“As pessoas estão cansadas e fartas de notícias negativas”

“As pessoas estão cansadas e fartas de notícias negativas”

O país está “a viver momentos muito complicados que levam a um desânimo global” mas “as pessoas já perceberam que, se continuarem desmotivadas, será mais difícil contornar toda esta situação”. A diretora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal lembra que “o financiamento na educação é cada vez mais reduzido” e “há um decréscimo orçamental muito grande que penaliza, em particular, os politécnicos”. Além disso, em Portugal, neste momento, a profissão de professor “é completamente desvalorizada”. Contudo, Joana Brocardo, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, considera que “tirar o curso na ESE é uma referência de qualidade” e destaca ainda o facto de ser “uma escola sólida, muito familiar”, em que “a união e a proximidade são algumas das principais características”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades podemos esperar nesta escola para o próximo ano lectivo?

Joana Brocardo – Em termos de oferta de ensino superior, a nível global, não há expansão. Aliás, na área da Educação, foi implementada uma medida governamental a nível nacional que obriga todos os estabelecimentos de ensino a diminuir vinte por cento das vagas. Portanto, a perspetiva da escola é manter os cursos que já tem e ir fazendo apostas em algumas formações pós-graduadas em colaboração com outras instituições.

SR – Essas ofertas de pós-graduações são uma forma de compensar a redução do número de vagas nas licenciaturas?

JB – Ao longo da evolução da escola, criámos sempre as ofertas formativas perspectivando aquilo que é possível e que conseguimos fazer bem. Percebemos que, a nível nacional, a aposta na educação está a ficar reduzida e, portanto, temos que ter, paralelamente, outras ofertas a nível educativo.

SR – Que tipo de público esperam conquistar com essas pós-graduações?

JB – Depende das pós-graduações, mas é um público diverso, que está ligado às questões educativas em vários contextos. Há uma aposta do actual ministro relacionada com os Cursos de Especialização Tecnológica (CET), com duração de dois anos, e o politécnico está a equacionar a sua possibilidade de realização. Vamos analisar essa proposta, porque estamos abertos para perceber aquilo que é possível fazer a nível da educação.

SR – Perante o atual cenário, há ainda candidatos aos cursos de educação?

JB – Perante este cenário, a nível de empregabilidade, a área da Educação não está pior do que, por exemplo, a do Jornalismo, Direito, Economia ou Enfermagem. Portanto, a ideia que se criou de que os professores não têm emprego está associada ao facto de o Estado ser o grande empregador desses profissionais. No entanto, neste país, os professores têm tanto emprego como muitos profissionais de outras áreas, porque, infelizmente, as dificuldades são transversais aos diversos sectores.

SR – Quais têm sido as saídas profissionais dos diplomados nestas áreas?

JB – Neste momento, os recém-licenciados não conseguem entrar no ensino público porque não há vagas, tendo em conta um conjunto de políticas que fizeram com que isso acontecesse. Ou seja, todas as questões que possibilitavam a entrada no sistema, mesmo às pessoas recém-licenciadas, como o número de alunos por turma, as organizações a nível de apoios e as apostas nas áreas de ponta, neste momento, sofreram grandes alterações.

Desta forma, a maior parte das pessoas recém-licenciadas na área da educação está a trabalhar em colégios, em empresas privadas, nas atividades de enriquecimento curricular, ou mesmo nos centros de explicações. Portanto, durante algum tempo, fazem esse tipo de trabalho. Não sabemos quando é que isso vai mudar, mas, pessoalmente, estou convencida de que vamos ter algumas alterações positivas. Por exemplo, durante anos, em qualquer estudo comparativo internacional, nós ficávamos muito mal colocados, o que era uma vergonha. Contudo, recentemente, na sequência de apostas diferentes, houve um grande apoio a nível de uma iniciativa que ficou conhecida como o Plano da Matemática e o desempenho dos nossos estudantes melhorou substancialmente.

Numa classificação que foi divulgada este ano, Portugal ficou à frente de países como a Alemanha, a Irlanda, a Sérvia, a Austrália e muitos outros, o que foi a melhor colocação que conseguimos até hoje. No entanto, o Ministério da Educação divulgou estes resultados dizendo que os alunos portugueses ainda têm muitas dificuldades, o que mostra que este Governo não quer continuar com o investimento que justificou aquele resultado, uma vez que quer fundamentar intervenções dentro de outra linha, mais elitista e tradicional.

SR – Olham para o copo meio vazio para justificar uma inversão de estratégia?

JB – Sim. Com o propósito de justificar a implementação de novas políticas, querem, sobretudo, dar a entender que aquilo que foi feito até agora não está bem e, nesse sentido, foi agora publicado um novo programa de Matemática. Ora, se estamos com melhores resultados nessa área, como é que podem fundamentar a necessidade de implementar um novo programa? O mais curioso é que estamos muito pior no desenvolvimento de competências de nível superior, isto é, temos um grupo grande de alunos médios e bons, mas falta-nos formar um grupo de alunos muito bons, o que levanta muitos problemas no país.

Aqueles países que ocupam as primeiras posições na classificação têm estruturas que dão valor à cultura e apostam no prestígio dos professores. Por exemplo, na Finlândia, candidatam-se mais pessoas ao curso de professor do primeiro ciclo do que ao de medicina. Em Portugal, neste momento, essa profissão é completamente desvalorizada.

SR – Isso não tem que ver, de alguma forma, com a diminuição do grau de exigência da sociedade?

JB – Não, porque o grau de exigência não é uma coisa absoluta, mas sim relativa. Eu penso que, hoje em dia, os alunos têm outros conhecimentos, diferentes daqueles que tinham há uns tempos. A nossa escola tem uma tradição significativa de qualidade e os alunos que cá estudaram reconhecem essa realidade e isso faz com que sejamos também reconhecidos socialmente. Portanto, a nível distrital, tirar o curso na Escola Superior de Educação é uma referência de qualidade.

SR – A escola está bem integrada na região?

JB – A nível da relação que a ESE tem com os alunos que forma, sim. Por outro lado, evidenciando as outras áreas, todas as indicações que temos, por exemplo, a nível da animação, remetem para uma clara ligação com as autarquias. A nível do desporto, os nossos alunos têm feito vários trabalhos na região. Na área da comunicação, temos também antigos alunos que, dentro da profissão, têm desenvolvido, em algumas zonas, trabalhos com reconhecida qualidade. Normalmente, os estudantes recebem das empresas onde fazem o estágio um feedback bastante positivo.

SR – Visto que tem havido uma diversificação da oferta formativa, a escola não corre o risco de deixar de ser uma Escola de Educação?

JB – É um risco que se corre a nível nacional, pois não há nenhuma escola que seja só de educação, excepto, eventualmente, a de Lisboa. Portanto, todas as outras foram diversificando a sua oferta com outras formações que tiveram origem na educação. No entanto, até agora, temos lidado bem com essa situação, até porque, em muitos casos, algumas coisas ancoram nas outras de forma natural. Por exemplo, o curso de Desporto ancorou naquilo que fizemos anteriormente, isto é, na formação de professores na área da Educação Física. Portanto, há aqui evoluções mais ou menos naturais.

SR – Qual é o perfil de quem procura esta escola?

JB – Em relação às escolhas, a nível do distrito, somos a primeira opção dos estudantes em várias licenciaturas. Muitos alunos, antes de tomar essa decisão, ponderam, de certeza absoluta, a questão regional. Trata-se, habitualmente, de pessoas que não podem equacionar estudar em Lisboa e, portanto, o fator geográfico é preponderante nas suas escolhas. Contudo, muitos reconhecem também a qualidade do nosso ensino, porque temos estudantes que vêm de fora.

SR  – A crise que vivemos reflecte-se na realidade interna da escola?

JB – Reflete-se, naturalmente. O distrito de Setúbal tem problemas particulares e graves, mas a nível de ensino superior, no politécnico, temos as mesmas crises que as outras instituições têm. Estamos com problemas, evidentemente, mas alguns estão piores do que nós, porque, no geral, o ensino superior em Portugal está em crise.

SR – A procura dos alunos continua a ser igual?

JB – Os dados do ano passado não sofreram quaisquer alterações, pois preenchemos todas as vagas que abrimos. No entanto, penso que é importante referir que o financiamento na educação é cada vez mais reduzido, há um decréscimo orçamental muito grande que penaliza, em particular, os politécnicos. Por exemplo, uma universidade tem quase sempre mais um terço de financiamento do que um politécnico, ainda que as duas instituições tenham o mesmo número de alunos. Portanto, isso cria imediatamente situações díspares.

Desta forma, para contrabalançar essa questão, tentamos criar projetos próprios, de modo a conseguirmos algum financiamento. Contudo, temos que reduzir tudo ao mínimo, porque até os financiamentos dos projetos europeus e dos projetos de investigação estão a ser reduzidos, pelo que é preciso cortar em algumas despesas.

SR – Como é que se consegue manter a motivação dos docentes neste cenário?

JB – Neste cenário, não se consegue garantir essa motivação, assim como não se consegue manter o ânimo do país. Por outro lado, apesar de tudo, acho que esta escola tem características que a tornam um pouco diferente em termos de relações interpessoais, mas é evidente que as pessoas estão cansadas e fartas de notícias negativas e desta falta de perspetiva a nível nacional.

SR – A crise nota-se também nos alunos que frequentam a escola?

JB – Temos, naturalmente, alguns casos de abandono escolar, porque, com as dificuldades económicas, alguns alunos não conseguem continuar a pagar os estudos. No entanto, para contrariar essa situação, foi criado um programa, de iniciativa da presidência, para auxiliar os estudantes que não têm possibilidades de pagar as propinas. Ou seja, os alunos fazem algumas horas de trabalho em alguns departamentos da escola e, em contrapartida, essas horas de apoio são contabilizadas e descontadas nas suas propinas.

SR  – Qual é o estado de espírito que impera na escola, negativo ou esperançoso?

JB – Nem negativo nem esperançoso. Estamos a viver momentos muito complicados que levam a um desânimo global e, portanto, é preciso trabalhar e apostar naquilo que for possível para alterar este quadro de grandes incertezas. Mas penso que as pessoas já perceberam que, se continuarem desmotivadas, será mais difícil contornar toda esta situação.

SR – Paira alguma nuvem negra que levante a possibilidade do fim desta escola?

JB – Neste momento, não. Vamos continuar a funcionar com alguma normalidade, porque temos estudantes e docentes e sabemos que temos que nos ir adaptando ao que vai acontecendo. Portanto, essa possibilidade não está em causa agora nem nos tempos mais próximos.

SR – Como têm decorrido os processos de avaliação dos cursos?

JB – Depende dos cursos. Em algumas áreas temos mais aspectos a melhorar do que noutras e, portanto, este processo também tem servido para mostrar onde devemos apostar futuramente. Poderemos, eventualmente, ter que substituir algumas das nossas apostas por outras, mas, neste momento, estamos ainda numa fase de avaliação de todas as possibilidades.

SR  – Que argumentos utilizaria para chamar alunos a esta escola?

JB – Teria que falar da organização, do prestígio e de alguns licenciados que também atestam da qualidade da formação que fizeram. Somos uma escola sólida, muito familiar, pelo que a união e a proximidade são algumas das principais características.