“Com o curso de Turismo de Ar Livre faríamos jus ao nome”

“Com o curso de Turismo de Ar Livre faríamos jus ao nome”

No ano passado “a divulgação começou muito tarde” e não foi possível abrir o curso de Turismo de Ar Livre na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal. Entretanto, a escola de Coimbra arrancou com o curso piloto e aumentou a vontade de dinamizar este curso em Setúbal. A diretora da escola justifica esse desejo “com a quantidade de gente que trabalha nesta área das atividades de turismo de ar livre e que não tem o devido reconhecimento do mercado”, além de ser um curso “totalmente virado para o turismo e não tanto com a área hoteleira”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Maria João Carmo explica que “os alunos formados neste curso são gestores de produto”, que podem “não só estar a acompanhar no terreno as modalidades”, como ficam “com uma qualificação polivalente, pelo que conseguem gerir processos e ajudar no crescimento do negócio dessas empresas”. As expetativas são, por isso, grandes para este curso, que se juntaria aos tradicionais de hotelaria e restauração, em que “os alunos aguardam cerca de um mês até conseguirem ter o primeiro trabalho”, com uma taxa de empregabilidade dos finalistas entre os 70 e os 80 por cento, o que a diretora considera “um excelente indicador” para a escola. 

“Setúbal na Rede” – É este ano que abre o curso de Turismo de Ar Livre?

 

Maria João Carmo – Acredito que sim, porque no ano passado não foi propício o momento da divulgação, uma vez que a instrução do processo não estava finalizada na altura certa e a divulgação começou mais tarde do que as restantes. Entretanto, temos já um caso piloto, o da escola de Coimbra, que foi importante para conseguir dinamizar este curso aqui na escola, porque já vamos conseguir tirar algumas conclusões sobre o que corre bem e o que corre mal. É efetivamente um curso piloto, pois é completamente novo e há muita coisa a limar.

SR – Mas tinha gosto que esta escola tivesse sido pioneira.

 

MJC – Eu gostava imenso que tivesse, mas será quase pioneira se conseguirmos ter o curso a partir deste ano, com a vantagem de já haver um em funcionamento, o que nos ajuda imenso e que nos permite já alguns melhoramentos. É um curso que adorava ter nesta escola por todas as razões e mais algumas. É algo que está relacionado com o turismo e não tanto com a área hoteleira, que é o que nós estamos habituados a ter, como a gestão hoteleira e gestão e produção de cozinha. Ou seja, estamos a formar pessoas que vão, na maioria, 90 por cento dos casos, trabalhar para unidades hoteleiras. Para a restauração vai uma minoria e pode ter a ver com o facto de os cursos não estarem tão orientados para a restauração, com o facto de a própria restauração não apresentar as condições que achamos que vão ao encontro da qualidade de ensino que fazemos ou porque a própria restauração ainda não valoriza a qualificação dos recursos humanos.

SR – Sendo esta uma escola de hotelaria e turismo, está demasiado virada para a hotelaria e pouco para as outras vertentes do turismo?

 

MJC – Neste caso do Turismo de Ar Livre faríamos realmente jus ao nome desta escola, porque está totalmente virado para o turismo. Parece-me que é um curso importante de existir no mercado e que agora pode ser ministrado em outras escolas, porque está no catálogo das qualificações e disponível para uma outra entidade que o queira promover. Uma das razões porque é importante tem a ver com a quantidade de gente que trabalha nesta área das atividades de turismo de ar livre e que também não tem o devido reconhecimento do mercado.

SR  – Esse seria o primeiro público-alvo, as pessoas que já estão no mercado de trabalho nesta atividade.

 

MJC – Exatamente, pois na região temos uma série de entidades que trabalham nessa área, em atividades realizadas ao ar livre, e que lhes daria jeito, com certeza. O ano passado, porque fazia parte da instrução do processo, tivemos que celebrar antecipadamente alguns protocolos de estágio com entidades e não tivemos dificuldade. Isso significa que existe, da parte do mercado, vontade de receber os estagiários. Se terão depois capacidade para contratar toda esta gente, não sei, porque são empresas que vivem ainda de alguma sazonalidade, mas estamos também a falar de técnicos qualificados, com uma polivalência que possivelmente os atuais colaboradores destas empresas não têm. Se calhar, só dominam determinada modalidade, determinado ponto do processo, e não faz sentido ter esses recursos o ano inteiro. Mas neste caso estamos a falar de pessoas que ficam com uma qualificação polivalente, que conseguem gerir processos dentro das atividades turísticas e, como tal, até podem ajudar no crescimento do negócio dessas empresas.

SR – Quer dizer que as empresas do setor tomaram conhecimento deste curso mas não demonstraram interesse para que os seus próprios colaboradores viessem frequentar o curso?

 

MJC – Porque geralmente não são elementos dessas empresas, uma vez que elas contratam pessoas caso a caso. Essas empresas acabam por ter um quadro muito pequeno, a maior parte são empresas familiares e como tal não devem ter muita gente a tempo inteiro. No fundo, neste caso, os alunos formados neste curso são gestores de produto, alguém que possa não só estar a acompanhar no terreno as ditas modalidades, e mais do que uma, mas também possa estar orientado para o cliente e para orientar toda a logística à volta dessas atividades. Normalmente é o dono da empresa que tem essa dor de cabeça ou tem um empregado que é mais habilidoso em determinado aspeto e vai reunindo as competências. Neste caso, estamos a dizer que numa única pessoa pode haver as várias competências necessárias.

SR – Mas será que este setor tem capacidade para crescer nesta região?

 

MJC – Pode ser que haja um efeito de bola de neve. Por exemplo, há muitas unidades hoteleiras que também têm atividades de animação turística e normalmente subcontratam as empresas para as organizar. Haverá empresas que também têm recursos internos, gente do quadro da unidade que está afeta para fazer essas animações turísticas. Portanto, de um lado ou de outro, entre os vários operadores que completam o serviço da unidade e a própria unidade, podem surgir outras oportunidades de negócio ou outro tipo de serviço que seja bem visto no mercado. Se calhar, pode até ajudar a ultrapassar a questão da sazonalidade, partindo do princípio de que quanto mais competentes forem, mais criativos, mais produtivos, mais pró-ativos podem ser.

SR – Quer dizer que acredita que este curso pode até ajudar o turismo a crescer na região?

 

MJC – Precisamos também de ver, depois, onde estarão estas pessoas que fizerem estes primeiros cursos de Turismo de Ar Livre. Vamos fazer o acompanhamento para ver como crescem e como são integradas no mercado e isso vai permitir também tirar algumas conclusões. É o que já fazemos com os outros cursos e conseguimos perceber se estão a trabalhar, se estão no sector e quanto tempo demoraram até arranjarem o primeiro emprego. Depois vai ser interessante trabalhar esse acompanhamento das pessoas que terminam o curso e ver depois o que pode ser melhorado, tirando algumas conclusões que possam ser incorporadas no plano curricular original e tentar dar outra resposta ao mercado, se assim se justificar. Não será um curso que seja repetido todos os anos, porque não temos assim tantos operadores que possam anualmente contratar pessoas com este tipo de formação, mas depois o mercado já nos pode dizer.

SR – Em relação aos cursos tradicionais da escola, qual é o balanço que se pode fazer?

 

MJC – As escolas do Turismo de Portugal, através da Direcção de Qualificação, fazem esse acompanhamento de uma forma integrada, em todas as turmas finalistas, passados seis meses após terminar o curso, através de um inquérito com uma série de questões. As conclusões que tirámos com o último estudo é que os alunos aguardam cerca de um mês até conseguirem ter o primeiro trabalho, o que é excelente, e a rondar entre os 70 e os 80 por cento de taxa de empregabilidade dos alunos finalistas, o que também me parece ser um excelente indicador. Obviamente que deve haver sempre margem para melhorar, nomeadamente o facto de parecermos estar mais vocacionados para as unidades hoteleiras e a restauração não estar equiparada enquanto local para receber os alunos formados.

SR – Mas a escola pode ajudar a corrigir isso?

 

MJC – Com toda a humildade, diria que uma escola de hotelaria consegue sempre ajudar qualquer tipo de entidade, seja uma unidade hoteleira, seja da restauração, em termos de formação e até do próprio negócio e da sua estruturação, e há algumas entidades que nos procuram para esse efeito. Pelo menos na zona de Setúbal, já apareceu um ou outro caso de restaurantes a quererem-nos como parceiros para estruturar da melhor forma, de forma eficaz, o negócio, o que é um ótimo sinal. Saber que vai existindo uma ou outra entidade que vai abrir e tem o cuidado de procurar a escola para estruturar ideias, definir e validar menus, elegendo-nos para trabalhar com eles, é um ótimo sinal do mercado.

SR – Estamos a falar de um serviço que é mais de consultoria especializada na área. É uma atividade que a escola também pode abraçar?

 

MJC – Nós temos o know-how, pelo que venha muita gente que queira abrir restaurantes até à escola procurar algum apoio que nunca negamos e quando não se encontra internamente essa solução, encontra-se um recurso nas relações da escola. Não há ninguém que não tenha resposta da escola nesse sentido. Já tivemos casos específicos de validação de menus e de apoio na própria estruturação do negócio, da equipa ou do próprio espaço. Procurarem uma escola e achar que uma escola pode ajudar nessa matéria, acho um sinal fantástico.

SR  – Podemos dizer que na hotelaria já se sente um maior cuidado na oferta, mas que a restauração continua aquém do que se desejaria?

 

MJC – Sim, até porque temos aqui uma restauração muito distinta. Temos restauração que já está implementada há anos, há décadas, e essa é a mais difícil. Como em qualquer situação na vida, existe a tal resistência à mudança, com pessoas um bocadinho mais avessas aquilo que é a atualização de conhecimentos ou de conceitos. E depois existem os novos, os que vão surgindo, tentando criar a sua própria oportunidade, em que nem todos terão background em hotelaria, mas querem vingar, são conscienciosos e ponderados. O capital é caro, poucos são aqueles que têm capacidade própria para investir e as pessoas têm que se financiar de alguma forma. Portanto são mais ponderadas e o contexto em que vivemos também ajuda. Também temos casos interessantes na cidade de gente que, mesmo não vindo diretamente à escola procurar apoio de raiz para montar o negócio, têm um negócio recente e nos procuram. Se fazemos um workshop, gostam de estar presentes. O ano passado tivemos alguns eventos aqui na escola, em que estrategicamente convidámos gente da restauração, e os que apareceram sem qualquer tipo de reservas foram sobretudo esses mais novos.

SR  – Não há também medo, muitas vezes, de que vir buscar gente qualificada possa mudar a orientação do negócio e afastá-los da oferta tradicional?

 

MJC – Acho que o medo é esse, mas é um medo sem fundamento porque na própria formação existe a preocupação de ter aquilo que é clássico, aquilo que é tradicional, e conseguir ter também a inovação. Um curso de cozinha tem desde os módulos tradicionais de cozinha portuguesa, de cozinha regional, que mais tradicional não pode ser, mas também tem a preocupação de ter a cozinha molecular e criativa ou menus de buffet e degustação e um aluno de cozinha tem de ter estas dimensões todas. Isto não quer dizer que um aluno, apesar de conhecer a cozinha molecular, não tenha uma apetência maior para aquilo que é tradicional e até uma formação um bocadinho mais atualizada, com valor acrescentado para um sítio que é todo ele tradicional e que existe há imensos anos. Mesmo o tradicional precisa de inovação para se manter tradicional.

SR – Será por essa razão também que as pessoas que já trabalham na restauração não acorram tanto à formação contínua?

 

MJC – Pode ser também um dos fatores. Mas este setor da hotelaria é também muito complexo, quer pela questão da sazonalidade ou pela questão dos horários, pelo que é, obviamente, sempre mais difícil fazer formação. Portanto, esse pode ser um dos fatores, mas não digo que seja o mais importante, não quero acreditar que seja por isso, mas com certeza que terá também o seu peso.

SR – Muita gente também não saberá que esta escola tem a oferta de formação modular muito direcionada para pessoas que estão no ativo.

 

MJC – A escola está há pouco tempo a funcionar nestas instalações, onde temos uma outra estrutura que permite dar esse tipo de resposta, embora já o fizéssemos em anos anteriores. Mas agora temos melhores condições para este tipo de formação complementar, tão nobre como a formação inicial que fazemos para os jovens. Portanto, faz parte da missão da escola esta componente de atualização de conhecimentos para quem já está a trabalhar, porque queremos que a escola seja a eterna casa do aluno que daqui saiu e que sempre que precisar de uma atualização de conhecimentos e de competências volte cá porque estamos aqui para dar resposta. Este ano estamos mais estáveis em termos de estrutura e o plano de formação contínua que andamos a promover indicia que temos mais esse papel a cumprir aqui na cidade e na região. A resposta tem sido positiva, francamente positiva, temos tido alguma aceitação e várias inscrições, mas, sobretudo, pelo contexto em que vivemos, pois esta formação está aberta também a desempregados e é um fator facilitador para angariar formandos para determinadas formações.

SR – Cumprindo aí outra missão, que não a valorização dos ativos.

 

MJC – A maioria das ações que vamos fazer estão orientadas para o setor, para a indústria hoteleira, mas existem também algumas ações que são transversais e que podem ser de interesse para outro tipo de público. É o caso das línguas ou da gestão de eventos, por exemplo, que é algo que estava bastante orientado para a nossa área mas após uma análise feita aos formandos inscritos, verificamos que teremos uma turma muito heterogénea em termos de habilitações, das qualificações e de experiências profissionais, o que não deixa de ser desafiante.

SR – Entretanto, o restaurante de aplicação já funcionou em pleno este ano. Com que balanço?

 

MJC – O balanço foi ótimo e afirmou-se como um excelente canal de divulgação da escola. No restaurante do Bonfim, que era um espaço muito simpático, não conseguíamos cativar as pessoas, mas aqui, utilizando exatamente os mesmos recursos, conseguimos facilmente. Estamos estrategicamente colocados, alterámos um bocadinho a filosofia e tornámo-lo um bocadinho mais atrativo, conciliando a tal relação entre a tradição e a inovação. Os clientes que nos procuravam nuns dias tinham gastronomia regional, outros, mais cosmopolitas, vinham nos dias em que tínhamos o menu internacional, e os que gostam de arriscar procuravam-nos quando tínhamos menus temáticos, nos quais tivemos inclusivamente os alunos a fazer gelados com azoto líquido, ali no momento. Tivemos momentos espetaculares, foi fácil cativar as pessoas e o restaurante fechou porque terminámos o ano letivo e os alunos estão agora a estagiar, mas reabre em outubro.

SR  – Mais do que um restaurante, é um cartão-de-visita da escola?

 

MJC – Para quem quiser perceber o que é o trabalho numa escola de hotelaria, não há melhor. Dentro das aulas não se pode entrar, mas quem vier ao restaurante vê os alunos em plena atividade. É uma experiência diferente e as pessoas têm essa consciência e é por isso é que voltam. Temos um conjunto de gente que vem sempre porque gostam da experiência.