“É a ligação às empresas que promove o sucesso dos alunos”

“É a ligação às empresas que promove o sucesso dos alunos”

O desafio que se coloca à Escola Superior de Tecnologia de Setúbal é o de “transmitir a ideia” de que é diferente e melhor “na área da ligação às empresas, da resolução de problemas práticos, da engenharia aplicada e do saber fazer”. O diretor da escola considera “extremamente importante manter o contacto com as empresas para que haja um feedback sobre a formação e as capacidades dos alunos”, mas também na ajuda da “resolução de problemas práticos das empresas”. Nesse sentido, Nuno Pereira, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, destaca o novo ramo do curso de Engenharia Mecânica, “que procura responder às solicitações” que a escola tem recebido devido ao “desenvolvimento que se está a verificar na região na componente da aeronáutica”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades a escola pensa apresentar no próximo ano lectivo?

Nuno Pereira – A principal novidade tem que ver com o curso de Engenharia Mecânica, pois incluímos um novo ramo que procura responder às solicitações que temos tido mediante o desenvolvimento que se está a verificar na região na componente da aeronáutica. O curso já existe e tem três ramos, mas foi remodelado, no sentido de corrigir algumas situações na sequência científica de algumas matérias e de introduzir o ramo de aeronáutica.

SR – Como é que surge a opção pelo ramo da aeronáutica?

NP – A ideia de lançar este ramo surgiu através de um conjunto de contactos que tem havido com empresas da região e com as que estão a ser instaladas no distrito de Setúbal e de Évora. Temos também mantido colaborações com as OGMA, a LAUAK e com a Força Aérea, através de alguns colegas que têm particular atividade nessa área. ALAUAK também incentivou a ideia e colaborou no desenvolvimento dos próprios conteúdos. Portanto, foi através de um conjunto de situações que identificámos a necessidade das empresas e a de complementar a formação de jovens que estão em formação no Centro de Emprego na área da aeronáutica, mas não tinham oportunidade, pelo menos no distrito, para seguir o estudo naquela vertente.

SR – Pode dizer-se então que o curso nasceu de uma ligação com o tecido empresarial. Esse tem sido um procedimento da escola?

NP – Tem havido essa ligação, mais em determinadas áreas do que noutras, mas é algo que estamos a tentar reforçar. Esse curso será o primeiro a voltar a uma linha que já tivemos, ou seja, no final da formação, haverá um estágio. Essa opção foi retirada do programa curricular aquando da introdução das licenciaturas bietápicas, mas, de facto, percebemos que houve um afastamento das empresas.

Desta forma, decidimos fazer novamente essa aposta, porque consideramos extremamente importante manter o contacto com as empresas, não só para angariar estágios mas também para que haja um feedback sobre a formação e as capacidades dos alunos. Por conseguinte, no próximo ano, os estudantes do curso de licenciatura em engenharia mecânica poderão optar por fazer estágio ou um projecto final. Esta opção será progressivamente introduzida nos outros cursos, com as alterações curriculares que propomos durante os processos de avaliação. As comissões de avaliação externa já avaliaram dois cursos de licenciatura e consideraram muito positiva a introdução dos estágios.

SR – A escola também pretende aproveitar os estágios para aumentar a perceção das reais necessidades das empresas?

NP – Sim, porque a ligação que tínhamos com as empresas era muito mais próxima quando os estágios faziam parte do plano curricular. As organizações conheciam-nos melhor, pediam-nos os estagiários e muitos deles acabavam por lá ficar. Uma vez que a avaliação do estágio era feita em parceria com a empresa, o feedback que nos davam era extremamente importante porque o orientador identificava as lacunas que existiam e depois tínhamos que perceber se estavam relacionadas com o aluno ou com a própria formação e, portanto, era muito mais fácil de corrigir essas falhas, pois muitas vezes bastava dar mais ênfase a certas matérias. Portanto, é a ligação às empresas que promove o sucesso dos nossos alunos no mercado de trabalho.

SR – Esta escola tenta também dar alguns contributos para a região, além da formação académica?

NP – A esse nível poderá ser sempre melhorado, mas até temos mantido uma boa relação com as empresas da região. Continuamos a ser a unidade orgânica do IPS com mais projectos de prestação de serviços especializados às empresas. Portanto, temos conseguido realmente manter uma boa relação com várias entidades da região através das áreas da Mecânica, Electrotecnia, Informática e até mesmo do Ambiente.

SR – Desenvolvendo projetos e encontrando soluções de que as empresas precisam?

NP – Sim, respondendo às solicitações que nos são colocadas, de desenvolvimento de produtos ou de solução de problemas técnicos. Há um caso muito interessante que envolveu docentes de Electrotecnia e Mecânica, no âmbito do projecto europeu “Eco Design Automóvel”, em que tivemos a tarefa de estudar as baterias dos carros eléctricos. A colega de Mecânica ficou responsável pela análise do ciclo de vida do automóvel, desde a produção até ao desmantelamento do equipamento, e o de Electrotecnia fez o trabalho relacionado com as propriedades e as características das baterias eléctricas.

Também houve um outro projecto, dinamizado com uma empresa da região, em que o objetivo era alterar um veículo com motor a gasolina ou a diesel para elétrico e, portanto, foi necessário fazer um estudo profundo da eletrónica do veículo. Foi feita uma interface de ligação com a eletrónica do veículo com a finalidade de retirar o motor de combustão e colocar um motor elétrico, mantendo a caixa de velocidades e a instrumentação existentes.

SR – E é um projeto com aplicação prática?

NP – Sim, é um projecto que está a ser dinamizado por uma empresa da região que pretende fazer a transformação desses carros. No entanto, há um problema ainda por resolver, que não está directamente nas nossas mãos, que tem que ver com o facto de as baterias terem um custo muito elevado. Contudo, se as pessoas estiverem dispostas a pagar as baterias, acaba por ser uma solução possível e que funciona.

SR – Esta escola aposta nas áreas de investigação, ou seja, inventam-se aqui soluções com aplicação prática na vida das pessoas?

NP – Algumas coisas, sim. Não tantas como gostaríamos porque as condições variam de escola para escola e dentro do mesmo sistema de ensino e da mesma área de formação. Neste momento, temos um corpo docente em que cerca de 50 por cento está doutorado. Durante o doutoramento temos que ser, inevitavelmente, alunos das universidades e acabamos também por ficar ligados aos seus centros de investigação e, portanto, alguns dos trabalhos que fazemos acabam por ficar nesses centros.

Neste momento, temos um conjunto bastante grande de colegas ainda em formação de doutoramento e, nessa situação, a disponibilidade para estudar e desenvolver outro tipo de projetos, fora do âmbito do doutoramento, é limitada. Nessa formação, é estudado um tema, que muitas vezes pode ter trabalhos de investigação que levam a desenvolvimentos futuros bastante importantes e até a patentes, mas será sempre um trabalho feito no âmbito da formação.

Há outro problema que está relacionado com a carga letiva. Nas universidades, a carga horária é, em média, metade da nossa. Portanto, o facto de termos mais horas lectivas, implica também mais tempo de preparação, porque obriga a que estejamos ligados a mais unidades curriculares e a um esforço maior de estudo, preparação e actualização. Portanto, o tempo disponível para a investigação também é menor, mas ainda assim conseguimos sempre arranjar tempo para esse tipo de atividades, porque é exigido na carreira de docente.

SR – E os alunos podem envolver-se nessas investigações?

NP – Sim, essa é outra diferença que temos em relação à universidade, porque estamos, essencialmente, vocacionados para a formação de licenciaturas. No entanto, essa é uma formação inicial e, portanto, os alunos podem fazer alguns projetos, mas nunca conseguem desenvolver trabalhos muito profundos, porque o tempo não o permite, uma vez que, ao fim de três anos, o objetivo é integrá-los no mercado de trabalho.

Esse tipo de trabalho consegue-se, normalmente, com alunos de mestrado, porque têm uma tese para fazer e um semestre dedicado a esse projeto, sendo, por isso, um trabalho mais válido, visto que a formação já é mais avançada e eles têm mais disponibilidade para o fazer.

SR – Podemos dizer que o politécnico continua subalternizado em relação às universidades?

NP – Eu não chamaria subalternizado. Acho que temos que criar o nosso espaço e definir objectivos. Quando se fala em desenvolver atividades de ponta, essa não é a nossa função fundamental. O nosso papel tem que ver com a ligação direta às empresas, com a resolução de problemas práticos das organizações. Podemos fazer uma investigação muito avançada, já tivemos projetos dessa natureza, mas não podemos pensar em competir com as universidades a esse nível. Temos que criar o nosso espaço e distinguir-nos na área em que atuamos. Se pensarmos em competir com as universidades, aí sim, ficaremos numa posição inferior.

SR – O que é que pode levar um aluno a optar por um politécnico em detrimento de uma universidade?

NP – Acho que é pelo que nos distingue. O que temos que fazer é transmitir a ideia de que somos diferentes e melhores na área da ligação às empresas, da resolução de problemas práticos, da engenharia aplicada, do saber fazer. Quando o aluno distingue os dois sistemas de ensino, não deverá fazê-lo apenas porque pensa que na universidade terá um prestígio maior ou pela questão das médias, uma vez que muitos consideram que o politécnico é uma opção para os alunos têm uma média mais baixa. Esse é o lado negativo, também porque, tradicionalmente, a universidade é a primeira opção, uma vez que existem há muito mais tempo do que nós. Mas temos muito bons alunos que optaram pelo politécnico pelas características do seu ensino e isso é gratificante.

SR – A formação ministrada aqui é então mais adaptada ao mundo real?

NP – O que se verifica muitas vezes é que os nossos diplomados adaptam-se muito mais rapidamente ao trabalho nas empresas. Os alunos que saem das universidades também o podem fazer, mas não tão rapidamente, pois tiveram uma forte componente teórica e muitas vezes falta-lhes a parte prática. Aqui, a vertente teórica é mais aliviada, damos os fundamentos, mas não os desenvolvemos tanto como nas universidades, porque depois damos as aplicações, ou seja, lecionamos as teorias e, ao mesmo tempo, aplicamo-las. Quando visitamos os nossos laboratórios vemos que são didáticos, não temos grandes equipamentos de investigação avançada, mas os alunos podem usar os que temos, porque nós privilegiamos essa componente. Nas universidades, há equipamentos de topo na investigação, mas os alunos de licenciatura não os utilizam.

SR – Os laboratórios desta escola tornam-na mais cara de manter do que a outras do politécnico?

NP – Claramente. O apoio laboratorial é extremamente dispendioso, quer em termos de equipamento quer de manutenção. Alguns materiais são reutilizáveis, mas há outros que se gastam e é preciso estar constantemente a investir, o que se torna difícil numa altura em que temos perdido uma grande fatia do nosso orçamento.

SR – E isso afeta a oferta que fazem aos alunos?

NP – Não tem afetado nesse aspecto. Isso tem-se verificado mais a nível da disponibilidade de mais equipamentos e, nesse sentido, temos que fazer uma gestão diferente dos materiais que temos. No entanto, penso que os estudantes ainda não notaram muito. O que acontece é que, por exemplo, em situações como as visitas de estudo, há uma certa contenção e tentamos sempre gerir de forma a irem mais alunos, para rentabilizar a despesa, uma vez que, atualmente, as reduções de orçamento são muito fortes e é sempre necessário poupar.

SR – A crise em que vivemos afeta os resultados dos alunos desta escola?

NP – Temos essa perceção e já há muitos anos que notamos que os nossos estudantes têm que trabalhar para pagar os estudos e, eventualmente, para ajudar nos encargos da família. Por um lado, é positivo porque os dinamiza, mas, por outro, penaliza-os em termos do desempenho escolar, porque a disponibilidade não é a mesma.

SR – Há uma taxa de abandono significativa?

NP – Podemos destacar daqui duas vertentes. A primeira está claramente ligada ao insucesso escolar, que muitas vezes leva ao abandono. O que motiva essa situação é a falta de tempo que os próprios estudantes têm para se dedicar ao estudo porque também trabalham. Inevitavelmente, o estudante que trabalha não tem a disponibilidade necessária para alcançar o desejado sucesso escolar e, portanto, ao fim de um tempo, ao não verem resultados positivos, abandonam o curso.

A segunda vertente tem que ver com o facto de, muitas vezes, deixarem algumas unidades curriculares por fazer, normalmente as mais teóricas de primeiro ano, embora quando entram no mercado do trabalho precisem, por exemplo, de assinar os projectos enquanto engenheiros e, não o sendo, não o podem fazer. No entanto, há empresas que não têm essa exigência, daí que, por vezes, alguns alunos deixam unidades curriculares por fazer e não terminam o curso.

SR – Que tipo de preparação é que os alunos trazem à entrada para esta escola?

NP – Temos várias formas de entrada nos cursos de licenciatura. A mais habitual é a do concurso nacional de acesso. Recentemente, houve uma alteração das regras de acesso e, para ingressarem na maioria dos cursos de engenharia, os estudantes têm que apresentar provas de Matemática e Física. Esta regra tem, sensivelmente, um ano e penalizou-nos no ano passado, pois levou à diminuição do número de candidatos pelo concurso nacional.

Temos ainda os concursos especiais, os titulares do curso de especialização tecnológica, os CET, em que os alunos são formados na nossa escola, em escolas profissionais ou centros de formação e, tendo o diploma, podem concorrer e aceder às licenciaturas. Os estudantes de CET, tipicamente, estarão ao nível dos candidatos do concurso nacional de acesso, porque já têm uma formação adicional e inserem-se nas turmas diurnas e pós-laboral.

Os alunos também podem aceder através da candidatura de maiores de 23, ao fazer provas de seleção com várias componentes e, mediante as vagas dos cursos, alguns conseguem entrar. Os maiores de 23, com algumas excepções, são o grupo mais débil, pois são pessoas que não estudam há muito tempo, com família e trabalho.

SR – Qual é a imagem de marca desta escola?

NP – A comissão de avaliação externa, que avaliou três dos nossos cursos, ficou bastante agradada com os nossos laboratórios, com as instalações e com a estrutura do corpo docente, e disseram-nos que tínhamos que fazer mais divulgação da escola. Portanto, temos que mostrar aquilo que somos e aquilo que temos. Acho que, se os estudantes perceberem as condições que temos em termos de laboratórios e instalações, os trabalhos que fazemos e a ligação que mantemos com as empresas, será uma mais-valia para a nossa escola.