiza-se a chamada mastectomia subcutânea, na qual se extrai todo o miolo da mama, mas mantém-se a pele, o complexo aréolo-mamilar e uma camada de um centímetro debaixo da pele, porque esta tem de ser irrigada. E depois é feita a reconstrução com próteses no mesmo tempo operatório.

 
 

No futuro, o que se poderá fazer para inverter estas tendências?

O dignóstico precoce com exames feitos regularmente a partir dos 40 anos, se não existir história familiar de tumores da mama. Se existir, os exames devem ser feitos mais cedo, designadamente a mamografia, a partir dos 35 anos ou até antes se se justificar pela alteração da mama. E deve fazer-se o autoexame pelo menos uma vez por mês após o período menstrual, porque a mama está menos tensa.

 
 

O que diria aos familiares e amigos próximos de uma doente oncológica?

Temos que saber dosear aquilo que é essencial, mas nunca descurando a parte dos afetos. É necessário encarar a doença com realismo e muita força de vontade para poder ajudar a paciente a ultrapassar a fase dos tratamentos. Acima de tudo, devemos dizer para não se isolarem, porque não são únicas e a força de vontade faz vencer a doença.