“As empresas valorizam os profissionais que formamos”

“As empresas valorizam os profissionais que formamos”

“A maior parte das empresas procura alguém que tenha conhecimentos práticos”, pelo que “o propósito essencial” do curso de Técnico de Análise Laboratorial da Escola Profissional de Setúbal “é poder dar aos alunos as ferramentas necessárias para trabalhar em laboratório”. O coordenador do curso realça que “os licenciados podem até saber desenvolver as ideias, mas, muitas vezes, não sabem colocar esses conhecimentos em prática” e falta-lhes a “destreza, a nível laboratorial de bancada, para trabalhar”, o que constitui uma “mais-valia” desta escola. Marco Ferreira, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, reconhece ainda que, “apesar das dificuldades que o país atravessa, existem organizações na região que precisam de mão-de-obra especializada”.

“Setúbal na Rede” – Quem procura o curso de Técnico de Análise Laboratorial?

Marco Ferreira – O curso é procurado, essencialmente, pelo sexo feminino. No entanto, tem havido uma evolução nesse campo, uma vez que, inicialmente, os mais interessados eram os alunos que já tinham experiência de secundário e verificavam que, no ensino regular, a área de ciências não tinha o reforço das competências a nível de trabalho laboratorial. Hoje em dia, somos procurados, cada vez mais, por alunos que se interessam pelas áreas da Matemática, Física ou Química e vêm para a escola profissional porque sabem que também têm a possibilidade de trabalhar em laboratório. No secundário, não há aulas de laboratório suficientes, pelo que essa é uma mais-valia que temos. O curso de Técnico de Análise Laboratorial, além da valência que pode ter a nível de integração pelas diversas empresas, dá aos alunos a possibilidade de progredirem em fases, seja por uma qualificação profissional de nível cinco ou pelo acesso directo ao ensino superior.

SR – Em idades tão jovens, já se sente essa apetência por uma área tão específica?

MF – Sim, claramente. Alguns alunos são motivados para a área das ciências desde muito novos e, portanto, a apetência que têm pelos sectores da saúde, biologia e química depende muito das experiências que tiveram até ao nono ano. No caso do curso de Técnico de Análise Laboratorial, a vocação acaba por estar associada à área da saúde ou a uma futura progressão para a área das análises clínicas, farmácia ou enfermagem, uma vez que lhes dá a formação necessária da química ou bioquímica, podendo os alunos prosseguir para estudos a nível do ensino superior. Ao longo dos últimos anos, temos verificado que os alunos que continuam os estudos, normalmente, seguem para as áreas da Química Aplicada, Engenharia Química ou das Ciências da Saúde.

SR – Não é a área das ciências exatas de que os alunos mais fogem mais nestas idades?

MF – É evidente que alguns jovens evitam esta área. No entanto, a nível do projecto da escola e do curso, para marcar a diferença, temos que tentar fazer com que haja sempre um reforço do acompanhamento que é dado aos alunos nas áreas mais críticas, como a Matemática e a Físico-Química. No entanto, a Físico-química é mais fácil de enquadrar, porque não é muito teórica e tem uma perspectiva prática, visto que temos a liberdade de poder fazer alterações em termos de calendarização do próprio programa para que essa disciplina seja sempre acompanhada por determinadas actividades desenvolvidas na componente técnica do curso. O propósito essencial do curso é poder dar aos alunos as ferramentas necessárias para trabalhar em laboratório.

SR – Quando saem daqui vão trabalhar para onde?

MF – Em todas as escolas, o coordenador de curso é quem faz a ponte entre o mundo empresarial e as instituições de ensino. Portanto, tem que, obrigatoriamente, conhecer o perfil das empresas e dos alunos, saber como deve integrá-los nos estágios e tentar construir o melhor modelo possível para obter resultados em termos de empregabilidade. Os contactos preferenciais que temos com determinadas entidades ou com as pessoas responsáveis pelos sectores que fazem as contratações, levam a que, muitas das vezes, entrem primeiro em contacto connosco, em vez de recorrerem a empresas de trabalho temporário ou empresas de selecção, porque conhecem o nosso trabalho e os nossos alunos.

Muitas vezes, as organizações contactam-nos para confirmar a permanência dos alunos que lá estagiaram e o que acontece com grande parte das empresas que trabalham connosco a nível de estágios é que, pela sua dimensão, muitas vezes, precisam de mais do que um aluno para estágio. A escola trabalha com empresas da região de Setúbal e com as que estão localizadas por todo o distrito, pelo que, em termos de integração dos técnicos, acaba por não ser muito difícil, desde que eles tenham uma predisposição para se deslocarem, caso seja necessário. Ou seja, os técnicos têm que estar também disponíveis para trabalhar fora da sua área de residência.

SR – Dado o cenário em que vivemos, como estão as soluções de empregabilidade deste curso?

MF – Existe uma diferença entre os locais de estágios e os futuros locais de trabalho, porque colaboramos com entidades públicas e privadas. Nos organismos públicos é, naturalmente, muito mais complicado, mas, havendo um esforço acrescido por parte dos grupos de investigação, há sempre a hipótese de os alunos conseguirem bolsas de estágio para que continuem o trabalho que estavam a desenvolver. A grande maioria vai para laboratórios certificados que trabalham para outras entidades e que fazem o controlo de qualidade ou mesmo para grandes empresas da nossa zona. Ou seja, apesar das dificuldades que o país atravessa, existem organizações na nossa região, a nível da área da química, que têm um processo de certificação de qualidade ambiental ou fabril, e que precisam de mão-de-obra especializada.

SR – A formação aqui ministrada é suficiente para as empresas ou a licenciatura também é importante?

MF – Para assumir cargos de chefia de laboratórios ou de chefia intermédia é realmente preciso um conjunto de conceitos e de habilitações, mas depois há os operadores de bancada. No entanto, há aqui um problema técnico que tem que ver com o facto de, actualmente, a grande maioria dos licenciados não ter a apetência nem a destreza, a nível laboratorial de bancada, para trabalhar, porque teve uma formação mais teórica. Se compararmos um aluno nosso de um curso de nível quatro com outro aluno de nível cinco, percebemos que têm o mesmo tipo de destreza e trabalho laboratorial a nível de bancada, embora o aluno do curso de especialização tecnológica tenha uma carga teórica acrescida. A nível superior isso não acontece, pois os alunos percebem os conceitos mas poucos têm a experiência de trabalhar com o material. Desta forma, os licenciados podem até saber desenvolver as ideias, mas, muitas vezes, não sabem colocar esses conhecimentos em prática.

SR – Mas não deixa de ser aconselhável que prossigam estudos após esta experiência?

MF – Hoje em dia, aquilo que aconselho sempre aos alunos é que, sempre que possível, prossigam os estudos. Para alguns pode ser complicado a nível dos recursos financeiros, mas o ideal é que tentem sempre, de alguma forma, investir na formação, nem que façam um Curso de Especialização Tecnológica (CET). Normalmente, com esses cursos, os alunos cobrem duas hipóteses de futuro, ou seja, têm a possibilidade de acesso ao ensino superior de forma directa, mas também podem aprofundar os conhecimentos teóricos e técnicos dos cursos profissionais.

Desta forma, com os CET, os estudantes aumentam as competências técnicas e acabam por ter mais uma experiência de estágio e, muitas vezes, têm a possibilidade de estagiar na mesma empresa onde estagiaram quando eram nossos alunos. Portanto, é uma forma de mantermos um fio condutor na própria formação dos alunos, o que é uma mais-valia para a nossa escola. Essencialmente, a maior parte das empresas procura alguém que tenha conhecimentos práticos e os nossos alunos cumprem esse requisito. Ora, um aluno que faça um ensino secundário regular não tem essas características e, portanto, só tem a opção de prosseguir os estudos.

SR – Quem quiser prosseguir estudos e tiver feito o percurso aqui está em desvantagem em relação aos alunos do ensino regular?

MF – Muito pelo contrário, porque, quando tiverem aulas práticas, alguns alunos que fizeram o ensino secundário regular não saberão fazer praticamente nada, visto que nunca tiveram experiência laboratorial, apesar de terem conhecimentos teóricos. Em tudo o que seja específico, os nossos alunos estão em clara vantagem.

SR – Mas levam um défice na componente teórica?

MF – A única diferença que temos, em relação aos programas do 12.º ano, é que, por exemplo, na disciplina de Matemática, o programa que foi construído para o ensino profissional não tem um conteúdo absolutamente teórico e tem aplicação direta para aquilo que é a realidade em termos profissionais. No entanto, isso não faz dele um programa ligeiro nem inferior, porque sofreu apenas uma pequena alteração, uma vez que tudo o resto é exatamente igual. Portanto, essa é uma falsa questão, porque os programas das disciplinas de português e inglês, por exemplo, são precisamente iguais aos do secundário regular.

SR – Não concorda então que o ensino profissional é uma forma mais fácil de concluir o 12.º ano?

MF – Dantes, alguns alunos vinham para esta escola porque tinham tido más experiências no ensino regular, mas, num período de dez anos, essa situação mudou radicalmente. Hoje em dia, temos turmas em que a grande maioria dos alunos vem directamente do nono ano e, portanto, são estudantes que têm plena consciência de que o ensino profissional tem a capacidade de lhes ensinar algo palpável. Estamos a falar, essencialmente, de uma geração táctil e informada, mas que tem algumas dificuldades nas áreas científicas e mesmo no inglês.

Eu não considero que o ensino profissional seja para “burros”, porque os nossos alunos têm o mesmo número de disciplinas e a mesma carga horária que os do secundário regular. Aqui, os jovens desenvolvem projectos ao longo do ano, fazem trabalhos e apresentam relatórios que mostram os conhecimentos que adquiriram no percurso escolar. Portanto, tudo isso serve de preparação para as apresentações orais e para quando tiverem que fazer relatórios de estágio. Temos professores que vêm do ensino superior e dizem que os nossos alunos fazem melhores apresentações do que alunos do ensino superior em fase final. Aqui, preparamos os estudantes de maneira a prosseguirem os estudos ou ingressarem para o mercado de trabalho. Deste modo, com a formação que damos, pretendemos que os nossos alunos, ao entrarem num laboratório e tiverem em mãos um protocolo, tenham a noção do que devem fazer, que saibam interpretar e expressar valores finais e que consigam trabalhar em equipa, de forma correcta e responsável.

SR – Isso é valorizado pelas empresas, independentemente do estigma que possa haver pelo facto de não se ter um curso superior?

MF – As empresas não veem esse estigma, pois valorizam os profissionais que formamos. Até 2004, as escolas tinham autonomia para gerir as matrizes curriculares que tinham sido criadas desde os anos 90. Todas as escolas profissionais que tinham determinados cursos foram convidadas a participar na reestruturação dos programas curriculares, para não haver discrepâncias entre alunos com o mesmo nível de qualificação. Desta forma, todos os jovens aprendem de acordo com o mesmo plano de ensino, o que me parece bastante correto. No entanto, não concordo com uma alteração que foi feita, pois tínhamos um conjunto de horas lectivas que foram cortadas em função da aplicação directa desses cursos para o ensino público e não tiveram em conta as mais-valias da formação.