“Uma escola pequena em tamanho e enorme em dimensão humana”

“Uma escola pequena em tamanho e enorme em dimensão humana”

“Ainda bem que esta escola é pequenina, porque no dia em que for grande vai perder a essência do que é a Escola Profissional Cristóvão Colombo”. Quem o garante é a professora Sandra Costa, que realça assim o “atendimento personalizado” desta escola, onde os alunos “vêm na sua grande maioria de famílias não estruturadas”. Por isso, a satisfação redobrada ao ver muitas das empresas onde os alunos estagiaram a “mostraram abertura para que ficassem a trabalhar já durante este verão”, assim como a disponibilidade da câmara municipal para apoiar na execução de alguns projetos apresentados nas provas de aptidão profissional. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, a docente diz que, a acontecer, isso “seria a cereja no topo do bolo” e garante que a escola está disponível para os “apoiar incondicionalmente”.

“Setúbal na Rede” – Qual é a importância dos estágios no percurso escolar dos alunos da Escola Profissional Cristóvão Colombo?

 

Sandra Costa – É fundamental, porque os estágios proporcionam a ponte direta com a realidade laboral com a qual eles precisam de estabelecer contato, na medida em que lhes traz alguma maturidade, tomam a noção de que a vida precisa de um por cento de inspiração e 99 por cento de transpiração, ao contrário do que eles pensam, e porque enquanto escola não conseguimos nunca estabelecer um paralelo com a realidade laboral. Este ano as coisas correram muito bem, pois conseguimos colocar alunos de norte a sul do país e muitas das empresas mostraram abertura para que eles ficassem a trabalhar já durante este verão, embora alguns tenham recusado por opção própria, mas não deixa de constituir um grande elogio para a escola.

SR – A escola tem a tendência a ser mais permissiva do que a realidade laboral?

 

SC – Claro, e especialmente numa escola com as características da nossa. Para a maioria dos alunos este é o primeiro contato com o mundo do trabalho e é a primeira vez que muito deles chegam a reconhecer o esforço dos pais ao longo do tempo em que estiveram a estudar. É isso a que eu chamo de ganhar maturidade, que é perceber que as coisas não são fáceis, que não caem do céu, e até vai um bocadinho para além do que são os objetivos de aprendizagem em turismo ou em organização de eventos, mas é uma aprendizagem mais transversal, em que os alunos assimilam uma série de conceitos novos, como aprenderem que têm que se esforçar para conseguir as coias. Depois da experiência no local de estágio, o ponto de vista deles muda e perdem o medo de se atirar para o mundo do trabalho, que até então era um mundo desconhecido, e começam a fazer planos para o futuro.

 

SR – Os alunos reconhecem a complementaridade entre a componente teórica e prática?

 

SC – Muitos deles reconhecem e dizem muitas vezes que agradecem todo o conhecimento prévio que levavam. Seria impensável um aluno chegar a um hotel e não fazer ideia de quantos departamentos existem e o que é que se faz em cada departamento, e são essas noções básicas que eles têm que ter, caso contrário passam a maior vergonha da vida deles. Quando não sabem, porque são preguiçosos ou porque estão apaixonados, porque estão em idades muito complexas, voltam com a noção da necessidade de prestar mais atenção e isso faz parte da maturidade.

 

SR – O estágio é um momento particularmente propenso a problemas?

 

SC – É muito propenso a problemas, porque os alunos saem debaixo da asa dos pais ou da escola. No entanto, alguns deles vêm de realidades onde não são protegidos, estão habituados a lutar e encaram tudo como uma luta. Aqui tentamos ensinar para além dos conteúdos e contornar obstáculos é uma das aprendizagens que tentamos transmitir. Os problemas são resolvidos em conjunto, pois temos uma política em que quando há um problema vamos ao local de estágio e sentamo-nos todos até estar resolvido. Aqui todos os alunos escolhem os locais de estágio, em que eles decidem onde se sentem mais confortáveis, e consideramos que isso é uma mais-valia, porque os responsabiliza. Problemas vão existir sempre, mas tentamos responsabilizá-los pelas opções tomadas e só esperamos que os problemas que surjam não sejam causados por eles. Quando são eles a causar o problema temos que repreendê-los, obviamente em conjunto com a entidade que os acolhe, mas quando não são também os defendemos em conjunto. Eles nunca estão desamparados, esta é a nossa política, e temo-nos dado bem.

 

SR – Há desistências durante os estágios?

 

SC – Até à data tivemos três desistências. Num curso como o de Turismo, que é muito abrangente, com muitas áreas em que se pode trabalhar, às vezes acham que têm o perfil para trabalhar num hotel, porém, a certa altura encontram-se a servir à mesa e reparam que aquilo não tem nada a ver com eles. Nós tentamos não forçar quando percebemos que a identidade deles não conjuga com o que lhes é pedido, tentamos levar a coisa a bem, pois queremos que a escola seja uma experiência saudável para os alunos e que saiam de cá felizes.

 

SR – Não há um lado positivo nessa experiência menos agradável?

                                                          

SC – Claro que há, pois temos que saber do que não gostamos para encontrar aquilo de que gostamos e isso é extremamente positivo. Ainda agora tivemos uma série de alunos que vieram do Algarve a dizer que não queriam mais trabalhar em serviços de pequenos-almoços ou em serviço de mesa ou o que quer que seja e disse-lhes sempre que isso é ótimo, porque na vida vão-se encontrar com uma série de situações em que vão dizer que não querem isto para eles. Por isso é que os nossos estágios são divididos em dois blocos, para dar oportunidade aos alunos de passarem por diferentes áreas do turismo e por diferentes áreas da organização de eventos, pois caso contrário teriam um bloco de três meses e se não gostassem da experiência, a perceção com que sairiam do curso seria menos boa.

 

SR – Mas há hoje uma dose de polivalência e de adaptação que se exige aos profissionais.

 

SC – Cada vez mais os hotéis e as empresas para onde os alunos são enviados exigem que sejam polivalentes e eles já são formados na escola a pensar nisso. Sabem que quando vão para um posto de trabalho têm que ter a capacidade de assegurar uma série de tarefas e de ser flexíveis. O que é verdade é que tem corrido muito bem e as referências das entidades que têm acolhido os nossos alunos têm sido as melhores. Tendo em conta o perfil de entrada dos alunos, estamos todos de parabéns.

 

SR – Qual é o segredo no percurso para que o perfil de saída seja diferente?

 

SC – Os alunos que frequentam a escola vêm na sua grande maioria de famílias não estruturadas, com um percurso que por norma envolve um abandono do ensino e uma enorme falta de confiança neles próprios. Mas claro que há exceções, pois temos alunos que vieram do 12º ano e andaram para trás porque não conseguiam fazer a matemática, e resolveram entrar novamente no nono ano e seguir o percurso profissional para depois conseguirem aceder à universidade com mais facilidade. De um modo geral são miúdos carentes e que vêm de uma escola em que o sistema não permite um atendimento personalizado, pois obriga a um atendimento padronizado, e que, se calhar, passaram despercebidos entre centenas de outros, o que é natural. A nossa maior fraqueza são as instalações, mas costumo dizer que isto é uma escola pequena em tamanho físico e enorme em dimensão humana, pois essa fraqueza transforma-se rapidamente na maior oportunidade. Temos três turmas de formação num espaço reduzido, o que nos permite e obriga a um contato sistemático com os alunos, permitindo-nos tratá-los não só como alunos, mas como família. Eu consigo olhar para um aluno desta escola e perceber se está triste ou contente, porque conheço-os muito bem já que passo muito tempo com eles. Ainda bem que esta escola é pequenina, porque no dia em que for grande vai perder a essência do que é a Escola Profissional Cristóvão Colombo.

 

SR – Que diferença existe na organização dos estágios nos dois cursos da escola, de Turismo e de Organização de Eventos?

 

SC – No curso de Organização de Eventos temos um bocadinho mais de dificuldades em colocá-los no mercado, porque as grandes empresas organizadores de eventos aceitam sobretudo os alunos das universidades. No entanto, tem havido mais abertura e há muitas empresas novas a surgir no mercado e que têm acolhido os alunos, que se têm dado muito bem. Os estágios na área de organização de eventos são algo mais descontraídos pelo próprio perfil do curso e da profissão, pois é natural, por exemplo, o tutor de uma empresa destas estar com a barba por fazer, de ténis e com calças rotas, ao contrário dos funcionários da área do turismo que se apresentam de uma forma mais formal. Os alunos dessa área também têm um perfil um pouco diferente, também são mais descontraídos, mas quando é para trabalhar ligam o turbo e trabalham, enquanto os de turismo são geralmente mais responsáveis. Embora sejam atividades complementares, que se misturam, pois os alunos de turismo acabam muitas vezes por trabalhar em eventos e os de eventos acabam por trabalhar em turismo.

 

SR – Apesar da crise que vivemos tem existido capacidade de absorção no mercado?

 

SC – Existe capacidade de absorção no mercado, especialmente em turismo. Portugal tem muitas áreas para desenvolver e o turismo é uma delas, mas o facto é que vão surgindo sempre oportunidades para quem quer trabalhar, embora seja sobretudo de forma sazonal.

 

SR – Mas muitas vezes em condições de precariedade e de baixo salário?

 

SC – Nesta fase toda a gente tem que ter abertura para aceitar trabalho e tem havido, pois eles precisam de ter a vida deles, para pagarem a carta de condução e ganharem alguma autonomia. Os alunos da nossa escola estão na faixa etária entre os 16 e os 17 anos e que já estão a ganhar ordenados. Mas prende-se muito com a questão da necessidade, na medida em se houver alguém para lhes pagar a carta de condução eles sabem que não precisam de trabalhar, e é claro que temos alunos com condições financeiras fantásticas e outros para quem almoçar diariamente é uma dificuldade.

SR – As provas de aptidão profissional que fazem no final do curso também constituem de alguma forma uma aproximação à realidade laboral?

 

SC – Os projetos que eles fizeram este ano foram de grande sucesso, em que cada um deles fez um projeto individual de organização de um evento, para o qual tiveram que escolher um tema. No ensino personalizado permitimos que o aluno escolha o tema e que desenvolva um evento dentro de uma área que lhe pereça adequada ao seu perfil, pelo que tivemos eventos de todo o estilo, desde concentrações de motas, lan party’s, concertos musicais, atividades em restaurantes e bibliotecas, eventos históricos e solidários, que também é um fator que valorizamos muito na escola. Os júris que estavam presentes, alguns deles da Câmara Municipal de Setúbal, referiram que, caso os alunos quisessem andar para frente com as ideias, teriam apoio logístico e outro tipo de apoio a conversar, para dar andamento aos projetos.

SR – Os projetos tinham viabilidade?

 

SC – Este é um projeto de 12º ano que é feito pelos alunos na íntegra, desde a parte gráfica até a parte orçamental. Quando vamos desenvolver um projeto não fazemos tudo sozinhos, mas junta-se uma equipa com diversos tipos de conhecimentos. Eles também não têm bases para fazer uma orçamentação rigorosa e precisa, mas os alunos tiveram que entrar em contato com profissionais da área e obtiveram inúmeras respostas positivas, inclusivamente para patrocínios. Em termos de orçamentação não acredito que tudo o que esteja lá seja cem por cento real, mas também não podemos pedir isso a alunos do 12º ano, mas são projetos com pernas para andar, pois houve contatos com empresas reais. Com alguma ajuda, com as devidas correções, podem ser implementados e a câmara já sugeriu que apresentemos alguns dos projetos e a escola está sempre disposta a apoiar os alunos.

 

SR – Já houve casos anteriores em que isso tivesse acontecido?

 

SC – Esta é a segunda turma a concluir este curso e o grupo anterior não era tão empreendedor quanto este, embora estejam hoje todos a trabalhar, alguns até no estrangeiro. Temos muitos alunos a trabalhar em cruzeiros e também muitos na universidade. Se os projetos não foram implementados não foi por falta de apoio da escola, mas sim por falta de iniciativa dos alunos, porque da nossa parte estaremos cá dispostos a apoiar e a nunca desistir dos alunos.

 

SR – Dos projetos apresentados este ano, gostava de ver alguns implementados?

 

SC – Adorava, pois isso seria a cereja no topo do bolo. A questão é que a iniciativa tem que partir dos alunos, embora a escola esteja sempre disponível para apoiá-los. Enquanto adultos que já são, terminado o curso, foi-lhes dito que havia abertura e aceitação dos seus projetos e tanto eu como a escola estaremos disponíveis para os apoiar incondicionalmente. Já não temos qualquer obrigação enquanto escola, mas eles são nossos alunos hoje e nossos filhos para sempre.