“A escola não é um edifício, a escola é a vida”

“A escola não é um edifício, a escola é a vida”

“A vida vai orientando cada um no percurso que deve percorrer”, pelo que a sua missão “não se esgota no tempo” em que o jovem a frequenta, “mas que será uma etapa que deve prolongar-se ao longo da vida”. Por isso, o diretor pedagógico da Escola Profissional do Montijo (EPM) defende que “mais importante do que sair com todas as competências, é pensar que há sempre algo que ainda pode aprender”. Manuel Neiva, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, explica que a filosofia da escola passa pela “aposta na formação global do jovem e por estabelecer um percurso em que este cresça não apenas na parte das competências técnicas, mas também na vertente das competências humanas e de desenvolvimento pessoal”. Com tradição em cursos virados para as indústrias tradicionais, mas também com algumas ofertas nas novas indústrias, como o Turismo, a EPM apresenta como novidade para o próximo ano letivo um curso profissional na área da Música, para Instrumentista de Sopro e Percussão, em parceria com o Conservatório Regional de Artes do Montijo, “uma coisa diferente, fora da realidade do trabalho-tipo”, numa área onde “há uma procura, cada vez maior, a nível de eventos”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades se preveem para o novo ano letivo?

 

Manuel Neiva – Na perspetiva de reorganizar e projetar o ano que vem, procuramos diversificar, dentro das possibilidades que nos dão, a oferta formativa. Assim, para o ano vamos ter novos cursos mais vocacionados para a indústria, nomeadamente a Manutenção Industrial, variante de Eletromecânica, e também está aprovada uma turma de Técnico de Instalações Elétricas, ou seja, de eletricista. Para além destas duas, mais viradas para a área industrial, há outras indústrias, nomeadamente o caso do Turismo, em que tivemos uma turma que terminou no ano passado e também vamos promover este ano. Propusemos também uma outra, na sequência de um projeto que iniciámos no ano passado, na área da Restauração com a vertente de cozinha e pastelaria, e este ano temos a outra variante, de restaurante e bar. Penso que é uma oferta também útil, não apenas aqui no Montijo e Alcochete, mas em todo o distrito. Além dessa oferta de cursos “mais típicos”, e como temos o Conservatório Regional de Artes do Montijo (CRAM), temos aprovado um curso profissional na área da Música de Instrumentista de Sopro e Percussão.

SR – Ou seja, além da formação habitual do conservatório, nasce agora um curso que junta o ensino da música a uma vertente profissional?

 

MN – Trata-se da aplicação do sistema dos cursos profissionais, que não formando um técnico, forma um instrumentista, mas tem a componente da formação prática em contexto de trabalho e a formação teórica. Como temos professores-músicos de qualidade dentro do CRAM, achamos que é uma proposta útil para os jovens, não só daqui, mas para toda a região. Estamos esperançados em conseguir lançar um grupo que caminhe nessa área, que é uma novidade fora do típico daquilo que eram os cursos profissionais e é uma mais-valia também para nós, pois é uma coisa diferente e que nos pode dar outra perspetiva, fora da realidade do trabalho-tipo, e que pode ser um caminho que podemos percorrer em parceria.

SR – E que mercado de trabalho vai ser esse para o jovem instrumentista?

 

MN – Há diversas áreas onde pode desenvolver a sua atividade e, eventualmente, pode continuar estudos e frequentar um curso superior, continuando toda a formação a nível musical. Mas se tiver essa formação e tiver, de forma já enraizada, competências, mesmo que não seja numa atividade a cem por cento, ele pode projetar-se enquanto músico, porque há uma procura, cada vez maior, a nível de eventos. Nessa perspetiva, seria possivelmente um part-time, mas achamos que, num percurso profissional, com uma formação de base no secundário, terão sempre muito mais hipóteses de desenvolver a potencialidade de músico ou compositor. É claro que é uma área bastante específica e pressupõe já ter um conjunto de pré-requisitos na música e que já haja uma atividade prévia desenvolvida.

SR – Já têm uma perspetiva da expectativa que se possa criar?

 

MN – As nossas expectativas são grandes, mas a nível da recetividade ainda não temos dados que nos possam garantir que vamos conseguir. É uma situação que propusemos e que foi aprovada pelo Ministério e está pronto para arrancar, mas estamos ainda a ver se conseguimos constituir a turma. Estamos a fazer divulgação e eventualmente os jovens também ainda não conhecem.

SR – Então esta será a grande novidade, pois os cursos de Manutenção Industrial e de Instalações Elétricas já existiam?

 

MN – Esses cursos já são de tradição aqui na escola e a nível destas especialidades apenas se encontram ofertas similares na ATEC. Estes cursos, sobretudo o de Manutenção Industrial, garantem a empregabilidade dos jovens diplomados quase a cem por cento, porque é um curso intermédio que dá competências variadas e é muito transversal, capacitando um quadro médio para as empresas, pelo que são muito solicitados.

SR – E com sucesso no percurso profissional?

 

MN – Nós procuramos acompanhar os jovens não só durante o seu percurso escolar, mas durante o seu percurso posterior a nível profissional. Também depende muito das ofertas que lhes fazem da parte das empresas, mas há jovens, antigos alunos da EPM, que hoje estão como responsável pela manutenção em algumas empresas. São jovens muito solicitados para que comecem a trabalhar de imediato, mas não apenas os do curso de manutenção. Terminaram agora cinco cursos, um de Frio e Climatização, um de Animador Sociocultural, um de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos, um de Turismo e um de Serviços Jurídicos. Neste último, todas as jovens que estão a fazer estágio curricular têm propostas para ficarem a fazer estágio profissional, o que é um bom sintoma em relação ao trabalho que é desenvolvido na escola, não apenas na formação académica e profissional, mas também a nível da própria formação pessoal.

SR – De que forma é trabalhada essa área?

 

MN – A filosofia da Escola Profissional do Montijo passa muito por estabelecer um percurso em que o jovem cresça como um todo e não apenas na parte das competências técnicas, mas também na vertente das competências humanas e de desenvolvimento pessoal. É todo um trabalho continuado nessa perspetiva, de forma a atribuir responsabilidade ao jovem desde o primeiro ano, partindo até do pressuposto de não termos campainhas a assinalar as horas de entrada e de saída das aulas. Trabalhamos muito as competências pessoais até porque, como diz o diretor, as competências técnicas formam-se em seis meses, mas as humanas não. Eu acredito nos jovens e acredito que podem crescer, desde que tenham condições para isso. Se perspetivarmos o seu percurso de forma positiva e se os virmos como pessoas capazes de atingir os objetivos estabelecidos, eles também começam a acreditar neles próprios. Muitas vezes impera uma certa descrença, até porque as perspetivas de mercado são difíceis e os jovens sentem-se um bocado perdidos. Mas se trabalharmos essa consciência de que são capazes, até de acordo com o nosso lema, “aposta em ti”, podemos motivá-los a perceberem que podem ultrapassar as dificuldades. E, na verdade, eu tenho muito orgulho dos jovens que têm saído desta escola.

SR – Apesar do estigma que o ensino profissional ainda tem que considera estes alunos mais problemáticos?

 

MN – De uma forma geral, durante muito tempo o ensino profissional foi pensado em termos muito negativos, numa perspetiva de que quem não era capaz tinha de ir para esta via. O ensino profissional é extremamente exigente, pois como prepara para uma profissão, as competências técnicas têm de ser asseguradas, mas também as pessoais e humanas. Nesta perspetiva, o ensino profissional hoje é uma mais-valia para a sociedade e não pode ser pensado em termos de parente pobre. Até porque o ensino, nas suas diversas variantes, tem um papel a cumprir no sistema entre todos os parceiros ao nível do tecido empresarial.

SR – Há muitas vezes a ideia de que sendo mais prático exige que se puxe menos pela cabeça.

 

MN – As duas partes são importantes, pois a nível profissional é essencial que o jovem perceba que a parte teórica é também fundamental para desenvolver a parte prática, e uma mais-valia que advém do próprio sistema são os estágios curriculares que eles fazem nas empresas. Aí verificam que a própria formação teórica lhes dá competências que eles à partida julgam não possuir, mas quando estão na situação de resolver um problema, conseguem uma análise mais fácil do que se não tivessem esses conhecimentos. Nessa perspetiva, o estágio curricular dá-lhes sentido profissional. Uma das coisas em que gostamos de insistir é que sendo uma escola profissional, é um local de trabalho. A mesa que está na sala de aula é a mesa de trabalho e o percurso é feito nesse sentido.

SR – Este tipo de cursos também implica que a escola tenha oficinas apetrechadas para o efeito?

 

MN – Nós temos uma oficina onde eles trabalham desde a serralharia até à soldadura, nomeadamente com uma oficina de manutenção, uma oficina de mecânica, uma de eletricidade e uma de frio. Quando nos envolvemos na área de construção civil, tínhamos também uma carpintaria. Procuramos criar condições para, a nível da prática simulada, os jovens desenvolverem essas atividades que, eventualmente, irão encontrar quando estiverem inseridos no mercado de trabalho. E, portanto, a oficina é uma parte extremamente importante para eles, sem dúvida nenhuma.

SR – O que implica custos superiores em relação a outros cursos.

 

MN – É mais fácil fazer com baixos custos um curso na área das línguas, por exemplo, do que na área mais industrial, mas tem que se investir e acho que conseguimos ter umas oficinas em condições. Os custos são grandes, mas os formandos também têm que sentir que existem condições para desenvolverem essa formação.

SR – A aposta nas áreas industriais são para se manter, apesar da crise económica do país e de alguma desindustrialização do país?

 

MN – A nível da política e da filosofia da escola, é para manter, pois não formamos para o desemprego e é extremamente importante apostar naquelas áreas que o mercado de trabalho exige. A nível, por exemplo, das instalações elétricas, há uma certa recessão derivada da quebra da construção civil, em que houve uma quebra muito grande. Mas de uma forma geral é para apostar, porque são áreas em que precisamos de quadros intermédios. Além disso, é fundamental um equilíbrio na absorção dos jovens no mercado de trabalho, que podem ser complementados por aqueles que são mais velhos, para que os jovens comecem a absorver toda essa filosofia. O ministério da Educação também define áreas prioritárias e a oscilação que vai fazendo vai-nos orientando também ao nível das escolhas e temos também a tradição de conversar com as escolas secundárias ao nível da rede escolar do concelho e escutar os parceiros ao nível da associação. Temos trabalhado também em parceria com os centros de emprego e procuramos ver aquilo que o mercado hoje procura. Gostaríamos que no final todos os jovens tivessem hipótese de emprego, mas sei que é uma utopia neste momento.

SR – A procura dos candidatos corresponde a essas prioridades?

 

MN – De uma forma geral, noventa por cento dos jovens procura o curso porque gosta e já está informado. Na fase em que estão, que é de procurar e encontrar soluções, às vezes pode acontecer situações em que eles cheguem à conclusão que afinal não é bem isso que querem, mas de uma forma geral os jovens já têm uma ideia dos cursos. Hoje a informação também está muito disseminada, não está nada escondido, e o jovem pesquisa e vê o perfil de saída de qualquer um dos cursos. Nós procuramos também conhecer um pouco o jovem através de uma entrevista individual que é feita no processo para iniciar o ano letivo, o que possibilita conhecê-los um bocadinho e, eventualmente, quando temos turmas que ultrapassam as vagas que temos, fazer a seriação dos jovens através dessa entrevista.

SR – Que argumentos tem esta escola para cativar alunos?

 

MN – Acho que os argumentos passam fundamentalmente por dois aspetos. O primeiro, pela própria filosofia da escola, que aposta na formação global do jovem. Mais importante até do que ele ter todas as competências técnicas, é chegar ao final do curso e ter crescido como jovem, que desabrochou e começa a pensar com autonomia. Um outro aspeto importante é todo o corpo docente que temos e a oferta que é dada a nível das escolhas que existem. Gostaríamos também de pensar que a escola não se esgota no tempo em que o jovem passa cá, mas que será uma etapa que deve prolongar-se ao longo da vida. E mais importante do que sair daqui com todas as competências, é pensar que há sempre algo que ainda pode aprender.

SR – Daí esta escola ter um conjunto de outras ofertas formativas?

 

MN – A chamada formação ao longo da vida, uma formação contínua, dependente também da expectativa que cada um tem e das necessidades que sente. Digamos que o crescimento vai ser feito, já não tanto por um percurso que lhe é determinado, mas por aquilo que ele acha que é para si a necessidade para se sentir realizado. Essa formação ao longo da vida é fundamental ao nível da realização pessoal e o facto de saber que se desenvolveu e chegou a determinado nível de competências humanas, pessoais, técnicas, profissionais, podem dar-lhe também essa apetência para continuar a progredir e isso é fundamental. A escola não é um edifício, a escola é a vida e a vida vai-nos orientando no percurso que devemos percorrer.