“A consultadoria e a formação profissional andam de mão dada”

“A consultadoria e a formação profissional andam de mão dada”“A formação profissional está ligada com a consultadoria” porque “os recursos humanos são a componente mais importante nas empresas”. A Consulnear, com sede no Pinhal Novo, trabalha em “consultadoria pura e dura”, mas também se dedica à formação profissional, “de aprendizagem, para ativos, para desempregados e para pessoas que procuram pacotes soltos, formação personalizada e à medida”. O diretor explica que a preocupação nesta área é “formar para empregar”, garantindo aos formandos “um potencial de empregabilidade elevado”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Francisco Canelas defende que “um trabalho muito importante é a seleção de formandos”, pois é preciso “explicar o que são as profissões, o que é o mercado, que é excelente conseguir fazer uma coisa de que se goste mas se calhar tem que se fazer coisas de que se gosta menos mas que são essenciais para ter sucesso”. A formação na vertente de aprendizagem “tem que ser mais ligada às empresas, à prática, com empregabilidade e é isto que as pessoas andam a procura”, argumenta o diretor.
“Setúbal na Rede” – Como é que surge a componente de formação na Consulnear?

Francisco Canelas – Estou ligado à formação profissional desde os 18 anos, fui dirigente do Centro de Formação Profissional de Setúbal do IEFP, mas hoje temos que ver as coisas na sua extensão total e que a formação profissional está ligada com a consultadoria. Quando lidamos com um cliente como consultores e dominamos as áreas quase todas, desde a higiene e segurança, área alimentar, qualidade, ambiente e gestão, o trabalho de consultadoria muitas vezes recomenda a formação profissional. Para que o trabalho que estamos a desenvolver atinja o seu objetivo, os recursos humanos são a componente mais importante nas empresas. Para criar um sistema de qualidade, se as pessoas não estiverem envolvidas, isso nunca será possível por muito perfeito que ele esteja. Portanto, a consultadoria e a formação profissional andam de mão dada.

SR – A formação surgiu como complemento da consultadoria?

FC – Nós temos alguns pilares, uma é a consultadoria pura e dura, o outro é a formação profissional e depois temos as certificações de empresas. Essencialmente, temos trabalhado com empresas privadas, mas também com o Estado, operamos a nível nacional incluindo as ilhas e temos polos distribuídos pelo país, desde Marco de Canavezes, Leiria, Pinhal Novo e Grândola, tentando ser o mais abrangentes possível.

SR – Além da componente de formação para ativos, que é complemento à consultadoria, também fazem para jovens, nomeadamente na modalidade de aprendizagem?

FC – Fazemos formação de aprendizagem, fazemos para ativos, para desempregados e para pessoas que nos procuram pelos pacotes soltos, formação personalizada e também muita formação à medida. Vamos à empresa, fazemos o diagnóstico e implementamos a formação necessária para o desempenho daquela função, sempre com a preocupação de ser uma formação certificada, o que é uma mais-valia que os nossos clientes têm trabalhando connosco. A pessoa pode pegar naquele certificado e, juntando outros elementos, pode ter aquilo a que chamávamos antigamente de carteira profissional. Imagine-se um jardineiro que passou a vida a trabalhar nos jardins, vai ao catálogo do IEFP e vê quais são as disciplinas que ele tem que ter para que obter a carteira de jardineiro. Nós estamos certificados para fazer aquela formação, pelo que recebe um documento que atesta que é jardineiro, tem uma formação certificada e isto é uma mais-valia que proporcionamos, porque somos reconhecidos para que isso possa acontecer.

SR – Nas ofertas formativas qual é o critério da escolha dos cursos?

FC – Fazemos sempre o estudo do local onde estamos inseridos e onde vamos trabalhar. Por exemplo, no Pinhal Novo estamos a oferecer cursos de Mesa e Bar e Cozinha, portanto muito dirigidos à hotelaria e ao turismo, porque estamos implementados numa região turística, e Multimédia, porque é uma preocupação que as pessoas hoje têm de criar o seu próprio posto de trabalho. O multimédia, e outras áreas que também desenvolvemos, permite que um individuo esteja em casa e sem custos desenvolva o trabalho para um cliente, pelo que são ferramentas para que num futuro próximo possam criar o seu próprio posto de trabalho. Enquanto atores da formação temos que formar para empregar e temos que ter a preocupação que aquele jovem, quando sair da formação, tem um potencial de empregabilidade elevado.

SR – Tem dados que confirmam essa empregabilidade?

FC – Somos certificados pelo ISO 9001 e somos obrigados a dispor de todos esses dados. Posso dizer que na área de hotelaria e restauração tínhamos 97 por cento de empregabilidade com os formandos a ficarem nos locais onde fazem os estágios, o que é excelente pois nem têm que ir ao centro de emprego registarem-se como desempregados. Nunca é a cem por cento porque algumas pessoas chegam ao fim e dizem que não gostam ou apresentam outros motivos pessoais, mas é isto que nos motiva. E temos a preocupação de que os formandos que não encontrem trabalho no seu país e tenham que ir à procura dele, encontrem emprego facilmente e que tenham uma integração rápida para onde quer que vão.

SR – Que fatores determinam esse sucesso dos formandos?

FC – Primeiro, há aqui um trabalho muito importante na nossa formação que é a seleção de formandos. A maioria das pessoas quer as profissões ditas leves, que hoje não têm empregabilidade, e na seleção temos que fazer uma demonstração daquele mercado para que aquelas pessoas repensem a vida delas. Há também que desmistificar o que é a profissão para aquelas pessoas, pois um serralheiro, por exemplo, hoje já não faz o trabalho duro que fazia antigamente.

SR – Hoje quase todas as profissões são leves e limpas.

FC – Não há profissões sujas hoje. Aliás, as exigências de higiene e segurança não o permitem e apesar de todas as profissões terem riscos, temos que tentar diminuir esse risco. As pessoas às vezes é que não se preocupam em descobrir técnicas para que a sua profissão seja mais limpa e nós fazemos este trabalho de desmistificar essa situação para que as pessoas vejam as profissões de uma maneira diferente. Depois explicamos onde está a procura, em que regiões é que está e o que é preciso para chegar lá, e quando se faz este trabalho ficamos com a opinião daquelas pessoas totalmente invertida. Portanto, temos que começar na seleção, temos que explicar o que são as profissões, o que é o mercado, que é excelente conseguir fazer uma coisa de que se goste mas se calhar tem que se fazer coisas de que se gosta menos mas que são essenciais para ter sucesso.

SR – Qual o perfil das pessoas que procuram esta escola?

FC – Infelizmente, os jovens que nos chegam às aprendizagens são jovens que vêm de um percurso escolar em que não tiveram sucesso, porque muitas vezes o ensino tradicional não lhes consegue resolver o problema e a outra porta é a aprendizagem. Mas o ensino profissional tem uma postura e a aprendizagem tem outra e não as podemos confundir como se anda confundir. Vê-se operadores que fazem ensino normal, mas também fazem aprendizagem e o aluno leva com o mesmo professor e se calhar com a mesma matéria e até a sala é a mesma.

A aprendizagem tem uma outra maneira de entender a profissão, o assunto e o aluno. Tanto que os formadores que estão na aprendizagem, apesar de muitos terem vindo do ensino tradicional, tiveram uma formação do IEFP para entenderem que tem que haver uma mudança, pois tem que ser mais ligada às empresas, à prática, com uma empregabilidade e é isto que as pessoas andam a procura. A situação social também é importante aqui, pois cada vez a taxa de desemprego é mais assustadora e é uma obrigação nossa também de contribuir para que este país melhore um pouco. Encontramos muito jovens que são provenientes de famílias descaraterizadas e muitos a quem a coordenadora tem que ligar porque faltou hoje e amanhã não pode faltar, mas às vezes falta a ligação do outro lado que seria o pai ou a mãe. Essa também é uma obrigação nossa e temos que ajudar a resolver estes problemas.

SR – Por que razão a Consulnear está instalada no Pinhal Novo?

FC – Uma das razões é a acessibilidade fácil desta zona, porque dispõe de comboio que vem de todo o país, pelo que temos formandos que são do Barreiro, de Setúbal, Moita ou Alhos Vedros. Mas quando penso em formação e empregabilidade, a área geográfica abre muito, pois temos tido formandos que vão fazer estágios em hotelaria para o Algarve. Temos sempre a preocupação de que os estágios também sejam na época alta, porque infelizmente há muitas unidades hoteleiras que na época baixa estão fechadas ou têm menos movimento, o que não é bom para que esta aprendizagem consiga um rendimento melhor.

SR – E em Grândola?

FC – Grândola tinha formação mais na área da agricultura e cumprimos a nossa obrigação de ir à procura de saídas profissionais que são necessárias. Em Grândola oferecemos cursos de Mesa e Bar e Cozinha e tem resultado porque hoje há muitas unidades a nível de hotéis rurais, por exemplo, que precisam de técnico para poder compatibilizar aquela oferta física com a oferta de serviço e esses jovens têm tido muito sucesso nessas unidades. Já para não falar em Tróia, em que todos os estagiários e pessoas formadas são poucas, mas temos ainda toda a costa Vicentina e há alguns formandos que querem ir para o Algarve e arranja-se facilmente.

SR – Que argumentos apresentaria para que um jovem opte por fazer a sua formação inicial aqui?

FC – Se falarem com ex-formandos nossos, certamente irão dizer bem do serviço que fizemos e da maneira como o fizemos. O sucesso que as pessoas tiveram também fala por si, porque isto só tem razão de existir se houver empregabilidade. Um dos argumentos é que temos uma excelente equipa, tanto de formadores como de técnicos de apoio, e condições a nível de laboratórios, de cozinhas e de salas de multimédia, apetrechadas com as tecnologias de ponta para que o trabalho que seja feito tenha uma ligação muito perto com o mercado e com o melhor que se faz.