“Um politécnico sem interação com a região não cumpre a missão”

“Um politécnico sem interação com a região não cumpre a missão”

“Nos últimos anos foi feito um trabalho significativo para haver uma maior interação do Instituto Politécnico de Setúbal com a região”, nomeadamente através da prestação de serviços, da transferência do conhecimento e da formação de quadros qualificados. O presidente do IPS defende que uma das prioridades é ser “um parceiro da região”, além de se constituir “como um observatório económico e social”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Pedro Dominguinhos explica que a outra prioridade é “a preparação da nova oferta formativa dos cursos técnicos superiores profissionais”, que pode ser “uma oportunidade” de programar “uma fileira formativa integrada na necessidade de ter um ensino mais profissionalizante”. “As empresas têm necessidade do saber fazer, mas também querem trabalhadores qualificados que sabem pensar e idealizar soluções”, defende o docente.

“Setúbal na Rede” – Quais são as prioridades do Instituto Politécnico de Setúbal para o próximo ano letivo?

 

Pedro Dominguinhos – Há uma prioridade interna e outra externa, na perspetiva do instituto ter a missão de interagir com a região. Do ponto de vista interno, para além de tudo aquilo que é o funcionamento normal das licenciaturas, mestrados e cursos de especialização tecnológica em funcionamento, vamos ter no próximo ano letivo como grande prioridade a preparação da nova oferta formativa dos cursos técnicos superiores profissionais. Neste momento, ao nível do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), existe uma perspetiva de arrancar com um ou dois cursos piloto por instituto politécnico e está a ser feito um trabalho de análise e de preparação da proposta, pelo que vamos ver se existem condições para, de uma forma cuidada e coerente, arrancarmos com esta formação.

SR – Ainda é possível ao politécnico disponibilizar essa oferta?

 

PD – Estamos a preparar-nos em duas áreas das tecnologias e a analisar para ver se existem condições de qualidade pedagógica, de preparação dos documentos e de submissão à Direção Geral do Ensino Superior para ver se é possível. Inicialmente o CCISP entendeu que não estava reunido um conjunto de condições que garantiam o funcionamento e o financiamento destes tipos de cursos, numa posição unânime reiterada mais do que uma vez, mas, no entanto, foram satisfeitas algumas destas condições, nomeadamente em termos do prosseguimento de estudos para quem fosse detentor de um desses cursos. A questão do financiamento via orçamento de Estado também foi garantido, embora estejamos ainda a discutir os pormenores. Havia ainda uma questão complexa e incompreensível que era o facto de os cursos de especialização tecnológica (CET’s) poderem continuar a ser lecionados por instituições de ensino não superior a partir de 2015, mas o Governo já assumiu que essa formação não vai ser de nível cinco.

Com estas condições garantidas, o CCISP assumiu que estava na disposição de analisar o eventual funcionamento de cursos piloto a partir de 2015, porque a preparação do ano letivo começa ser feita em janeiro, e os politécnicos têm neste momento os cursos de especialização tecnológica a ser anunciados e publicitados e já inclusivamente a receber candidaturas. Portanto, os cursos técnicos superiores profissionais só podem ser a nível piloto e em áreas não conflituantes com aquelas em que já se está a trabalhar, pelo que o próximo ano letivo vai ser de preparação de todos os novos cursos que irão substituir os atuais de especialização tecnológica, com uma diferença substancial que é passarem por lei a ser considerados de ensino superior de curta duração.

SR – Como é que o politécnico vê estes cursos de curta duração equiparados a nível superior? Não há aqui uma menorização da missão dos politécnicos?

 

PD – Do ponto vista estratégico podemos entender que é uma tentativa de alguns governantes fazerem uma certa distinção entre o ensino universitário e o ensino politécnico. Se este for um pensamento escondido, estratégico, diria que pode ser uma ameaça. Se olharmos para uma fileira formativa integrada na necessidade de ter um ensino mais profissionalizante, que deve ir do nível cinco ao nível oito, desde os cursos de curta duração aos doutoramentos profissionais, é uma oportunidade que aqui está colocada. Se quisermos entendê-la como uma tentativa de alcançar rapidamente as estatísticas europeias, não é necessariamente mau porque é bom ter pessoas mais qualificadas, agora tenho alguma dificuldade em compreender que se diga que são apenas os politécnicos a lecionar, mas continuem a existir os cursos de especialização tecnológica que para o público em geral pode ser complexo de distinguir. Ou seja, tem que haver uma distinção clara deste ponto de vista e é por isso que o CCISP teve uma preocupação muito forte em garantir a continuidade dos cursos, pois não faz sentido serem de ensino superior e depois exigirem-se as mesmas condições para entrada numa licenciatura que aos alunos de CET’s.

 

SR – Estes cursos podem servir como uma antecâmara para o prosseguimento de estudos?

 

PD – O objetivo inicial não era esse, embora seja cada vez mais relevante. O inquérito aos estudantes que terminam o ensino secundário ou profissional demonstram que são sobretudo os provenientes das áreas científicas e humanidades que querem prosseguir estudos. O acesso ao ensino superior de alunos que vêm dos cursos profissionais tem um conjunto mais exigente, porque obriga a realização de três exames nacionais de disciplinas que o aluno não teve no seu plano curricular. Temos tido reuniões com as escolas profissionais e secundárias e a perceção é que as próprias escolas, no seu aconselhamento em termos de prosseguimento de estudos ou em termos profissionais entendem que é fundamental haver esta oferta porque muitos alunos querem valorizar-se. Estes cursos vão claramente ter a possibilidade de creditação de algumas unidades curriculares para o prosseguimento de estudos nas licenciaturas, pelo que os alunos podem ir para o mercado de trabalho, até porque obriga a pelo menos um semestre em contexto real de trabalho através de parcerias e protocolos com as organizações ou empresas, mas também têm a possibilidade de prosseguir estudos para outras áreas.

Nós já temos esta experiência nos CET’s, em que muitos alunos prosseguem os estudos para a licenciatura por entenderem que é necessário aprofundar mais esta relação. Muitos cursos profissionais cuidam do saber fazer, mas não têm incluída uma componente mais cognitiva e mais de abstração porque não é esse o objetivo. As empresas têm necessidade do saber fazer, mas também querem trabalhadores qualificados que sabem pensar e idealizar soluções, e no ensino superior temos esta responsabilidade. Com o desenvolvimento tecnológico, com as exigências que o mercado de trabalho hoje coloca e que a globalização nos traz, temos que ter a capacidade de fazer as duas coisas em simultâneo, pois é fundamental os alunos terem estas capacidades e competências.

SR – Os cursos profissionais não estão a facilitar demasiado e os politécnicos agora a ser chamados a entrar nesse facilitismo?

 

PD – Temos que ter a capacidade e a inteligência de fazer cursos que estejam enquadrados na fileira formativa. Não se pode é dotar estes alunos, num curso de dois anos, de um conjunto de competências que são exigidas ao nível da licenciatura e do mestrado. A própria estrutura prevê essa componente mais científica, pelo que há que ter a capacidade de desenhar cursos que vão ao encontro das necessidades do mercado de trabalho. As empresas não pedem só pessoas que saibam fazer mas também que saibam refletir e que sejam flexíveis. Um aluno de contabilidade tem que saber fazer contabilidade, ou o mínimo para desempenhar estas funções, como um engenheiro de automação sabe um conjunto significativo de técnicas para poder exercer.

As empresas, sobretudo as que estão mais expostas a concorrência internacional e que têm um grande nível de exigência em relação aos recursos humanos, reconhecem que é fundamental e importante saber fazer mas ir mais além. Há que saber dosear e a forma de desenho dos cursos será extremamente exigente porque obriga a que sejam definidas quais são as competências e as atitudes e como é que cada uma das unidades curriculares irá contribuir para marcar a coerência do curso. Isso irá obrigar-nos a uma reflexão extremamente aprofundada e numa lógica de fileira formativa, mas estou convencido de que há oportunidades interessantes, até para responder a um conjunto de desafios que a própria região nos irá trazer.

SR – A relação com o exterior estava definida como a segunda prioridade?

 

PD – A segunda prioridade é sermos um parceiro da região e neste momento está a ser produzido um conjunto de documentos estratégicos para preparar o novo quadro estratégico comum. Nos últimos anos foi feito um trabalho significativo, há uma maior interação do IPS com um conjunto de entidades e estamos a participar em vários projetos. Estamos a colaborar na elaboração de um plano estratégico com a Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal (ADREPES), fazemos parte do conselho mais executivo do Plano Estratégico para o Desenvolvimento da Península de Setúbal (PEDEPES) e estamos a participar como entidades convidadas ao nível da Comunidade Intermunicipal do Alentejo litoral (CIMAL) e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT). Estamos a participar ativamente naquilo que são as definições estratégicas da região, mas para além disso tem que ser também uma ator estratégico fundamental em termos de região com projetos muito concretos.

 

SR – O que o politécnico pretende dar à região e o que espera receber?

 

PD – Um politécnico sem interação com a região não cumpre a sua missão cabalmente. O politécnico tem contribuído para a formação de quadros qualificados, em que cerca de 55 a 60 por cento dos licenciados ficam nos concelhos do distrito e 85 a 90 por cento ficam entre Setúbal e Lisboa. Por outro lado há um conjunto de projetos que estamos a realizar na região para dinamizar a competitividade de algumas empresas. Existe a questão da prestação de serviços, da transferência do conhecimento e da formação que são fundamentais. Além disso, temos vindo a fazer nos últimos tempos um conjunto de estudos sobre a região e aí o IPS tem que ser uma das fontes importantes de produção de conhecimento e de informação sobre a região, como um observatório económico e social da região. E temos que ter a capacidade de ir junto das empresas e ter parcerias estratégicas, porque o próximo quadro estratégico comum vai obrigar a estas parcerias.

Houve um trabalho que foi sendo construído e hoje, para muitas situações, somos contatados pelas câmaras, pelas empresas e pelas organizações. Portanto, houve aqui um trabalho de credibilidade que foi importante construirmos e as pessoas e entidades vêm no IPS um parceiro que é importante para os ajudar a resolver um conjunto de situações. Do ponto de vista da criação de conhecimento, precisamos dos contributos da região para fazermos essa construção conjunta de soluções. Isso obriga a uma presença permanente no terreno, com docentes e funcionários que estão ativamente em diferentes fóruns, desde a violência doméstica, passando pela saúde mental, pela questão da competitividade empresarial, da eficiência energética, da aeronáutica ou da mobilidade elétrica. Esta interação já tem resultado em novos projetos, muitos deles para serem dinamizados através do quadro estratégico comum e outros para serem concretizados de forma autónoma desse mesmo quadro.

SR – Essa ligação com a região também favorece a própria oferta formativa?

 

PD – Na maior parte dos cursos temos estágios incorporados, ou seja, todos os dias temos estudantes a estagiar e docentes a acompanhar os estágios nas organizações. Isto é, há uma relação permanente e uma antena estratégica que permite identificar um conjunto de necessidades de formação. Na área da saúde, os alunos de mestrado são sobretudo alunos provenientes de instituições de saúde do distrito, mas também temos muitos que vêm de Faro pela qualidade da formação e por aquilo que ouviram dizer. Esta relação com o instituto vem também da relação que se cria com outras entidades. Para os maiores de 23 anos adotámos uma estratégia de comunicação junto do Instituto de Emprego e Formação Profissional para fazer a apresentação a desempregados ou a pessoas que estavam a procura de emprego e surtiu efeito, pois tivemos um aumento de vinte por cento de candidatos face ao ano passado. Há esta capacidade de mobilização que acaba por ser extremamente relevante na captação de alunos tendo em conta a situação económica em que vivemos e que não é fácil para as famílias.

 

SR – Qual o efeito que a conjuntura económica atual provoca no politécnico?

 

PD – Neste momento, nenhuma instituição de ensino superior em Portugal vive desafogadamente, tal como já não vive há muito tempo. Nos últimos cinco anos tivemos um corte de 40 por cento das verbas do orçamento de Estado e assim não pode haver desafogo financeiro. Há um rigor extremamente elevado na gestão, uma procura de eficiência e de eficácia dos recursos, quer humanos, quer materiais, que nos tem permitido continuar a viver sem problemas de maior, ao mesmo tempo que temos conseguido fazer algum investimento faseado em termos de laboratórios.

Tivemos uma diminuição de alunos nos últimos dois anos e o inquérito que fazemos ao abandono escolar demonstra claramente que é a situação económica que mais prevalece nas razões para os alunos abandonarem os estudos. Por causa disso, o instituto tem desde 2010 um programa que, para além das bolsas de estudo que são geridas centralmente, pretende auxiliar os alunos, através da redução de propinas, de pagamentos de transporte ou de alimentação, em situações excecionais, numa perspetiva de responsabilidade social para garantir que não abandonam os estudos. Entretanto temos aumentado as nossas taxas de sucesso académico nos últimos dois ou três anos, passando de uma taxa de 42 para cerca de 60 por cento. Mas naturalmente que o efeito económico se faz sentir na redução de alunos e no abandono escolar.

 

SR – O instituto consegue complementar este corte do orçamento de Estado com verbas arrecadadas noutras situações?

 

PD – Alguns desses cortes foram também acompanhados de cortes salariais e o instituto manteve o valor das propinas. Para além disso, fizemos um esforço de apoio muito forte aos docentes que estavam a terminar os seus doutoramentos, pelo que não foi necessário renovar contratos com as pessoas contratadas para os substituir. Portanto, tivemos uma redução de pessoal a tempo integral nos últimos três anos, fruto dessa redução de verbas e da diminuição de alunos. Por outro lado, fizemos uma racionalização sobretudo em termos de aquisição de bens e serviços readaptando a nossa estrutura nalguns casos e reduzindo drasticamente a redução de bens e serviços nos último três anos.

SR – Mas o politécnico tem sabido encontrar receitas próprias?

 

PD – Essa é uma questão relevante, mas numa situação económica difícil das empresas, também sentimos exatamente essa dificuldade. Houve alguns projetos europeus aos quais nos candidatámos, mas que ainda estão aquém daquilo que seria o nosso desejo em termos de angariar receitas próprias. Por outro lado, 2012 e 2013 não foram anos significativos em termos de novos projetos europeus, porque é a transição do quadro comunitário de apoio. Mesmo assim, já temos alguns projetos aprovados do antigo quadro comunitário e em 2014 já nos candidatámos a cinco projetos europeus e estamos à espera dos resultados. Naturalmente que o novo quadro comunitário e sobretudo o Horizonte 2020 nos dão expetativas significativas para conseguir financiamento. Para além disso, temos algumas patentes que estão a alimentar os projetos europeus a que nos estamos a candidatar, o que acaba por ser importante para conseguirmos convencer as empresas a entrarem nestes projetos.

SR – Este novo quadro comunitário dá alguma expetativa para que nos próximos tempos haja uma inversão da situação económica?

 

PD – Há um dado que é incontornável, Portugal precisa de qualificar mais a sua população, quer aquela que ainda está em idade escolar, quer a população ativa. Deste ponto de vista não tenho a mínima dúvida de que, com apostas e com prioridades claras na educação, o ensino superior é crucial. Para além disso, todos os relatórios internacionais encomendados dizem que a haver aumento de estudantes será no ensino superior politécnico. Mesmo o novo quadro estratégico comum implica a formação e a qualificação da população ativa. Deste ponto de vista, há aqui um conjunto significativo de novas oportunidades no horizonte. Para além disso, há uma nova oportunidade que foi gerada recentemente com a aprovação do estatuto de estudante internacional e que pode aumentar a atração do ensino superior português por alunos estrangeiros. Neste momento temos mais de 200 estudantes angolanos nas diferentes licenciaturas e mestrados do Instituto Politécnico de Setúbal e estou convencido que nestes primeiros anos a prioridade será para os estudantes provenientes dos países de língua portuguesa. Já temos o regulamento aprovado, vamos abrir candidaturas para o estudante internacional e estamos a preparar um portal com informações significativas. Temos a noção clara que temos argumentos para atrair mais estudantes internacionais e estamos na expetativa de podermos aumentar o número de estudantes nos próximos anos letivos.