“Aqui preparamos campeões”

“Aqui preparamos campeões”

Com alguns títulos conquistados pelos formandos em competições internacionais de profissões, a Solisform assume-se “como uma escola de excelência”, característica que é atribuída aos “grandes mestres que ensinam a arte do saber fazer”. A gestora da unidade de negócio da Randstad vocacionada para a formação assume, contudo, que não pretendem formar “um campeão típico”, pois “a polivalência é uma grande defesa no mundo do trabalho”. Sónia Leal, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, lamenta que os cursos profissionais sejam “muitas vezes vistos como último recurso”, o que cria alguma “dificuldade em encontrar jovens e em formar turmas”, mas explica que a Solisform é “uma escola frequentada por homens” e um sítio onde “eles adquirem valores e aprendem a respeitar-se”, consguindo obter o 12º ano, “mas também uma profissão”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades podemos esperar na Solisform?

Sónia Leal – A Solisform funciona em parceria com o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), em cursos de aprendizagem com duração de dois anos e meio, divididos por três períodos, em que no final de cada fase os jovens fazem estágio numa empresa. Os cursos são de dupla certificação, pelo que os alunos têm, além da habilitação de 12.º ano, uma profissão. Neste momento, estão a decorrer os cursos de Manutenção Industrial, que são os mais procurados, e de Técnico de Montagens Eléctricas. Em Outubro, vamos abrir mais duas turmas de Manutenção Industrial. Portanto, estas são as grandes novidades que temos para este e para o próximo ano. Por outro lado, a Solisform faz também parte do grupo Randstad, que é o maior empregador a nível nacional.

SR – Como é que surge a ideia de ligar uma empresa de trabalho temporário a um centro de formação?

SL – Não é comum, mas faz toda a diferença. É uma excelente parceria e na realidade acaba por ser um serviço “chave-na-mão” que a Randstad oferece aos seus clientes. Os gestores da unidade de negócio Randstad procuram colocar os colaboradores mais qualificados nas empresas clientes. A Solisform é a empresa de formação Técnica que por um lado valida competências e por outro forma profissionais qualificados. Por outro lado, o contacto direto com os gestores da unidade de negócio de Setúbal ajuda-nos na colocação dos nossos formandos em estágio nas empresas. Os estágios são a custo zero para as empresas, visto que é da nossa responsabilidade o pagamento da bolsa, do seguro, do subsídio de alimentação e de transporte. Para a Solisform os formandos acabam por ser o nosso cartão de visita para que no final dos três períodos, os formandos possam integrar a empresa que os acolheu, pelo que é uma mais-valia para eles.

SR – E as empresas têm estado receptíveis?

 

SL – Sim, estão. O curso na área de Manutenção Industrial é muito polivalente, pelo que, hoje em dia, as empresas pedem colaboradores que saibam fazer um pouco de tudo e, portanto, o curso acaba por ir ao encontro dessas necessidades. Esta zona é muito industrial, tem grandes empresas que, normalmente, recebem três ou quatro dos nossos formandos para estágios e, posteriormente, acabam por ficar com eles. Isso é muito bom para nós, porque estamos a falar de organizações de renome. Os nossos formandos são alunos que, normalmente, têm percursos de vida que nos fazem acreditar que existem mundos paralelos e, muitas vezes, encontram aqui uma saída profissional. Para nós, é importante que o aluno tenha o 12º ano, mas também uma profissão.

SR – Com a crise e com a desindustrialização a que o país assistiu, continua a justificar-se a aposta nestas áreas?

 

SL – Normalmente, as empresas com sucesso na área industrial vão sobrevivendo porque têm quase 80 por cento da sua facturação no mercado exterior e, assim, vamos conseguindo também a colocação dos nossos formandos. No entanto, há outros alunos que, com as competências que adquirem aqui, acabam por sair do país.

SR – Isso quer dizer que os jovens aqui formados têm competências reconhecidas a nível mundial?

 

SL – Sim, e exemplo disso são competições internacionais de profissões a que a Solisform se candidata. Todos os formandos que vão para este tipo de competição têm obtido grandes resultados a nível europeu e mundial. O Jairo Carrasco, por exemplo, foi nosso aluno e é hoje nosso formador interno de soldadura. Em campeonatos internacionais obteve o sexto lugar a nível mundial em 2009 e o primeiro no Europeu  de 2010 na profissão de soldadura. Outro exemplo é o de Hugo Silva, que se consagrou vice campeão em 2012 em Bruxelas e este ano foi nono a nível mundial e o melhor classificado europeu na profissão de soldador. Portanto, em termos de divulgação, essas competições têm um carácter bastante positivo. A Solisform, apesar de ser uma instituição de formação técnica, tem a parte central da sua actividade na soldadura e, desta forma, acabamos por sobressair como uma escola de excelência, pois temos aqui grandes mestres que ensinam a arte do saber fazer, que é o mais valorizado hoje em dia.

SR – Onde é que a escola vai buscar essa capacidade de formar campeões?

 

SL – Essa capacidade advém da experiência dos mestres. Muitos dos nossos formadores vieram da Lisnave, mas temos também outros que se formam aqui na escola e, desta forma, acaba por ser uma passagem de testemunho, pelo que a nossa preocupação é manter esse processo de sucessão, para que haja continuidade.

SR – Esta escola é a herdeira do centro de formação da Lisnave?

 

SL – Precisamente. Para nós, isso é uma vantagem, porque a Lisnave é uma grande empresa a nível do sector naval e muitos dos nossos formadores trabalharam lá a tempo inteiro. No entanto, neste momento, a nossa preocupação é a passagem de testemunho, porque, nos cursos de aprendizagem, saiu uma norma do Instituto de Emprego que nos impede de contratar reformados e, nestas áreas técnicas, há conhecimentos práticos que é importante transmitir dos mais velhos para os mais jovens.

SR – A área industrial continua a ser apelativa para os jovens que têm hoje outro tipo de apelos?

 

SL – Sim, é, inclusivamente, uma profissão que está na moda, porque, neste momento, somos procurados por muitos jovens. Isso acontece também porque sentem a necessidade do “saber fazer” para vingar na vida e percebem que podem ganhar muito dinheiro se se destacarem nesta área. O nosso mais recente campeão saiu completamente do anonimato. Quando aqui chegou aplicou-se bastante e, hoje em dia, diversas empresas holandesas procuram por ele, o que significa que, no fim do curso, terá várias opções. Aqui preparamos campeões, mas não queremos um campeão típico, que só saiba fazer uma prova, pois a nossa missão, enquanto escola, é também encaminhar estes jovens e sabemos que a polivalência é uma grande defesa no mundo do trabalho. Portanto, o objectivo é formar jovens que saibam trabalhar com vários métodos, porque na prova de competição os formandos treinam todos os processos e fazem uma série de peças que depois são avaliadas.

SR – O facto de irem abrir mais dois cursos de Manutenção Industrial significa que o mercado está a pedir mais gente?

 

SL – Não é assim tão fácil. Os cursos profissionais são muitas vezes vistos como último recurso. Neste momento, temos dificuldade em encontrar esses jovens e em formar turmas, mas a verdade é que acreditamos também no resultado destes cursos. Primeiramente, os formandos ingressam no ensino curricular normal, mas quando as notas começam a baixar e percebem que não é aquilo que querem procuram outras saídas. Portanto, o típico formando desta escola não gosta de estar numa sala de aula, prefere antes ir para a oficina e trabalhar com os equipamentos. É óbvio que é importante que os alunos tenham resultados positivos nas disciplinas curriculares, mas somos mais exigentes na componente prática, porque é na experiência que eles arranjam os mecanismos de defesa.

SR – Isso alimenta o estigma que existe de que são os piores alunos que vêm para este tipo de formação?

 

SL – Não passa mesmo de um estigma e fico muito triste quando vejo essas notícias. Como mãe, aconselharia as minhas filhas a seguir o ensino profissional, porque têm a vantagem de poder dar continuidade aos seus estudos e de, ao mesmo tempo, ficar com uma profissão. Além disso, podem ainda encontrar um estágio numa empresa que lhes pode abrir portas para o futuro. Nos dois primeiros estágios, quem estabelece contato com as empresas é a escola, mas no terceiro período sugerimos que eles façam a procura activa do seu próprio estágio.

SR – Há casos em que os alunos prosseguem os estudos?

 

SL – Sim, temos, seguramente, casos desses. Por exemplo, um antigo aluno, que hoje é nosso formador, está a tirar uma pós-graduação em Engenharia no Instituto Politécnico de Setúbal. Portanto, quando saem desta escola, os alunos têm a possibilidade de prosseguir os estudos. São muitas vezes jovens que perderam o rumo, mas encontram-no aqui e, normalmente, querem dar continuidade ao processo de formação.

SR – Qual é o perfil do formando que chega a este Centro de Formação?

 

SL – Muitos deles foram expulsos de outras escolas por mau comportamento ou por faltas. Outros, por sua vez, vêm porque estão desmotivados com o ensino regular ou porque são obrigados pelos pais, pelo que, numa primeira fase, encontramos alunos muito desmotivados que precisam de muita atenção. No entanto, somos uma escola muito pequena e conhecemos cada aluno pelo seu nome, o que é uma vantagem.

SR – Como é o ambiente dentro da escola?

 

SL – É evidente que há problemas, temos histórias muito problemáticas, mas também muito engraçadas. O que acontece é que, no primeiro período, os alunos, normalmente, precisam de uma atenção permanente, mas depois as coisas acabam por correr bem. É uma escola frequentada por homens, mas aqui eles adquirem valores e aprendem a respeitar-se e isso é muito importante. Curiosamente, aqueles que têm mais dificuldades nesse sentido acabam por nos surpreender quando vão para as empresas fazer estágio. Ou seja, isoladamente, os alunos comportam-se e trabalham muito bem.

SR – Que feedback vão tendo das empresas?

 

SL – Geralmente, recebemos feedbacks muito positivos. Uma empresa de renome na área industrial transmitiu-nos que, no primeiro período, de todas as instituições, o nosso formando foi o melhor que tiveram. Portanto, ficamos muito orgulhosos.

SR – O que distingue esta escola das outras?

 

SL – A nossa especialização é a soldadura, pelo que temos capacidade para formar cem soldadores em simultâneo e isso nenhuma escola tem. Por outro lado, temos também os melhores mestres, caso contrário não conseguiríamos chegar aos campeonatos internacionais.