“Educar é sempre um ato político”

“Educar é sempre um ato político”

“Ser professor ou educador é, sobretudo, uma vocação”, pois as profissões nesta área “têm um elevado envolvimento emocional e relacional”. Além disso, na Escola Superior de Educação Jean Piaget de Almada, procura-se que os educadores e professores ali formados preparem “os seus estudantes para que sejam cidadãos ativos e participativos”. João Couvaneiro, diretor da escola, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, realça a “relação muito próxima entre docentes e estudantes” na instituição e critica as “más opções políticas na condução do país” como a decisão de “colocar 32 alunos por turma ou sobrecarregar os docentes com um trabalho que não é pedagógico nem científico, mas administrativo”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades terá a escola para apresentar no próximo ano lectivo?

João Couvaneiro – Para o próximo ano letivo apresentámos a proposta de um curso que já tivemos, o de Animação Sociocultural. Fizemos também uma revisão curricular do curso de Educação Básica e penso que há uma melhoria na sua estrutura. Por outro lado, vamos apostar na promoção de dois mestrados que foram aprovados no ano passado, o de Educação pela Arte e o de Supervisão e Avaliação Pedagógica. Para além disso, a escola continua com dois mestrados muito bons, em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1º Ciclo do Ensino Básico e em Educação Especial, que talvez seja, sem falsas modéstias, o melhor mestrado do país nessa área.

SR – A proposta deste novo curso de Animação Sociocultural surgiu por que razão?

JC – Em Portugal, o curso de Animação Sociocultural surgiu, pela primeira vez, no Instituto Piaget e, durante muito tempo, formámos muitos profissionais. No entanto, a estrutura curricular do curso precisava de ser ajustada e, portanto, achámos melhor interrompê-lo para fazer uma reflexão e reiniciá-lo com um novo plano de estudos. Neste momento, avolumam-se as dificuldades sociais e este é um curso que procura dar resposta a muitas das questões que surgem em função da crise, do desemprego e das diversas necessidades de inclusão.

SR – Como é que têm a percepção das necessidades nessa área?

JC – Quando um curso é proposto é exigido que se estabeleçam contactos com parceiros, pois temos que analisar, junto do mercado, se há, por exemplo, capacidade para absorver estagiários. O contacto que tivemos com autarquias, empresas e associações permitiu-nos concluir que há muita carência no mercado deste tipo de profissionais.

Desta forma, em 2012, organizámos uma mesa-redonda para traçar o perfil exigido aos novos animadores e, nesse contexto, tivemos cá um produtor musical, um vereador da Câmara Municipal de Alcochete das áreas sociais, o responsável pelo pelouro da animação sociocultural em Almada e um administrador da Gebalis, que é a empresa municipal que gere os espaços culturais em Lisboa. Nessa reunião, concluímos que há muito espaço para profissionais desta área, desde que haja condições para os recrutar.

Trata-se de um perfil profissional polivalente, pois dá resposta a questões de âmbito cultural, social e educacional, sendo, por isso, uma formação de largo espectro e acredito que tenha uma grande empregabilidade.

SR – Está confiante de que este curso vai ter procura?

JC – Penso que sim. Atualmente, vivemos tempos muito difíceis em Portugal e todas as instituições de ensino superior têm muita dificuldade em afirmar-se no mercado, porque há muita concorrência. No entanto, creio que temos que comunicar bem tudo aquilo que fazemos, pelo que estamos a fazer um esforço nessa área. Para alcançarmos o sucesso, temos apostado na fidelização dos nossos estudantes, pois são o nosso melhor cartão-de-visita, isto é, são os nossos melhores embaixadores no exterior. Temos também procurado desenvolver ações que demonstrem aos potenciais interessados que estamos num espaço que procura encontrar respostas para os problemas da atualidade.

SR – Com a crise, a área do ensino é uma das mais fustigadas. Como lida com isso uma escola que assenta a sua oferta sobretudo na formação de professores?

JC – Na formação de professores e de profissionais de educação. Estamos a tentar mostrar que fazemos um trabalho de qualidade para captar níveis de alunos que, há três ou quatro anos, captávamos com um menor esforço promocional.

Não obstante, creio que muitos dos próprios problemas que surgem no mercado de trabalho resultam de más opções políticas na condução do país. Não creio que seja um avanço civilizacional colocar 32 alunos por turma ou sobrecarregar os docentes com um trabalho que não é pedagógico nem científico, mas sim administrativo. No entanto, penso que haverá uma clarividência por parte dos decisores para inverter algumas das opções que têm constrangido o sistema de ensino.

SR – Com as opções políticas que têm sido tomadas, ainda se justifica escolher a profissão de professor?

JC – Eu creio que sim. Ser professor ou educador é, sobretudo, uma vocação, não tanto um emprego. As profissões na área da educação e do ensino têm um elevado envolvimento emocional e relacional e, portanto, é preciso sentir um apelo vocacional. Ou seja, para ensinar, é preciso ter uma grande motivação, mas acredito que há muitos jovens que têm paixão por estas áreas.

Para além disso, não sei quais são os cursos com maior empregabilidade, porque, mesmo aquelas que eram as áreas emergentes, como, por exemplo, as Tecnologias de Informação e Comunicação, neste momento, estão com uma enorme dificuldade e os estatutos remuneratórios dessas profissões estão muito degradados. Os obstáculos são transversais às mais diversas áreas e, portanto, as opções têm que estar relacionadas com a motivação e paixão.

SR – E encontra essa vocação no perfil de entrada dos alunos?

JC – Sim, creio que vêm com essa vocação e paixão. O curso de Educação Básica, com o processo de Bolonha, veio substituir os cursos de educadores ou de professores do primeiro e segundo ciclos. Portanto, é um curso de formação geral que permite aceder à educação formal e não formal. Desta forma, muitos dos estudantes que ingressam vêm com a ideia de ser educador ou professor, mas há também aqueles que querem seguir profissões na área da educação não formal.

Quando finalizam o curso de Educação Básica, os alunos têm que optar por um dos mestrados profissionalizantes, porque não é possível ingressar no mercado de trabalho sem essa profissionalização. Percebe-se que eles têm já definido o caminho que querem seguir e acredito que os profissionais de educação que saem daqui vão muito bem preparados do ponto de vista teórico e científico, mas vão também imbuídos desse desejo de contribuir para o desenvolvimento das crianças e dos jovens.

SR – À chegada ao mercado de trabalho, os alunos são vistos de igual forma em relação aos que saem de outras instituições?

JC – O Instituto Piaget surgiu em Almada em 1988, sobretudo para dar resposta a alguma carência de formação por profissionais que já estavam no ativo, ou seja, muitos dos nossos alunos eram trabalhadores estudantes. Portanto, a nossa formação centrava-se nas aulas em regime pós-laboral e isso era mal visto por outras instituições. No entanto, nunca tivemos cargas letivas mais ligeiras do que os outros estabelecimentos de ensino superior. Por isso, não sinto esse estigma na Península de Setúbal e posso dizer que as escolas e colégios nesta área têm um elevado número de profissionais formados por nós.

SR – Uma das apostas nos mestrados é a Educação pela Arte. Não é a arte e a cultura uma área também com grandes dificuldades neste país?

JC – Atualmente existem excelentes projetos e trabalhos de artistas portugueses e o público está atento. Portanto, acho que a cultura merece uma atenção particular e acredito que a produção artística é um recurso educativo de grande eficácia. Há até modelos pedagógicos que defendem que toda a educação deve ser feita através da formação artística. Este curso é procurado por profissionais de educação, mas também por arquitetos, artistas ou por pessoas que procuram uma formação vocacionada para as suas sensibilidades.

SR – As opções na oferta formativa da ESE não têm apenas em vista uma estratégia comercial mas também uma componente de aposta ideológica?

JC – Do ponto de vista da ideologia partidária, não. No entanto, acreditamos que educar é sempre um ato político, no sentido mais nobre da palavra, que tem que ver com a polis, isto é, com a cidade. Portanto, queremos que os nossos educadores e professores formem os seus estudantes para que intervenham na polis, para que sejam cidadãos ativos e participativos. Daí o grande destaque que damos à formação para a cidadania.

SR – O que escolheria como imagem de marca desta escola?

JC – A principal qualidade da nossa escola tem que ver com a maneira de estar com as pessoas, ou seja, cada aluno deste estabelecimento não é um número, é uma pessoa, um cidadão que conta sempre com a instituição para o ajudar a resolver os seus problemas. Para além disso, temos uma relação muito próxima entre docentes e estudantes.

Ou seja, os professores são, sobretudo, parceiros nos processos de aprendizagem e estão, permanentemente, disponíveis para ajudar os alunos a vencer todos os problemas que possam existir. Por exemplo, depois de termos detetado que havia dificuldades por parte de alguns estudantes, criámos oficinas de Matemática e de Português. Não baixamos os nossos critérios de exigência nem o rigor nos processos de formação e avaliação, arranjámos antes alternativas que ajudam a eliminar as lacunas que alguns trazem de trás.