“O educador tem que abrir horizontes”

“O educador tem que abrir horizontes”

“A sociedade continua a precisar de educadores e cada vez mais precisa de educadores com conhecimentos e com reflexão acerca da educação”, mas “o educador não tem de ser aquele que vai para a sala de aula ensinar conteúdos”. Porque ser educador é muito mais do que ser professor, a coordenadora da licenciatura em ensino básico da Escola Superior de Educação Jean Piaget de Almada manifesta-se contra “a pressão social muito forte para que as pessoas não apostem na educação”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Helena Ribeiro de Castro defende que “um educador é aquele que proporciona às crianças ou aos jovens a possibilidade de aprender autonomamente”, que “tem de abrir horizontes” e ajudar a “desenvolver capacidades e competências” para poderem “atuar numa sociedade que se quer diferente”. Apesar de parecer utópico, a docente, que coordena também o mestrado em educação pré-escolar e ensino do primeiro ciclo do ensino básico, considera que “sem utopia não se vai a lado nenhum”.

“Setúbal na Rede” – Na perspetiva de um jovem, justifica-se hoje tirar um curso na área da Educação?

Helena Ribeiro de Castro – Justifica-se, sem dúvida nenhuma, para já porque a sociedade continua a precisar de educadores e cada vez mais precisa de educadores com conhecimentos e com reflexão acerca da educação. De facto, há uma pressão social muito forte para que as pessoas não apostem na educação porque dizem que o mercado está saturado de professores e de educadores, e isso é uma enorme barreira ao nosso trabalho, mas parte do pressuposto de que os educadores e os professores só podem trabalhar dentro de uma sala de aula, o que não corresponde de todo à verdade. Cada vez mais o ambiente social está a precisar de educadores noutras áreas, como por exemplo as câmaras municipais, serviços educativos, bibliotecas, museus ou os próprios centros comunitários. O educador não tem de ser aquele que está dentro da sala de aula e que prepara as atividades para as crianças, nem tem que ser aquele professor que vai para a sala de aula ensinar conteúdos. Para já, é preciso desmistificar que o professor não é só aquele que ensina, pois o professor é um educador.

 

SR – Então o que é um educador?

HRC – Um educador é aquele que proporciona às crianças ou aos jovens a possibilidade de aprender autonomamente, porque aquilo que queremos é promover seres autónomos, cidadãos, pessoas capazes de participar na cidade e que o faz tendo consciência de si próprio, das suas capacidades e da maneira como se relaciona com os outros, aprendendo a conhecer os outros e juntos fazendo alguma coisa por este mundo. O educador tem que abrir horizontes, tem que ser mais do que aquilo a que estamos habituados a pensar quando pensamos no educador.

 

SR – Com que ferramentas se deve munir esses educadores?

 

HRC – Há uma ferramenta que nunca podemos esquecer, que é a memória. Se não temos um conjunto de conhecimentos que possamos mobilizar nas situações em que estamos a trabalhar, nas situações do dia-a-dia, não vamos muito longe. Por isso, é determinante a forma como utilizamos a Internet, o livro, seja sob que forma for, ou a informação que nos vem da tradição de uma instituição, que muitas vezes não está escrita mas está nas pessoas. É importante desenvolver a memória para a tal mobilização de conhecimentos e para a capacidade de pensar sobre as coisas.

Quando encontramos crianças e jovens e temos esta função de educador, não podemos fazer nada de jeito sem considerar quem é aquela pessoa, qual é o ambiente em que ela vive e quais são as suas raízes. E as suas raízes são as tradições, o que implica toda a cultura em que foi educada ou o ambiente comunitário em que vive.

SR – Estamos hoje a perder o sentido crítico?

 

HRC – Esse é um dos problemas que temos que considerar enquanto formadores de educadores. Temos que pensar como ajudamos os nossos alunos a usar a ferramenta da internet de forma crítica, por exemplo. Um caso muito simples é quando se tem que apresentar um trabalho académico em que, embora possa ter como fundamento também a internet, é preciso saber quem são as pessoas que citamos, se têm credibilidade, não apenas por terem nome feito mas no rigor que utilizam e nas fontes que mobilizam.

SR – Mas sentem de igual forma que outras instituições o problema do copy/paste da internet nos trabalhos dos alunos?

 

HRC – Esse também é um problema e há uma ferramenta simples, que se chama Google, para o detetar, pois para qualquer frase que nos crie dúvidas, basta colocá-la no motor de busca e consegue-se encontrar em dois tempos qual é a origem. Mas o que fazemos antes desta etapa é fornecer formação específica no que diz respeito à utilização de fontes e eles sabem que plágio é um crime público. Já tivemos casos, infelizmente, que foram participados ao Ministério Público e com processo em tribunal com alunos que tinham cometido plágio.

Portanto, temos que pensar no que podemos fazer para evitar esta situação e dizer aos alunos que isto é uma questão de valores, de respeito pela propriedade intelectual e de honestidade científica, que têm que ser entendidas naquilo que é o trabalho científico. Numa segunda fase têm que perceber que têm que citar fontes e aprendem como isso se faz, assim como a utilização de normas, e são treinados para isso. A terceira etapa é quando entregam um trabalho em que preenchem uma declaração de honestidade e, se por acaso prevaricarem, têm um processo disciplinar, porque não admitimos que haja plágios. O que nos interessa é criar educadores que têm que ser permanentemente investigadores e têm que conhecer as regras do jogo.

SR – A questão dos valores e dos princípios não se torna secundária quando o objetivo é obter uma boa performance económica na instituição para a qual se trabalha?

 

HRC – É um trabalho acrescido que assumimos como missão porque continuamos a acreditar que só podemos ser diferentes se lutarmos pelos nossos valores e, para nós, não é a questão económica que está em primeiro lugar, mas as pessoas. E as pessoas têm que ser íntegras, partindo daquilo que são as suas capacidades e as suas competências e as competências desenvolvem-se. As pessoas têm que estar à altura de desenvolver as capacidades e as competências profissionais e de poder atuar numa sociedade que queremos diferente, mas é verdade que lutamos muito contra aquilo que é a pressão social.

 

SR – Mas estamos a falar de uma instituição privada onde a questão económica não pode ser descurada? 

 

HRC – As questões são conciliáveis, embora não seja fácil. Somos uma instituição privada e dependemos absolutamente das prestações dos nossos alunos, como é evidente, mas tudo isso tem que ser visto em função daquilo que é a nossa ambição. O lucro não pode estar na base de tudo, pois precisamos de saber que temos que formar pessoas capazes para uma sociedade que queremos diferente.

SR – E os alunos vêm com a noção de que essa é a matriz do Piaget?

 

HRC – Umas sim e outras não, como é evidente. E temos alguns problemas, pois ainda há muitos alunos que consideram que, porque pagam, têm direito a tudo. E temos que lutar muito recorrentemente contra isso, lembrando aos alunos que estão a pagar para ter formação e não para ter um diploma.

SR – Mas é uma imagem que está colada ao ensino privado?

 

HRC – É um problema e aqui há uns anos punha-se muito a questão da razão porque se vinha para o ensino privado, geralmente por não se ter entrado no público. Nós lutámos muito contra isso, tentando passar a mensagem de que fazia sentido ir para o ensino privado quando o aluno se revia nessa matriz. Era sobretudo complicado quando uma família tinha que pagar um extra, mas isso foi um pouco mais diluído quando os alunos também pagam mesmo na escola pública. Uma família que faça contas e que pense no passe que tem que pagar, na alimentação e até no alojamento, acaba muitas vezes por verificar que paga menos se pagar uma determinada mensalidade, ficando perto de casa. Mas continuamos a ter pessoas que, de vez em quando, vêm exigir direitos porque pagam, mas pagam para ter formação e esta tem associada a si a exigência, porque não garantimos entra mas temos que garantir a forma como saem e isso é uma coisa que nos preocupa sempre.

SR – Esta é uma instituição de proximidade?

 

HRC – Eu penso que sim, pois a maior parte dos nossos alunos vêm desta zona da margem sul, até Setúbal, e do norte do rio, desde Lisboa, Amadora ou Loures. Temos vantagem neste momento por ter comboio à porta, pelo que já não estamos tão restritos a uma área metropolitana. Se estivéssemos noutra região, o modelo poderia eventualmente ser o mesmo, mas os conteúdos e a forma como se trabalham seriam diferentes, não tenho dúvida nenhuma. Até porque temos uma inserção muito grande na própria comunidade. Os nossos professores, de uma maneira geral, participam em associações diversas e isso dá-nos um conhecimento da zona e a possibilidade de ter instituições que nos possibilitam os estágios aos nossos alunos. Por outro lado, permitimos que estas associações e instituições beneficiem dos alunos que aqui temos e que até dispõem de algum tempo para realizar outro tipo de tarefas voluntariamente.

 

SR – Não sendo o principal objetivo a formação de professores, qual a razão da existência do mestrado de educação pré-escolar e ensino básico?

 

HRC – Antes de mais, a legislação diz muito claramente que este curso tem que acontecer antes da profissionalização como educadores e professores. Podemos dizer que, com base na lei, esta licenciatura em educação básica forma técnicos, que não são educadores nem professores, para depois seguirem para o segundo ciclo, como se fosse um mestrado integrado. Só que não é um mestrado integrado, pois ao fim da licenciatura de três anos são técnicos de educação e se não quiserem ser professores ou educadores podem ir para o mercado de trabalho.

Se, como acontece na maior parte dos casos, quiserem ficar profissionalizados, entram no mestrado em pré-escolar ou no de primeiro ciclo. De acordo com a lei, quando terminam o segundo ciclo, correspondente ao mestrado, são educadores de infância e professores do primeiro ciclo ou educadores de infância. Mesmo assim, aqueles que acabam o mestrado podem não vir a ser educadores dentro de uma sala de aula, porque mesmo sendo formalmente profissionalizados como educadores ou professores, há outras atividades onde vão aplicar os conhecimentos e as competências que decorrem deste mestrado.

 

SR – O facto de este mestrado integrar as duas componentes, do pré-escolar e do primeiro ciclo, significa que têm assim tanta coisa em comum?

 

HRC – Hoje estou mais do que convencida de que este mestrado duplo é extremamente interessante e pertinente porque temos tido na constituição do nosso sistema educativo uma quebra entre a educação pré-escolar e o primeiro ciclo. Em termos pedagógicos isto representa um absurdo, porque não temos uma criança com seis anos em julho e uma criança diferente em setembro, quando entra na escola. É a mesma criança que brinca em julho, mas em setembro queremos pô-la sentada numa secretária porque tem que aprender. Queremos que ela vá evoluindo e que vá aprendendo outras coisas, mas temos que pensar nessa transição, pois há qualquer coisa aqui que não funciona.

Os nossos alunos fazem uma formação que lhes permite tratar da educação de crianças desde os três aos dez anos, têm uma visão alargada da educação e podem verificar que uma criança, apesar da idade, pode ainda não ter capacidade para fazer determinadas coisas. E estão preparados para conseguir dar a volta e tratar aquela criança para que consiga lentamente adquirir outras capacidades e desenvolver outras competências, pois não vale a pena escolarizar antes de tempo.

SR – Mas isso também implica ter que lutar contra a pressão social?

 

HRC – A pressão social vem muito das famílias e só se consegue ultrapassar pedindo quase o benefício da dúvida, para que se possa experimentar e ver se isso resulta ou não. A experiência que temos é que uma pessoa com esta dupla formação está preparada para gerir esta situação e ir ajudando os alunos. Por exemplo, aquilo que se consegue que a criança aprenda através de jogos é tanto ou mais do que ela aprende sentada a uma secretária. Quando pedimos o benefício da dúvida à família ou a um grupo social e mostramos resultados é quando os conseguimos convencer. Em termos de formação de formadores, a minha preocupação enquanto coordenadora é mostrar que às vezes não vale a pena ir contra a pressão e também não podemos ceder, mas dizer em que acreditamos e pedir o benefício da dúvida.

SR – O espírito de competitividade que os pais colocam nos filhos complica o papel do educador?

 

HRC – Há pais que acham que os meninos têm que ser melhores que os outros porque têm que competir e chegar mais longe e são piores de convencer. Mas quando exigem apenas porque estão habituados a um determinado regime e têm uma expetativa do percurso de escolarização, isso é muito fácil de desmontar, pois basta conversar com os pais e trazê-los à escola. Mas isto exige a um profissional que não possa pensar que vai cumprir o seu horário sem cedências, pois pode um dia ter que vir à escola reunir com os pais às sete da noite e isto faz parte da sua profissão.

SR – Esta imagem, cheia de utopia, como é recebida pelos alunos?

 

HRC – Está carregada de utopia, sem dúvida nenhuma, pois se não tivermos utopia não vamos a lado nenhum. Mas não considero que a utopia seja algo de inatingível, pois há um caminho a construir e não estamos a dar receitas, pois mesmo as atividades que propomos são construídas pelos alunos.

A primeira reação é com um pouco de estupefação e também questionam se não é uma utopia. Os nossos alunos têm estágios desde de muito cedo e têm esse choque com a realidade quando vêm que as pessoas não fazem como eles aprenderam e depois alguns professores ainda dizem que essas ideias vão passar quando tiverem dois ou três anos de ensino. Preparamo-los para o que vão ouvir e incentivamo-los a mostrar que são capazes de fazer diferente e normalmente prevalecem os princípios em que acabam por acreditar, sobretudo a ideia de que o caminho não está feito, tem que ser construído, mas se estivermos convencidos dos nossos ideais e se conseguirmos ir convencendo as outras pessoas a trabalhar nesses sentido, ele vai se fazendo.