“Esta escola é um símbolo do Barreiro”

“Esta escola é um símbolo do Barreiro”

“A escola é bastante conhecida” no Barreiro, quer enquanto instituição, quer através do edifício. Tem “um auditório muito solicitado que, quase todos os fins-de-semana está aberto à comunidade” e “as pessoas não podem dizer que nunca ouviram falar da escola”. Ainda assim, a diretora da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro do Instituto Politécnico de Setúbal reconhece a dificuldade em conseguir alunos, “o que poderá ter que ver com as ofertas formativas”, em áreas onde a crise se faz sentir de forma acentuada, mas, “acima de tudo”, por se tratar de um politécnico. Otília Dias, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, reconhece que ainda existe esse estigma, embora contra argumente com “um plano curricular exigente” e “outra forma de tratamento”, pois “os estudantes são conhecidos pelo seu nome e não são um número”. Mas para se afirmar em pleno, “talvez tenha que ter mais anos de ensino e ser conhecida no mercado”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades podemos esperar nesta escola para o próximo ano letivo?

Otília Dias – Neste momento, temos várias licenciaturas aprovadas, em Engenharia Civil, Gestão da Construção, Engenharia Química e em Biotecnologia. Temos ainda um mestrado em Construção Civil e três pós-graduações, em Conservação e Reabilitação do Edificado, Gestão e Avaliação Imobiliária e Gestão da Sustentabilidade do Edificado. Por outro lado, apostamos também em dois Cursos de Especialização Tecnológica, de Construção e Obras Públicas e de Técnicas de Laboratório na área da Engenharia Química.

No ano passado, o curso de Biotecnologia foi aprovado pela agência de acreditação, mas não o colocámos a funcionar, porque, nesse caso, teríamos que ter zero vagas noutro curso, uma vez que um despacho do Ministério da Educação obriga-nos a manter o mesmo número de cursos. No entanto, este ano decidimos fazer algumas alterações, pelo que vamos apostar no curso de Biotecnologia e colocar zero vagas em Engenharia Química.

Entretanto, foi também aprovado o mestrado em Conservação e Reabilitação do Edificado e outro em Engenharia Civil, mas este último em parceria com a universidade do Algarve, pelo que, para já, o de Construção Civil não irá funcionar. O nosso curso de Gestão da Construção é único no país e a Comissão de Avaliação Externa achou-o muito interessante precisamente por ser híbrido e achar que são cursos deste tipo que devem ser lecionados no Politécnico. Mas, sendo único no país, é muito difícil chegar a todas as pessoas e a divulgação tem sido muito difícil.

SR – O curso de Biotecnologia não abriu porque foi considerado que fazia sentido continuar com os outros cursos?

OD – Os cursos que existiam eram válidos e por isso decidimos não abrir as vagas no de Biotecnologia. O presidente do IPS é quem decide, mas antes disso há sempre uma reunião com os diretores, que, geralmente, seguem um pouco o parecer do Conselho Técnico Científico (CTC). Dantes, esse órgão tinha muito poder, mas, neste momento, o diretor e o presidente têm mais peso nas decisões. No entanto, aqui no IPS, tentamos não esvaziar o conteúdo que achamos que o CTC deve ter e gostamos de saber a sua opinião, embora tenha pouco poder decisivo por lei. No caso particular desta escola tentamos sempre apostar em formações para as quais temos já corpo docente e que partilhem unidades curriculares com cursos já existentes.

SR – Mas as decisões são essencialmente de gestão e não opções científicas. Como é que se gere uma escola nesta perspectiva?

OD – É difícil, embora neste caso concreto tenha sido pedido aos coordenadores dos cursos que mostrassem a viabilidade e o custo em termos de pessoal. Quando o diretor tem que propor ao Presidente do IPS os valores máximos de novas admissões e inscrições nos cursos é importante que o Conselho Técnico Científico perceba as suas razões.

SR – E essas decisões pesam muito na gestão da escola?

OD – Sim, pesam bastante. No ano passado, por exemplo, tínhamos o curso de Gestão da Construção em regime diurno e noturno e não tivemos alunos suficientes pelo que foi necessário fechar um turno. Neste caso concreto, optámos por as unidades curriculares comuns com engenharia civil funcionarem em conjunto. Desta forma, o grande problema que há nos cursos únicos é o facto de termos que ir até ao fim por termos alunos que não têm para onde ser reencaminhados. Portanto, é inevitável manter um corpo docente afecto àquele curso enquanto houver alunos.

SR – Como é que se junta a gestão financeira com o interesse do mercado?

OD – É muito difícil, mas tentamos sempre. O concelho do Barreiro tem cinco escolas secundárias, mas este ano apenas 25 pessoas, a nível nacional, colocaram a nossa escola numa das suas opções. Portanto, nem na própria região conseguimos captar alunos, o que poderá ter que ver com as nossas ofertas formativas, visto que as áreas da construção e da química passam por um momento difícil, mas, acima de tudo, penso que é por sermos um politécnico. O ISEL também é politécnico, mas como tem mais de cem anos já não carrega esse estigma. Nas áreas da Engenharia Civil e Química somos regidos por ordens e ainda há muitos estudantes que pensam que se forem para as instituições mais antigas, nomeadamente, a Universidade Nova, o Instituto Superior Técnico ou o ISEL não terão que ser submetidos provas, o que não acontece se forem diplomados pela EST do Barreiro. Mas já temos casos de diplomados nossos pós-Bolonha que foram aceites pela Ordem dos Engenheiros sem realização da prova.

SR – O que é que falta para que a EST Barreiro seja tratada de outra forma?

OD – Talvez tenha que ter mais anos de ensino e ser conhecida no mercado. Neste momento, os nossos alunos de Engenharia Civil estão a exercer nos cinco cantos do mundo, mas, também na área da investigação temos diplomados a fazer doutoramentos na FEUP, no Instituto Superior Técnico e no MIT. Por exemplo, quando um aluno nosso vai estudar para fora, ou seja, quando quer continuar os estudos noutra instituição, é comum ter equivalências em quase todas ou mesmo em todas as unidades curriculares que realizaram, e posso dizer-lhe que isso não é muito comum entre instituições

SR – Essas competências são verificadas também na prática, com os conhecimentos demonstrados?

OD – Sim e posso exemplificar com um caso muito concreto. Nos concursos de trabalho para o exterior, há cerca de dois ou três anos, uma firma que estava a pedir engenheiros escreveu nas notas de rodapé do anúncio que esse profissional teria que ser formado pelo Instituto Superior Técnico. Ora, um aluno nosso não viu a exigência e candidatou-se à vaga, passou essa fase e chegou à entrevista. No final, foi ele que ficou com o lugar e acharam curioso o facto de ter vindo de uma escola que não conheciam e estar no meio de alunos do Técnico. Portanto, os nossos alunos, neste momento, reconhecem que a postura da escola, de manter um plano curricular exigente, é uma grande mais-valia para eles, pois sabem que é esse o fator que os levará a terem as mesmas oportunidades que os diplomandos de outras instituições mais conhecidas.

SR – A direção da escola já abordou a Ordem dos Engenheiros para que houvesse uma maior flexibilização nos processos?

OD – Para além do presidente do CTC já ter dialogado com a Ordem dos Engenheiros já foi solicitado uma reunião com os coordenadores de curso da nossa licenciatura e do mestrado em Engenharia Civil.

SR – Acha que há um estigma por ser um politécnico?

OD – Sim, claramente. Há uns tempos, houve aqui uma conferência da Baía do Tejo sobre industrialização em que estava o jornalista Camilo Lourenço que falava muito sobre esse problema. Também estavam presentes o administrador da Autoeuropa e da CUF, que disseram que tinham vindo das antigas escolas profissionais. Desta forma, o jornalista quis saber qual era então o problema dos politécnicos e eu perguntei quantas das pessoas presentes na sala que tinham filhos aceitariam que eles fossem estudar para o politécnico em vez de escolherem a Universidade, ao que o jornalista afirmou que era uma questão oportuna, embora soubéssemos qual a resposta, pois todos preferiam nitidamente a universidade.

Embora saibamos que um diplomado do Técnico tem maior facilidade de emprego, os estudantes na EST do Barreiro têm outra forma de tratamento, pois devido ao facto de sermos uma escola pequena, os estudantes são conhecidos pelo seu nome e não são um número. Temos, geralmente, muitos alunos que vêm por transferência ou mudança de curso. Dos casos que conheço, os alunos decidiram vir para a nossa escola porque moravam aqui e ficava muito mais barato, mas houve também situações em que alguns estudantes que tiraram a licenciatura na EST do Barreiro e pretenderam prosseguir os estudos em outras instituições não suportaram a indiferença de tratamento e voltaram. Portanto, não teve que ver nunca com o grau de exigência. A maior parte dos alunos do IPS vem também por ouvir falar da nossa instituição.

SR – Em relação ainda ao estigma, o que sentiram quando a universidade do Algarve vos propôs a parceria?

OD – A universidade do Algarve é também politécnica, ou seja, tem as duas vertentes, pelo que não há tanto esse estigma. O mestrado que vai funcionar em parceria com essa instituição tem 60 vagas, 30 para cada estabelecimento de ensino. Desta forma, o corpo docente é fixo e nas disciplinas mais específicas, e que normalmente têm turmas mais pequenas, vamos funcionar com o ensino à distância, caso contrário, não é viável em termos monetários. Claro que nos sentimos um certo orgulho pois se nos procuraram foi porque acharam que os podíamos ajudar.

SR – Este tipo de parcerias pode então ser uma solução para o corpo docente que corre o risco de ser excedentário com a redução do número de vagas e cursos?

OD – Tem que ser uma solução, porque é uma forma de as instituições envolvidas saírem beneficiadas, embora o despacho do Ministério da Educação, que saiu há duas semanas, proponha uma reorganização geográfica no caso de não conseguirmos funcionar isoladamente. Ou seja, se esta atual organização não for viável, Évora juntar-se-á a Portalegre e Beja, o Algarve fica sozinho e nós teremos que fazer uma parceria com Lisboa.

SR – E essa solução também não é ideal para o Instituto Politécnico de Setúbal?

OD – É difícil pensar no que é ideal, pois na reorganização pensamos sempre em melhorar e não em piorar, e no caso concreto do IPS não sei se a proposta da tutela será a melhor. Não seria bom juntarmo-nos a Portalegre ou Beja, porque estão também numa fase difícil, e se nos juntássemos a Lisboa seríamos “engolidos” pelo ISEL ou pelo Instituto Superior Técnico e não seria uma mudança positiva. No entanto, para já, todos têm condições para funcionar sem necessidade de junção, por isso, penso que, até lá, esta situação pode mudar.

SR – Qual é a situação atual desta escola?

OD – Este ano, tivemos menos cem alunos. É evidente que é um número alto, mas sendo uma escola essencialmente de construção civil, e neste contexto de crise e abandono escolar, penso que não foi uma diminuição assim tão grave. Em relação ao futuro, como sabe, vamos ter um novo presidente e já verificámos algumas alterações, porque a taxa de votação para o novo Conselho Geral foi de quase 90 por cento, o que significa que as pessoas sentem necessidade de algo diferente. Há anos que se discute se faz sentido existirem duas escolas de tecnologia no IPS e tivemos receio que os nossos cursos fossem para a escola de Setúbal, mas o curso de Engenharia Civil tem aqui um laboratório muito completo e único e era impossível replicá-lo em Setúbal

Pessoalmente, sou apologista de uma escola de tecnologia e gestão, porque é uma forma de termos uma oferta formativa nas duas áreas. Esta escola é um símbolo do Barreiro, quer do ponto de vista da instituição quer do edifício. Temos um auditório muito solicitado que, quase todos os fins-de-semana está aberto à comunidade, com ou sem custos, dependendo dos objetivos das entidades, para a realização de eventos. Por conseguinte, a escola é bastante conhecida e as pessoas não podem dizer que nunca ouviram falar da escola.

SR – Como vê o futuro desta escola?

OD – Eu gostava que a escola conseguisse manter-se com a sua identidade própria. Neste momento, temos apostado nos países de África, como, por exemplo, Moçambique e Angola. Vamos tentar fazer um open day em duas cidades angolanas, para ver se conseguimos trazer alunos para o IPS. Na área da Biotecnologia, penso que vamos captar alunos, visto que no ano passado, nas seis escolas que tinham o curso, as vagas foram todas preenchidas. Por outro lado, a área do petróleo, que não temos em Portugal é-nos muito solicitada, tanto de países africanos como pelo Brasil. Por exemplo, uma empresa angolana solicitou-nos um CET em Engenharia de Petróleo e Gás e outra um mestrado na mesma área. Portanto, neste momento, estamos a trabalhar nesse sentido, nos chamados cursos à medida, pois temos que dar a volta e fazer prestação de serviços na área da formação.

SR – E tem confiança no futuro?

OD – Já estive pessimista quanto ao futuro desta escola, mas, neste momento, penso que vai conseguir manter-se. Seja como escola de tecnologia ou com outro nome, uma coisa é quase certa, depois de ser divulgado o relatório de avaliação do curso de Engenharia Civil. É que este irá manter-se cá, de certeza absoluta.

http://www.si.ips.pt