“A nossa missão é formar os profissionais que a região precisa”

“A nossa missão é formar os profissionais que a região precisa”

“Próximo de uma zona industrial em franco crescimento”, o Piaget de Santo André direciona a sua formação para as necessidades da região, de acordo com o desenvolvimento que se espera para “daqui a trinta anos”. O coordenador da licenciatura de Ambiente, Segurança e Higiene no Trabalho admite, contudo, que “uma das grandes dificuldades é a insuficiência de alunos, porque uma grande parte não consegue concluir as provas de ingresso com pelo menos nove valores e meio”. Por isso, vê com grande expetativa a aprovação dos novos cursos técnicos superiores profissionais, pois “são cursos muito dirigidos” e “correspondem a um perfil que é muito necessário nas empresas”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Gil Estevez confessa a sua “esperança forte” de que estes cursos possam trazer novos alunos e que possam “começar a lecionar de dia, porque toda a oferta atual é noturna”.

“Setúbal na Rede” – Que balanço pode ser feito do funcionamento do curso de Ambiente, Segurança e Higiene no Trabalho?

 

Gil Estevez – Os nossos alunos típicos são os maiores de 23 anos, mas temos uma quantidade significativa que designamos como alunos externos, porque ainda não conseguiram as qualificações necessárias para entrar no ensino superior mas, por força da lei, podem frequentar disciplinas isoladas de um curso superior, de tal modo que todas essas classificações serão levadas em consideração quando tiverem as condições para se inscreverem regularmente. Uma das grandes dificuldades no ensino politécnico é a insuficiência de alunos, porque uma grande parte não consegue concluir as provas de ingresso com pelo menos nove valores e meio, o que significa que ficam numa situação em que não podem ingressar no ensino superior. Uma saída é inscreverem-se no ensino superior neste regime de aluno externo e ganhar uma série de créditos e até fazer o ano completo, como alguns alunos nossos que já fizeram isso e que estão no segundo ano mas só agora é que se vão matricular.

SR – E acabam por ser bem-sucedidos ou a taxa de desistência é muito elevada?

 

GE – A taxa de desistência é praticamente nula, porque são alunos como os outros e há só uma questão administrativa que os diferencia. Entretanto, eles preparam-se para as provas de ingresso e mal consigam regularizam a situação e têm sucesso.

SR – O facto de não terem reunido os requisitos necessários para entrarem no ensino superior não lhes dá desvantagem nesse percurso?

 

GE – As provas de ingresso são o Português e a Geografia e não são muito determinantes, embora o Português seja sempre fundamental, mas o que eles têm na escola é mais virado para a literatura e não para o uso da língua como ferramenta de trabalho. Isso eles aprendem aqui, a usar a língua como instrumento de trabalho e de comunicação.

 

SR – Não há nenhum pré requisito para esta licenciatura?

 

GE – Obviamente que a Matemática e a Física têm sempre alguma importância, mas não é um requisito estritamente necessário. Temos alunos que entraram no regime de maiores de 23 anos, que não tinham feito a Matemática e a Física ou que já fizeram há tanto tempo que praticamente não conservam nada desse conhecimento e que terminam a licenciatura com sucesso.

SR – Quer isso dizer que esta licenciatura não é muito exigente?

 

GE – Esta licenciatura abrange áreas muito diversas, acaba por ser uma licenciatura muito transversal que vai beber informação a muitas áreas do conhecimento e onde a experiência de vida também é determinante. Ou seja, os maiores de 23 anos fazem esta licenciatura com alguma facilidade e acabam por se tornar bons profissionais, segundo a informação que temos recolhido, e quando já estão em empresas acabam por ser promovidos. Obviamente que têm mais dificuldades na área da Matemática, da Química ou da Física, e todas estas disciplinas fazem parte do curso, mas há muito mais para além disso, onde a experiência de vida e o conhecimento acumulado ao longo dos anos ajuda bastante.

SR – Que conhecimentos é que estes alunos já trazem das suas experiências de vida?

 

GE – Os maiores de 23 anos estão praticamente todos a trabalhar, uns em empresas e outras nas câmaras, e terminar aqui esta licenciatura é uma oportunidade em termos profissionais, para conseguirem uma promoção ou para mudarem para outras áreas de trabalho mais interessante.

SR – Quais as saídas profissionais nesta área?

 

GE – Há uma competência muito especifica que é dada pela legislação, com o titulo de técnico superior de segurança e higiene no trabalho, e só assim é que podem exercer esta profissão, porque estando regulamentada ou fazem uma licenciatura e uma pós graduação para obterem este título ou então optam por fazer esta licenciatura específica que lhes dá o acesso a este título.

 

SR – O que faz um técnico superior de higiene e segurança no trabalho?

 

GE – Faz a gestão da prevenção, avaliando os riscos existentes numa determinada organização, em termos de segurança e de saúde dos trabalhadores e vai definir todo um conjunto de medidas para minimizar ou eliminar estes riscos, sejam medidas de engenharia ou organizativas. Nas medidas de engenharia estamos a falar, por exemplo, em colocar um sistema de ventilação para renovar melhor o ar, de barreiras de proteção nas partes perigosas de uma máquina que possam causar danos aos trabalhadores ou na seleção de equipamento para proteção individual. Portanto, o que o técnico vai fazer é, face aos riscos que identificou em determinada atividade, ver que medidas é que devem ser tomadas para que estes riscos sejam reduzidos para valores aceitáveis.

SR – Hoje a legislação obriga a que as empresas tenham estes cuidados, mas as pessoas têm consciência que é importante acatar isso?

 

GE – Há vários tipos de empresas, aquelas que têm uma cultura de segurança em que o técnico vai dar um contributo e beber essa cultura de segurança, e outras onde esta cultura de segurança ainda não chegou e aí o técnico vai levar essa nova forma de ver este problema, porque os acidentes de trabalho, para além do sofrimento do trabalhador, tem custos muito grandes para as empresas. Normalmente até se dá a imagem do iceberg, em, que o custo direto do acidente de trabalho é a ponta visível e o corpo principal que está debaixo de água representa os cursos indiretos, com a produção que parou, as encomendas que não são entregues a tempo, a máquina que foi destruída e a sua reparação ou substituição, e estes custos não são cobertos pelos seguros.

Por outro lado, para além da questão dos acidentes e das doenças profissionais, o técnico tem de trabalhar também no sentido de melhorar a produtividade da empresa, encontrando formas mais seguras e funcionais para realizar os trabalhos. Imagine-se uma instalação elétrica no teto, a dois, três ou quatro metros, recorrendo a um escadote, correndo o risco de cair e fazendo um trabalho imperfeito porque a posição é pouco confortável, ou com um andaime móvel, confortável e seguro, onde a probabilidade de cair é muito menor e se vai fazer um trabalho com melhor produtividade e com melhor qualidade. Nesse sentido, trabalhamos para reduzir os acidentes e as doenças profissionais, mas também para melhorar a produtividade e a qualidade no trabalho realizado.

 

SR – Não havendo essa cultura plena de segurança, os alunos têm motivação para investir numa formação nesta área?

 

GE – As empresas são obrigadas a ter um técnico de segurança, há uma imposição legal e por isso há empregos garantidos. Obviamente que seria melhor que as empresas contratassem estes técnicos não por força dessa imposição legal, mas pela necessidade sentida de reduzir os riscos de acidentes, de melhorar as condições de conforto e de bem-estar do trabalhador e, indiretamente, melhorar a produtividade e a qualidade do trabalho produzido. Mas a legislação diz que todas as empresas têm que ter este técnico de higiene e segurança no trabalho, seja interno ou contratado a uma empresa especializada nessa área para prestar este tipo de serviços. E é uma imposição legal que é verificada, pois todas as empresas têm que apresentar um relatório anual sobres as atividades de segurança e higiene no trabalho que realizou e referir qual foi o técnico que fez esse trabalho e o número da sua cédula profissional.

SR – Quer dizer que os alunos aqui licenciados têm colocação fácil no mercado de trabalho?

 

GE – Têm colocação fácil no mercado de trabalho e terão uma colocação mais fácil quando o Estado, que é o que menos cumpre, for realmente obrigado a cumprir a legislação que ele próprio produziu. Sabemos que as câmaras têm atividades de risco, de trabalhos de construção, de limpeza ou de trabalhos realizados em fossas, onde os riscos são elevados, e são as entidades que menos investem em termos de higiene e segurança no trabalho. As câmaras têm muitas máquinas e muitas vezes são velhas, com riscos acrescidos, que podem ser perigosas se não forem verificadas por uma pessoa competente para ver se aquela proteção que a máquina tinha no início ainda lá está e garantir que a máquina é segura. Por exemplo, este ano já morreram imensas pessoas por causa de acidentes com tratores, quando estes deviam ter uma proteção e não têm.

SR – A componente do ambiente que surge no nome desta licenciatura significa o quê?

 

GE – É uma área importante porque as empresas vêm hoje com interesse a certificação ambiental e em segurança. Para as empresas se certificarem precisam de ter um técnico que domine essas áreas e não precisa de ser um engenheiro de ambiente, pois não estamos a falar de coisas tão complexas quanto isso, mas muitas vezes apenas a questão da gestão dos resíduos sólidos ou de algumas emissões gasosas. O que significa que os alunos quando saem da licenciatura podem perfeitamente trabalhar numa empresa nessas duas áreas, por um lado na gestão da segurança e saúde dos trabalhadores e por outro nalguma gestão ambiental. Todas as empresas produzem resíduos e os industriais não podem ser colocados nos caixotes de lixos normais, pelo que há um procedimento de separação dos resíduos, o encaminhamento para as empresas que estão autorizadas a receber estes resíduos e alguém na empresa tem que fazer isso. Os nossos alunos conhecem toda essa metodologia e chegam às empresas capazes de fazer isso.

SR – Com o perfil de alunos que traçou, os cursos técnicos superiores profissionais podem ser uma oportunidade a explorar?

 

GE – Tem muito a ver com o conceito de formação ao longo da vida, que é importante e que já está a ficar consolidada no nosso pensamento. Enquanto há 40 anos atrás se fazia uma licenciatura para o resto da vida, a ideia é que as licenciaturas sejam mais curtas, mas impliquem uma formação ao longo da vida. Uma pessoa chega mais rapidamente ao mercado de trabalho, mas vai estudar ao longo de toda a sua vida profissional.

SR – Mas não são curtos demais?

 

GE – Estes cursos têm uma caraterística e uma exigência que decorre da própria legislação, que implica cerca de 70 por cento de componente prática, pois pretende formar técnicos com uma componente do saber fazer, mas que podem depois ingressar numa licenciatura e ganhar uma formação mais alargada. São cursos muito dirigidos e é uma boa aposta, pois é um modelo com muito sucesso na Alemanha, onde os alunos terminam os cursos e são rapidamente absorvidos pelo mercado de trabalho, pois correspondem a um perfil que é muito necessário nas empresas.

SR – Estes cursos encaixam bem na oferta pedagógica desta escola?

 

GE – Sobretudo pela nossa proximidade de uma zona industrial em franco crescimento e que se prevê a dez ou vinte anos. Não podemos ver as coisas a curto prazo, mas ver o que vamos precisar e que desenvolvimento é que vamos ter daqui a trinta anos. Esta informação existe e nós sabemos o que está a ser feito no terminal de Sines, com um investimento grande, de acordo com o que foi pensado há 50 anos, em que havia um grande projeto para a zona e a própria Vila Nova de Santo André seria a cidade modelo e inseria-se nesse grande projeto de um pólo industrial enorme. Teve altos e baixos no seu percurso e agora está numa fase crescente graças até a muito investimento estrangeiro.

SR – O Piaget está bem integrado nesta realidade de crescimento?

 

GE – Até por força destes cursos vamos estar ainda mais ligados porque para avançarmos com estes cursos temos que ter parecer positivo das empresas. Neste momento temos pronto para submeter uma candidatura de um curso de Eletrónica, Robótica e Automação Industrial e outro de Tecnologia de Produção de Petróleo e Gás. São cursos voltados para o presente e para o futuro e a nossa missão é formar estes profissionais que a região precisa.

Temos protocolos com as empresas que estão aqui instaladas e até descontos para alunos que vêm destas empresas, como a Galp e a Repsol, em que muitos são maiores de 23 anos, mas gostaríamos que isso mudasse e estes cursos podem contribuir. Estamos articulados com a Escola Tecnológica do Litoral Alentejano mas os alunos que lá terminam um curso de nível quatro não podem ingressar aqui, porque têm que ir fazer os exames nacionais, quando a percentagem de alunos que vem do ensino técnico e que conseguem superar os exames nacionais é irrisória.

SR – Então esta pode ser uma via alternativa para o prosseguimento de estudos?

 

GE – Entram aqui diretamente, porque fazem uma prova de ingresso sobre matérias que conhecem, pelo que não terão grande dificuldade em superar, ao contrário da situação atual em que os alunos que estão no ensino profissional terminam o ano já praticamente em fins de Julho, com os exames a coincidirem com o período de aulas e de exames deles. Ou seja, parece que está tudo feito de maneira a que eles não possam ingressar no ensino superior. Por isso, temos uma esperança forte de que estes cursos podem trazer-nos novos alunos e que possamos começar a lecionar de dia, porque toda a nossa oferta atual é noturna.