“Temos uma ligação grande à comunidade local e regional”

“Temos uma ligação grande à comunidade local e regional”

O entendimento é de que “os cursos na área da saúde devem ter uma componente em contexto, para além daquela que é mais comum, ao nível das competências clínicas”, pelo que a Escola Superior de Saúde desenvolve “várias atividades” de “ligação à comunidade”. A diretora da escola reconhece, no entanto, que procuram também ter “relevância nacional e internacional” e para se distinguir “enquanto instituição de ensino superior de qualidade”, tem apostado na “investigação aplicada”. Fernanda Pestana, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, admite que foram concentradas “imensas energias a tentar encontrar soluções” para ter instalações próprias, mas que hoje existe “uma noção muito clara de que uma escola é muito mais do que um edifício”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades estão previstas para o próximo ano letivo?

Fernanda Pestana – No próximo ano letivo, contamos iniciar um Mestrado em (Re)Habilitação Vocal, uma oferta dedicada às técnicas vocais em voz falada e cantada, profissional e não-profissional. A acreditação desse mestrado já foi feita pela A3ES, de modo que tenho bastante expectativa, especialmente se pensarmos num quadro mais alargado, pois existem na Escola Superior de Saúde competências científicas, recursos técnicos e investigação na área da voz. Estamos também envolvidos num novo projeto, financiado pela Fundação Gulbenkian, que surgiu através da Universidade de Aveiro, no qual a investigadora principal é nossa docente. Trata-se de um projeto na área do fado e que é uma continuação de outro que aqui foi iniciado.

SR – Como é que surge aqui essa componente de investigação, uma vez que não costuma estar associada aos politécnicos?

FP – Penso que, para nos distinguirmos e diferenciarmos enquanto instituição de ensino superior de qualidade, temos sempre que fazer investigação aplicada e é isso que temos feito. Neste momento, vamos na sexta edição do mestrado em Desenvolvimento e Perturbações da Linguagem na Criança, na quinta edição do de Fisioterapia e estamos a preparar-nos para a terceira edição de Enfermagem Médico-Cirúrgica e Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Está também a decorrer a primeira edição do mestrado em Enfermagem Perioperatória e em Engenharia Biomédica.

A nossa escola é muito recente mas desde o início que nos guiamos pelo humanismo, qualidade e inovação e ainda pela distinção, personalismo e excelência. Ou seja, tentamos inovar de várias formas, procurando alianças estratégicas que nos permitam complementar o que sabemos fazer bem. Por isso, quando criámos o primeiro mestrado, decidimos fazê-lo em parceria com a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, como forma de apresentar uma melhor oferta formativa.

Na área da Fisioterapia, fizemos uma aliança estratégica com a Universidade Nova, mas também com a Escola Nacional de Saúde Pública e a Faculdade de Ciências Médicas. Gostaria de referir ainda que o mestrado em Enfermagem Perioperatória é o primeiro na área em Portugal e envolve a Associação de Enfermeiros de Salas de Operação Portuguesas, pois é uma forma de complementar os conhecimentos e consolidar a ligação à prática.

Os mestrados constituem, de facto, uma excelente oportunidade para fazer investigação séria e, quando necessário, servida com os recursos adequados. Na investigação, para além do Laboratório da Voz, temos hoje o Laboratório Avançado de Estudo e Análise do Movimento que tem duas excelentes vertentes associadas à reabilitação e otimização do movimento. É um laboratório com um potencial enorme e que nos tem permitido estabelecer parcerias com instituições nacionais e internacionais de renome. Um aspeto particular que gostaria de sublinhar é que procuramos envolver os estudantes nos trabalhos de investigação, logo desde a licenciatura, uma forma de contribuir para a sua formação e incentivar as suas competências específicas.

SR – O que a Escola Superior de Saúde leva para essas parcerias?

FP – Estamos a falar de mestrados que tiveram já várias edições, pelo que temos vindo a reforçar essas alianças, o que significa que fazemos bem aquilo a que nos propomos. Hoje em dia, a investigação não se faz isoladamente, pois é preciso encontrar complementaridades e isso só acontece quando o trabalho é desenvolvido em associação. Neste ano letivo, tivemos a oportunidade de fazer uma candidatura à European Innovation Partnership on Active and Healthy Aging. Através desta medida europeia estabelecemos um consórcio que envolveu a Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Nova de Lisboa, a Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa, Instituto de Telecomunicações, do Instituto Superior Técnico, a Direção-Geral de Saúde e algumas empresas e autarquias, entre outros. No entanto, isto só foi possível porque foi decorrendo um trabalho ao longo das várias edições do mestrado de Fisioterapia, através do qual as pessoas foram desenvolvendo conhecimentos e capacidade de trabalhar em conjunto.

SR – A que se deve a qualidade desta escola?

FP – Não temos instalações próprias e, durante algum tempo, concentrámos imensas energias a tentar encontrar soluções. Provavelmente, isso fez com que tivéssemos uma noção muito clara de que uma escola é muito mais do que um edifício, pois tivemos que a criar sem a posse de um espaço físico exclusivo. Ou seja, essa qualidade nasce também de uma necessidade de afirmação, pelo que foi uma coisa natural e acho que a escola tem sido fantástica nesse aspeto. Temos uma equipa jovem, fortemente capacitada, com diferenciação académica e intelectual e isso faz com que tenhamos profissionais muito competentes, resilientes e entusiastas. Neste momento, temos mais ofertas pós-graduadas do que graduadas e esse é outro traço determinante nas questões relacionadas com a investigação.

SR – Apesar de não terem instalações próprias, sentem que têm reconhecimento externo?

FP – Sim, temos, inclusivamente, indicadores relacionados com o facto de nos procurarem para as parcerias e isso demonstra, seguramente, que temos qualidade. É uma situação que se passa a nível internacional, pois pertencemos a um consórcio europeu de instituições de ensino superior na área da saúde e temos vindo a desenvolver um trabalho que faz com que hoje sejamos parceiros de sete programas internacionais. Dentro do programa Erasmus há uma linha que se chama Intensive Programs, na qual várias instituições se candidatam a um financiamento europeu, fazem correr um programa creditado com ECTS atribuídos e com financiamento para as deslocações que decorrem em determinados países. No país do líder desse programa, durante duas semanas, os estudantes trabalham uma determinada problemática numa perspetiva multiprofissional. Estas parcerias resultam de convites e os nossos estudantes têm tido um excelente desempenho durante esses programas, pelo que os nossos parceiros ficam encantados e querem-nos muito para estas parcerias.

SR – Com todas essas parcerias, esta escola podia estar instalada em qualquer sítio ou tem na sua matriz o facto de pertencer a esta região?

FP – Pessoalmente, gostaria que tivéssemos relevância local, mas também nacional e internacional. Portanto, quando pensamos em região podemos estar a falar em termos geográficos, mas podemos estar a falar também em região de conhecimento e, nesse sentido, podemos estar associados à China ou ao Japão, porque é um campo que não tem fronteiras. Desta forma, queremos evoluir em termos de conhecimento e contribuir para o seu desenvolvimento, pelo que não temos fronteiras geográficas. Aqui se enquadram as relações de cooperação que vimos estabelecendo com instituições de ensino superior europeias, bem como do Brasil, Chile, Estados Unidos e Austrália, por exemplo.

A nossa escola e a de Aveiro foram as duas últimas a serem criadas na área da saúde em termos de distritos. No entanto, foram também as duas primeiras escolas de saúde criadas, porque só a partir do ano 2000 foi criado este novo conceito de escola de saúde. Deste modo, foram duas grandes vitórias, porque as duas instituições inauguraram o novo modelo e foram as últimas capitais de distrito a ficar com um ensino na área da Saúde.

Nós temos uma ligação grande à comunidade local e regional, porque entendemos que os cursos na área da saúde devem ter uma componente em contexto, para além daquela que é mais comum, ao nível das competências clínicas. Temos uma grande relação com as entidades prestadoras de cuidados, como hospitais, centros de saúde e outras de solidariedade social e intervenção social, onde os nossos estudantes desenvolvem competências diversificadas que os preparam para serem melhores profissionais.

Com efeito, temos várias atividades que são o exemplo da nossa ligação à comunidade, em termos regionais. Destacaria duas que são o exemplo da nossa ligação à comunidade, em termos regionais. Por um lado, temos um Ciclo de Debates anual, no qual são apresentados e discutidos projetos de intervenção comunitária desenvolvidos pelos nossos estudantes em diversos contextos. Estes debates constituem uma oportunidade muito interessante para trazer até nós os representantes das instituições-parceiras e profissionais especialistas, bem como reforçar as ligações que existem. Por outro lado, temos também uma atividade muito interessante a que chamamos “Ouvindo os Idosos”, na qual os nossos estudantes das licenciaturas de Fisioterapia, Terapia da Fala e de Enfermagem interagem com idosos de instituições da nossa região que fazem parte da rede “EnvelheSeres”. Durante esse dia, os idosos e os profissionais dessas instituições são convidados da escola, realizam atividades com os nossos estudantes, que ficam a perceber a perspetiva do idoso relativamente ao seu processo de envelhecimento, aos seus recursos e necessidades. São experiências que enriquecem muito os nossos estudantes, mas, pelo que nos dizem, são momentos enriquecedores para os idosos.

SR Ainda não está afastada a possibilidade de vir a ter instalações próprias?

FP – Neste momento, passamos por uma situação difícil, a nível nacional, mas preocupa-me muito as condições em que trabalhamos e é isso que temos que garantir. É verdade que ainda não temos um edifício com o nome da escola, mas temos, por exemplo, laboratórios muito bem apetrechados e a investigação só tem sido possível porque há um investimento enorme em termos de equipamento. É claro que, se tivéssemos instalações próprias, teríamos mais tranquilidade e conseguiríamos fazer uma gestão mais fácil dos recursos, mas, neste momento, isso não é possível. Porventura, conseguiremos encontrar uma solução que melhore o atual panorama e que nos dê condições adicionais. Por exemplo, um edifício com especificações técnicas diferentes daquelas que temos poderia ser uma solução para melhorarmos a atual situação.

SR – Como vê uma eventual mudança para o Barreiro, para as instalações da Escola Superior de Tecnologia?

FP – Penso que seria um retrocesso muito grande. Mas, independentemente disso, considero que o Instituto Politécnico de Setúbal desenvolve muito bem um ensino superior de qualidade nas áreas da Educação, das Tecnologias e da Engenharia, das Ciências Empresariais e da Saúde. A minha perspetiva é que, nenhuma das áreas deveria ser arredada do seu campus principal, da capital de distrito. Penso que a sede do IPS deverá ter todas as suas áreas, pelo que não vejo isso como uma boa solução estratégica.

Por outro lado, o objetivo que esteve por detrás da abertura da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro teve que ver com o facto de se acreditar que era necessário dotar aquela área geográfica com um ensino naquela área específica. Penso que o trabalho de ligação à zona envolvente que tem sido desenvolvido na EST do Barreiro, nomeadamente com a própria câmara municipal e na área da requalificação urbana, é uma grande mais-valia. É um trabalho que está a ser bem feito, pelo que também não seria compreensível se tivessem que vir para cá, porque têm uma escola fantástica em termos de edifício técnico. A EST do Barreiro tem laboratórios muito bem equipados, mas na área das tecnologias e não na área da saúde, pelo que não considero uma boa solução transferir a nossa escola para lá.