“Vai ser um ano de desafio”

“Vai ser um ano de desafio”

Apesar de já estar a funcionar nas novas instalações, no antigo Quartel do 11, desde março, só em setembro será “o arranque absoluto nas novas instalações” para a Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal. Mantém-se a existência de um restaurante de aplicação aberto ao público, a que se juntam vários “espaços fundamentais” de que a escola não dispunha, entre as quais um hotel de aplicação para que “possa ser simulada alguma prática real de trabalho”. A diretora da escola reconhece que o desafio não fica por aqui, pois vai ter também um “número de turmas que a escola de Setúbal nunca teve”, o que permitirá “trabalhar de uma forma diferente”. Na oferta formativa o destaque vai para a abertura do curso de Turismo de Ar Livre. Maria João Carmo, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, explica que a escola procura “responder às necessidades das empresas que estão no mercado que querem profissionais com um determinado perfil”.

“Setúbal na Rede” – Estando nas novas instalações desde março, que balanço se pode fazer da adaptação da escola?

 

Maria João Carmo – Tem sido um processo lento e ainda não estamos completamente instalados. Neste momento estamos a fazer as últimas mudanças, pois nos últimos meses realizámos aqui apenas as aulas teóricas, visto que não estavam reunidas todas as condições necessárias para trabalharmos em pleno, pelo que as aulas práticas continuaram a ser lecionadas nas instalações do Bonfim. Deste modo, nas últimas semanas fizemos apenas um “ensaio” e os alunos tiraram partido das novas condições nas áreas técnicas, mas só em setembro teremos o arranque absoluto nas novas instalações.

SR – Nas antigas instalações havia um restaurante que chegava a funcionar para o público. Aqui vai manter-se essa filosofia?

 

MJC – Sim, o modelo será idêntico, embora tenhamos agora outras valências. O restaurante de aplicação é diferente, mas igualmente apelativo, porque estamos bem situados e temos uma decoração muito atual. Nestas instalações, o público também vai ter acesso ao restaurante, até porque as configurações das escolas obrigam a que tenhamos um determinado tipo de funcionamento. No entanto, estávamos habituados a um modelo em que as pessoas tinham que fazer a passagem pelo bar e depois é que chegavam ao restaurante. Aqui é diferente, pois temos o bar pedagógico noutro edifício, pelo que não será possível ter o mesmo modelo. O bar terá apenas um fim pedagógico, ou seja, de formação, para além de dar apoio a outros serviços que possam necessitar do espaço.

 

SR – Os clientes poderão frequentar o restaurante regularmente?

MJC – Nós pretendemos ter o restaurante aberto ao público permanentemente, de segunda a sexta, e vamos continuar a fazer os serviços especiais que normalmente fazemos, como, por exemplo, os menus temáticos.

SR – De que forma pode convidar a comunidade a usufruir do restaurante?

 

MJC – Penso que vai ser um ano de desafio, porque vamos ter um número de turmas que a escola de Setúbal nunca teve, o que nos permitirá trabalhar de uma forma diferente. Deste modo, as várias turmas poderão ter projetos distintos e o próprio serviço poderá ser diferente, apesar de termos que seguir os planos curriculares dos alunos no que respeita à cozinha portuguesa e internacional. No entanto, podemos pontuar pela diferença noutros pormenores. Portanto, acho que o cliente, quando vier ao nosso restaurante, vai sentir que está numa escola de hotelaria, mas vai também sentir uma diferença e isso é muito bom, pelo que temos que aproveitar esta mudança como um marco de viragem para melhorar alguns aspetos, visto que há sempre coisas a melhorar.

SR – Apesar de se tratar de uma escola, existe uma garantia de qualidade do serviço?

 

MJC – Sim, tem que existir essa garantia, sobretudo porque estamos a falar de uma escola. Aliás, penso que as pessoas acabam por vir à Escola de Hotelaria e Turismo porque têm precisamente essa garantia de qualidade e porque sabem que praticamos valores mais baixos do que os do mercado. Ou seja, quem vem, normalmente, apercebe-se que, de facto, temos um serviço diferente, mas com qualidade.

SR – Além do restaurante de aplicação, que outras valências terá a escola para a comunidade?

 

MJC – Agora temos espaços fundamentais que antes não tínhamos, como por exemplo o auditório que está também à disposição da câmara municipal, que é nossa parceira. Temos também uma sala de enologia, ou seja, de análise sensorial, que é fundamental para os alunos de Gestão Hoteleira e de Restauração, por exemplo, e um bar pedagógico com algumas valências que não tínhamos na escola anterior.

O que pode abranger a comunidade em geral é o facto de termos incorporada na escola uma galeria que está sob a gestão da câmara municipal, na qual não teremos grande intervenção, mas de que seremos parceiros nos eventos que, eventualmente, venham a realizar-se. Por outro lado, temos um auditório de cozinha que nos dá, para além da formação, a hipótese de o chefe de cozinha fazer demonstrações aos alunos, o que faz subir a qualidade da formação de uma forma exponencial.

Teremos também um hotel de aplicação, que ainda não sabemos muito bem como vai funcionar. A ideia é que funcione um pouco como o restaurante, isto é, uma unidade hoteleira em que possa ser simulada alguma prática real de trabalho. No entanto, não sabemos se será inicialmente uma exploração do Turismo de Portugal ou se haverá um operador que ficará com o espaço. De qualquer forma, os alunos poderão sempre passar por lá e ter mais uma experiência, porque a utilização do espaço é sobretudo para eles. É claro que, com as iniciativas que a escola promove, as pessoas acabam por ter a oportunidade de conhecer o restaurante e as instalações.

SR – Já sente o impacto da mudança das instalações?

 

MJC – Sim, sentimos isso, por exemplo, nas candidaturas, pois tivemos praticamente duzentos candidatos, ou seja, um número bastante elevado. Existem também outros fatores que contribuíram para esta mudança, visto que as ofertas formativas do resto das escolas da rede escolar a que pertencemos sofreram algumas alterações, pelo que os candidatos devem ser canalizados para as instituições que têm determinado tipo de ofertas. Nós, por termos uma nova escola com maior capacidade, tivemos a possibilidade de manter algumas ofertas formativas e é normal que os candidatos venham para aqui.

SR – Em termos de oferta formativa, há alterações?

 

MJC – Sim, vamos ter algumas novidades. Nas ofertas de nível cinco, vamos ter, pela primeira vez, o ramo de Alojamento no curso de Gestão Hoteleira, pois até aqui administrávamos apenas a vertente de Restauração e Bebidas. Por outro lado, continuamos com aquilo que é tradicional e histórico para nós, isto é, vamos manter as áreas de Cozinha e de Restauração, que são ofertas de nível quatro. Em Março do próximo ano vamos reforçar o número de turmas na área de Gestão Hoteleira de Restauração e Bebidas e passaremos a ter doze turmas, o que é ótimo, pois o máximo que tivemos até agora foi de nove turmas. Ou seja, passamos de 160 para cerca de 230 alunos e, por isso, vamos ter que fazer um exercício de gestão mais apertado, pois temos que nos adaptar à situação em que vivemos no país e temos que conviver com outro tipo de restrição, mas já temos vindo a fazer isso.

SR – Perante o cenário de crise, e tendo em conta que vão ter mais alunos, estão a formar profissionais para que mercado?

 

MJC – Nós temos cursos com tipologias completamente distintas, de nível quatro e de nível cinco. Os de nível quatro destinam-se a um segmento de alunos que terminam o nono ano de escolaridade e para esses não há grande novidade, porque as escolas profissionais são vistas cada vez mais como uma boa saída profissional e acredito que já não existe o preconceito de que são uma opção para os alunos mais fracos. Aliás, atualmente, estas instituições acabam por ser a primeira escolha dos estudantes. Tendo em conta o crescimento do turismo, esta é uma área que se apresenta como um pilar para a economia e os alunos acabam por ter uma elevada taxa de ingressão no mercado de trabalho.

Por outro lado, os Cursos de Especialização Tecnológica, de nível cinco, estão cada vez mais orientados para a requalificação profissional. Grande parte dos alunos vem à procura de outro tipo de competência, pois são jovens que estão desempregados ou vêm de áreas completamente distintas, mas temos também pessoas com uma experiência de trabalho considerável que procuram a requalificação profissional, pois estão dispostas a recomeçar do zero.

SR – Há também quem já trabalhe na área e procure a escola para melhorar os conhecimentos?

 

MJC – Não temos muitos casos desses, mas alguns alunos conseguem conciliar, embora seja complicado, porque as aulas decorrem em horário diurno, pelo que nem todas as atividades são compatíveis com a frequência de um curso destes. No entanto, temos alunos que não conseguem estudar sem ter uma atividade profissional que lhes garanta algum rendimento e, nesse caso, têm o estatuto de trabalhador-estudante. Curiosamente, temos também exemplos de pessoas que se despediram apenas para vir estudar e tirar o curso.

SR – Há alunos que vêm com a ilusão de serem chefes de cozinha por causa da moda criada em volta da profissão, nomeadamente devido aos concursos de televisão?

 

MJC – Logo no processo de seleção tentamos fazer essa triagem, mas aqueles que não estão cientes daquilo que é o curso, depois da entrevista, ficam, à partida, com outro tipo de consciência. Tentamos ao máximo que os formadores passem a realidade desta área e, desta forma, se as ilusões existem, rapidamente ficam esclarecidas.

SR – Este será hoje um caminho fácil para o estrelato?

 

MJC – Não, porque não há nenhuma profissão assim, pois isso só se consegue com trabalho e esforço de cada um. No entanto, há um ponto importante em que não estamos a conseguir passar bem a mensagem. Ou seja, as pessoas ainda não perceberam que existem outras áreas, sobretudo a da restauração, que são fortíssimas e que têm o mercado de trabalho sedento de ter profissionais com estas competências. Portanto, com estes cursos, os alunos podem não garantir o estrelato, mas garantem, certamente, a empregabilidade.

 

SR – Vale a pena apostar ainda nestas áreas?

MJC – Com certeza que sim. O problema é que, às vezes, os formandos vêm com a expectativa de ganhar fama e receber imenso dinheiro e, de facto, quando terminam o curso, isso não acontece, porque são objetivos que se conquistam a longo prazo. Por outro lado, alguns alunos vêm com o intuito de terminar o curso e trabalhar fora do país, mas não acredito que todos os formados pensem em emigrar, até porque precisamos de profissionais que ajudem a área do turismo em Portugal. Na restauração, como não há qualquer expectativa, os formandos pensam que vão ser meros empregados de mesa, mas isso não é verdade, porque há sempre a possibilidade de progressão na carreira.

SR – Como é que integram a nova oferta do curso de Turismo de Ar Livre na escola?

 

MJC – Encaixamos como uma viragem neste mundo das escolas de hotelaria, porque não estamos habituados a ter este tipo de cursos de especialização tecnológica. Mas é uma área em que a formação base dessas pessoas é completamente distinta, porque vêm de diversas áreas. São pessoas ligadas ao mundo do desporto e que foram orientando e arranjando um mercado específico. Portanto, procuramos responder às necessidades das empresas que estão no mercado que querem profissionais com um determinado perfil.

SR – E que perfil é esse que este curso pretende formar?

 

MJC – O curso foi estruturado não só pelo Turismo de Portugal, mas também em parceria com a APECATE, a Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos, uma entidade que propôs o desafio de identificar um perfil de acordo com as necessidades das empresas. Portanto, no fundo, com este tipo de cursos, pretendemos formar gestores de produto, em vez de meros monitores, pois é fundamental ter alguém com uma forte componente operacional, que saiba gerir e definir um percurso e que consiga ter o processo todo encadeado, tendo em conta as preocupações logísticas.

SR – Esta região tem apetência, neste momento, para esse tipo de perfil?

MJC – Penso que sim, porque temos uma série de empresas na região com as quais, inclusivamente, já fizemos contactos e acordámos estágios, e que ficaram felizes por saber que vão ter estagiários com as competências que procuram. No entanto, vai ser um desafio para nós, porque nunca trabalhámos nesta área e não sabemos que tipo de candidatos vamos ter. O próprio processo de seleção vai ser diferente, pois vamos fazer provas físicas e só se os candidatos superarem essa fase é que passarão para as provas escritas e entrevista.