“O nosso projeto educativo tem valores e princípios muito nobres”

“O nosso projeto educativo tem valores e princípios muito nobres”

“A dignidade, responsabilidade, respeito, tolerância, profissionalismo, dinamismo, motivação e competência” são valores trabalhados diariamente na Escola Técnica e Profissional da Moita e só depois vem a aprendizagem, “com formadores que estão a trabalhar na área e que estão constantemente a criar situações que reportem para aquilo que o mercado de trabalho está a exigir”. O diretor pedagógico destaca ainda “os protocolos de parceria que a escola desenvolve com entidades de referência” e que dão um “parecer sobre o que pode ser a oferta profissional fundamental”, além de acolherem alunos para a formação em contexto de trabalho. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Guilherme Rocha realça que “a escola só oferece uma área profissional se tiver a capacidade ela própria ou com uma entidade parceira de produzir o bem e o serviço dessa área profissional”. É por isso que a escola possui um restaurante pedagógico e uma exploração agrícola, que permitem aos alunos “um contacto com a realidade que vão encontrar”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades tem esta escola para apresentar no próximo ano letivo?

 

Guilherme Rocha – O que vamos apresentar no próximo ano é a continuidade daquilo que temos vindo a procurar fazer com o nosso projeto educativo no ensino profissional. Ou seja, procuramos uma prática pedagógica que possibilite ao aluno constantes referências à realidade do mercado de trabalho, com um projeto curricular e o plano de estudos de um lado, mas temos que ter uma equipa capaz de fazer a ponte entre aquilo que é preparação do aluno de acordo com os referenciais curriculares e dar-lhes a conhecer a realidade que vão encontrar no mercado de trabalho. Estamos a falar de um ensino que é profissionalizante, em que os alunos precisam de ter o domínio sociocultural e cientifico, os princípios dos valores do saber estar e do saber ser, mas necessitam desde o décimo ano de entender para onde vão e porque escolheram este percurso, porque lhes vai dar um caminho concreto para uma saída profissional e eles têm, desde do décimo ano, que entender como é que esse mercado funciona.

SR – Como consegue a escola transmitir essa ideia?

 

GM – Primeiro, na escolha da equipa porque sem professores e formadores que sejam capazes de desenvolver este modelo, nada conseguimos fazer por mais infraestruturas que possamos ter. Essa equipa é constituída por professores formados na componente sociocultural e científica, como o português, a matemática ou o inglês, e depois temos a componente técnica com formadores que trabalham na área. São especialistas que conseguem fazer o casamento entre uma formação técnica com qualidade e as constantes referências ao que são as exigências do mercado de trabalho. Isso dá-nos um know-how constantemente atualizado e que nos permite olhar para os referenciais e perceber quando é que necessitam de ser atualizados para responder às necessidades formativas para preparar os nossos alunos para o mercado de trabalho. Mas a equipa vai mais longe através dos protocolos de parceria que a escola desenvolve com entidades de referência e que se traduzem inclusivamente na incorporação de profissionais dessas entidades no nosso corpo de formadores.

SR – Esse conhecimento da realidade empresarial é também determinante para a própria escolha de oferta formativa na escola?

 

GM – Temos uma estrutura, que faz parte de qualquer escola profissional, que é o conselho consultivo, composto por entidades convidadas pelo conselho diretivo da escola e que vão emitir um parecer sobre o que pode ser a oferta profissional fundamental para esta área e para este território. Normalmente são entidades que estão inseridas no mercado de trabalho e são parceiras da escola e acabam por dar o seu parecer sobre as necessidades do território e não só, porque estamos a preparar os alunos para trabalhar neste concelho, no país, na Europa e no mundo. Com certeza que nem todos os alunos terão esse perfil, mas cabe à escola ter a responsabilidade de lhes dar essa oportunidade de estarem preparados para esse mercado de trabalho.

Com estas entidades, com quem temos protocolos de colaboração, temos inclusivamente a possibilidade de identificar outras entidades onde os alunos podem realizar os estágios e a formação em contexto de trabalho. Ou seja, deixa de ser só a escola a procurar as entidades, mas essas próprias entidades, que também acolhem alunos para a formação em contexto de trabalho, conseguem identificar outras onde os alunos podem realizar o estágio com a perspetiva de poderem ter empregabilidade no futuro.

SR – E como avaliam essa empregabilidade?

 

GM – A nossa taxa de empregabilidade a seis meses tem tido uma oscilação entre os 70 e os 80 por cento, mas não consigo identificar exatamente a área. Mas temos um curso profissional de técnico auxiliar de saúde, que sem estar terminado, tem cem por cento de empregabilidade das alunas, o que é inédito. Isto porque começámos a desenvolver esta lógica de parceria muito aproximada em que quisemos que as entidades parceiras contribuíssem efetivamente para a formação dos nossos jovens. Depois conseguimos aproximar-nos de outras entidades e começamos a aferir as necessidades de empregabilidade das entidades e a criar mecanismos como o desenvolvimento de um processo de seleção e recrutamento partilhada entre a escola e a entidade que necessita.

Posso dizer-lhe que isso está a acontecer em saúde, mas em restauração estamos a fazer o mesmo, embora não lhe possa dizer qual o grau de empregabilidade. Conseguimos inclusivamente preparar logo os alunos, juntamente com a entidade, para a fase de recrutamento, tentando ligar cada vez mais a entidade com a escola, perceber que necessidades têm para começarmos a encaixar o perfil para aquela necessidade. É quase um job matching que estamos a tentar fazer e que vai potenciando também a empregabilidade dentro da área. E também temos alunos que prosseguiram estudos em cursos de especialização tecnológica ou no ensino superior normal, mesmo na área da restauração.

Nas energias renováveis temos poucos alunos a trabalhar na área, devido à descaraterização do mercado de trabalho, principalmente pelo fim dos apoios do Estado que existiam para os sistemas solares e para a contratualização de energia para a rede, que teve aqui uma flutuação muito grande e as empresas que estavam a trabalhar na energia

solar

fotovoltaica começaram a deixar de ter trabalho e a ter muita dificuldade. Isso criou-nos dificuldade também no encaminhamento dos alunos para estas empresas, mas começaram a trabalhar noutras áreas, principalmente na manutenção de sistemas elétricos e de ar condicionado, porque é uma formação que está inscrita no curriculum deles e que lhes permitiu ter empregabilidade em áreas anexas.

SR – Os alunos saem com a atitude que se espera deles?

 

GM – Normalmente, o ensino profissional era conotado com uma última via, o último reduto do aluno que já não consegue fazer mais nada e que precisa de ter a escolaridade obrigatória. Acabou por haver uma descaraterização e uma desvalorização desta oferta e a idade média para o ensino profissional era tradicionalmente elevada. Nesta escola, apesar de ter poucos anos de vida, sente-se um decréscimo da média de idades o que significa que um aluno do nono ano normal, sem ter vindo de uma via profissionalizante, escolhe como primeira opção o ensino profissional. Também temos os alunos que vêm de ofertas profissionalizantes de ensino de terceiro ciclo e que também vêm dentro de idades normais. E continuamos a ter casos de alunos que tiveram percursos um pouco diferentes e que acabam na mesma por escolher esta oferta e que acabam por se motivar e ter sucesso. Temos ainda alunos que vêm de planos curriculares alternativos e estão perfeitamente enquadrados e motivados e quando fazem os seus estágios as entidades reconhecem neles a atitude, o profissionalismo, a responsabilidade e o domínio técnico.

O nosso projeto educativo tem valores e princípios muito nobres que se traduzem na prática diária, ou seja, trabalhamos diariamente os valores e os princípios da dignidade, responsabilidade, respeito, tolerância, profissionalismo, dinamismo, motivação e competência. Se algum destes fatores não existir no momento de aprendizagem, então faltou a base ou a estrutura necessária a qualquer profissional e a qualquer cidadão. Se isto estiver garantido, vem depois a aprendizagem e é isso que temos que garantir, com formadores que estão a trabalhar na área e que estão constantemente a criar situações que reportem para aquilo que o mercado de trabalho está a exigir.

 

SR – Qual é a aposta principal em termos de oferta formativa?

 

GM – O que destacamos reflete-se na oferta para o próximo ano, em que restauração é a área em que continuamos com mais expressão. A sul do Tejo, esta é mesmo a escola com o maior número de alunos na área de restauração. É uma área em que temos protocolos estratégicos fundamentais com as principais cadeias de hotéis e estamos também a virar-nos para a área da restauração coletiva, ou seja, os refeitório e cantinas. Esta é uma área que não é tida pelos jovens como uma área estimulante, antes pelo contrário, mas que necessita de profissionais qualificados e que tenham a capacidade de gerir um serviço que tem que ser controlado ao cêntimo e com uma resposta de número de refeições muito grande. Estamos a falar de uma cadeia de produção que exige grande controlo e em que têm que existir domínios técnicos muito importantes, não só na confeção mas também na própria gestão e controlo.

Pretendemos incorporar na formação profissional alguns módulos que deem estas competências aos jovens para que eles fiquem minimamente preparados para responder a essa necessidade e é uma área onde temos parceiros estratégicos muito importantes e que nos estão a nortear para potenciar a empregabilidade destes jovens. Estamos muito próximos da construção daquilo que serão os referenciais futuros desta necessidade de empregabilidade, ou seja, estamos a trabalhar na antecipação daquilo que o mercado pode vir a necessitar e isso deixa-nos numa posição confortável.

Continuámos com as energias renováveis e sabemos que é uma oferta em que precisamos de ter uma leitura muito atenta daquilo que são a flutuações do mercado de trabalho e para isso temos os parceiros que nos permitem essa leitura. Depois temos outras duas áreas muito importantes, de auxiliar de saúde, com valores inéditos de empregabilidade, e que são os primeiros profissionais nesta área, e a produção agrária, que começou este ano e a correr muito bem, pelo menos na curiosidade que tem suscitado no setor.

A escola só oferece uma área profissional se tiver a capacidade ela própria ou com uma entidade parceira de produzir o bem e o serviço dessa área profissional. Na restauração, temos um restaurante pedagógico aberto todos os dias, temos capacidade de fazer serviços de catering e temos uma bolsa de alunos que em voluntariado ou enquadrados em aulas técnicas fazem esse serviço. Na produção agrária a lógica é a mesma, em que temos uma exploração agrícola que neste momento está a funcionar porque os alunos fizeram todo o trabalho desde o inicio para termos a capacidade de uma produção continua que vai servir o refeitório da escola, o restaurante pedagógico e até poder vender cabazes para professores ou para a comunidade em geral. Isto permite-nos em contínuo ter um contacto com a realidade que vão encontrar, pois não vão aprender questões técnicas agrícolas numa sala de aula nem em simulação, mas vão fazer num ambiente controlado e protegido.

SR – Os alunos que procuram a escola vêm de alguma forma sintonizados com estas necessidades do mercado?

 

GM – Para a restauração já vêm atrás dessa área e é fácil porque está na moda e a estrutura familiar entende e apoia. Para energias renováveis tradicionalmente também, pois é uma procura consciente, orientada pela família e pelos jovens. Para as outras áreas não, pois a prioridade é vir para esta escola e depois acabam por escolher a área, mas tem que haver um trabalho de consciencialização. Este é um problema num âmbito mais global, que tem a ver com o nosso sistema de orientação vocacional no sistema educativo português, que tem muitas fragilidades e quem perde é o jovem e, no futuro, quem vai perder é o país.

Assim, a escola tem que fazer essa orientação, pelo que há um trabalho ainda anterior à pré-inscrição que resulta da nossa articulação com outros serviços de psicologia e orientação das escolas que têm o nono ano. Procuramos que os alunos venham conhecer a escola e a oferta, tomar contato com os nossos formadores, com os antigos alunos e com os finalistas, com visitas guiadas e orientadas. Quando o aluno faz a pré inscrição é contatado e faz um teste psicotécnico e uma entrevista individual. Independentemente do número de vagas, o aluno passa por este processo na mesma e temos que entender se há ou não questões fundamentais que possam ditar que o aluno não vir para aqui.

SR – O curso de produção agrária raramente é procurado pelos alunos?

 

GM – O curso de produção agrária é aquele em que é necessário mais trabalho prévio, articulado com os serviços de psicologia e orientação com as escolas de terceiro ciclo que podem mostrar o que é esta oferta profissionalizante. Um aluno que até possa dizer que gosta de produção agrária precisa de vir à nossa exploração para ter a certeza, precisa de ver os nossos alunos lá a desenvolver o trabalho, precisa de falar com um aluno nosso e de perceber o que é isto. Mas isso tem que ser feito de forma articulada, tem que haver essa abertura e essa facilidade de todos nos conhecermos, em que quem fica a ganhar é o aluno e a médio longo prazo é o território, porque fica com profissionais qualificados e felizes com aquilo que fazem. As escolas têm que responder também a essa questão juntamente com o aluno e tem esse dever de criar condições para que o aluno consiga ser feliz.

SR – A escola já tem procura pelo nome e uma marca instituída?

 

GM – A marca está instituída em determinadas áreas e setores, mas perfeitamente cimentada com os seus parceiros. Não há dúvida nenhuma das vantagens e das mais-valias mútuas e é isso sempre que procuramos, numa lógica ambivalente em que temos que ter a capacidade de mostrar que a escola tem a responsabilidade de dinamizar o setor, porque se este não for dinamizado não há empregabilidade para os nossos jovens. A escola tem que se envolver na organização de eventos, conferências e jornadas técnicas, na formação dos profissionais que já estão inseridos na área com planos de formação continua e desenvolver outro tipo de iniciativas que podem ser propostas pelas próprias entidades parceiras. A escola tem que ter essa capacidade de resposta porque tem que dinamizar o setor e tem que dinamizar o território, pelo que não pode estar à espera que seja o território e as entidades do setor a dar tudo a escola.

Mas a questão principal é saber se o ensino profissional está cimentado, pois ainda há preconceito e estigma e os projetos educativos das escolas profissionais e das escolas secundárias que têm ensino profissional precisam de ser mais divulgados, porque esta oferta urge para o desenvolvimento do país e só será viável se se desenvolver um trabalho de qualidade. Os projetos de qualidade têm de ser conhecidos e reconhecidos pela comunidade para que, cada vez mais, os jovens e as famílias entendam que é por aqui que têm que ir. Ao mesmo tempo, as empresas também precisam de conhecer e se aliar para alavancar mais a qualidade desta oferta, sendo que em Portugal temos que procurar o nosso caminho e não imitar os outros países.