“A crise tem ajudado a fortalecer contactos”

“A crise tem ajudado a fortalecer contactos”

“A perspetiva é desenvolver a extensão da universidade à comunidade”, pelo que o Piaget de Almada pensa desenvolver alguns projetos de integração na região. A diretora do Instituto Superior de Estudos Interculturais e Transdisciplinares de Almada considera que estão “muito bem integrados neste concelho”, até porque existem “parcerias muito fortes com a câmara municipal e com algumas empresas”, mas reconhece que “algumas pessoas se mostram reticentes” com a localização na margem sul, o que considera ser ainda um “estigma”. Fátima Serralha, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, realça que a crise funciona também como uma motivação para o prosseguimento de estudos, não só como forma de “retardar o problema do desemprego”, mas também por haver já a convicção de que, “por terem mais habilitações, ficarão mais fortes e aptos para fazer novas apostas a nível profissional”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades o instituto conta apresentar no próximo ano letivo?

Fátima Serralha – Em relação às licenciaturas, vamos manter todos os cursos que foram promovidos este ano, de Gestão, Música, Psicologia, Engenharia Alimentar e Motricidade Humana. A nível do segundo ciclo, vamos apresentar um mestrado em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, que já funciona há três anos em Almada, mas em associação com o Instituto de Viseu. Temos ainda o mestrado em Processamento Alimentar e Inovação, que foi aprovado no início do ano letivo anterior, sendo esta uma oferta que reforça a área de Engenharia Alimentar.

Por outro lado, a nível de pós-graduações, temos uma novidade bastante rica na área da Psicologia da Saúde Ocupacional, que complementa tanto a área de Psicologia como a de Técnico Superior de Segurança e Higiene no Trabalho. Temos também uma nova pós-graduação de Investigação e Análise de Dados para as Ciências Sociais e Humanas e outra na área da Psicomotricidade, que acaba por ser a continuação da licenciatura em Motricidade Humana, no ramo de Motricidade e Reabilitação Psicomotora. Este curso tem, tal como o da Faculdade de Motricidade Humana, um reconhecimento pelo Fórum Europeu de Psicomotricistas, que confere uma profissionalização com o complemento do estágio que os alunos podem realizar na pós-graduação. Para além disso, temos ainda outra pós-graduação, aprovada recentemente, que é a de Desenvolvimento Motor na Criança. Este é um campo que se identifica muito com a linha do Instituto Piaget, porque junta as áreas da Educação e Motricidade Humana.

SR – Há uma perceção clara das saídas que estes cursos poderão ter?

FS – Sim, porque essa perceção acaba por ser também o reforço da nossa formação de base. Desta forma, pareceu-nos interessante afirmar áreas de excelência e, para tal, seria importante apresentar propostas que permitissem aos alunos dar continuidade à sua formação. Por exemplo, ainda não temos mestrado na área de Gestão e seria muito bom apresentar essa oferta. É muito importante para os estudantes que vêm para o primeiro ciclo verem que podem dar continuidade aos seus estudos, mesmo que o façam depois noutra instituição. Portanto, o facto de apresentarmos essas possibilidades já os orienta nesse sentido.

SR – A perceção que tem é que a maior parte das pessoas está a apostar em fazer os dois ciclos, licenciatura e mestrado?

FS – Sim, claramente. Isso tem que ver também com o facto de termos uma taxa de desemprego muito alta e os alunos aproveitam estas alturas de crise para apostar numa formação que, posteriormente, os possa diferenciar dos pares. É também uma forma de se prepararem para aceitar novos desafios.

SR – Ao darem continuidade aos estudos, os alunos tentam adiar o problema do desemprego?

FS – Parece-me que essa tem sido a postura dos jovens licenciados e dos que têm feito mestrado e doutoramento, e por isso é que o número de doutorados tem aumentado tanto. As pessoas vão apostando na formação por não haver emprego nas suas áreas e assim, enquanto estão a estudar, podem retardar o problema do desemprego. No entanto, penso que os alunos não veem essa possibilidade como apenas uma forma de adiar o problema, pois, quando prosseguem os estudos, fazem-no também porque realmente acreditam que, por terem mais habilitações, ficarão mais fortes e aptos para fazer novas apostas a nível profissional.

SR – E o mercado de trabalho valoriza essa formação extra do mestrado?

FS – Em Portugal, acho que os empregadores têm ainda um longo caminho a percorrer, mas já vão sendo preferidas as pessoas com o mestrado de Bolonha em relação às que têm apenas um primeiro ciclo. Em relação aos doutoramentos, tem havido incentivos, pelo que há uma maior aceitação de doutorados, nomeadamente a nível de indústrias. O Estado tem também promovido algumas estratégias que visam a admissão de pessoas mais qualificadas. Nos centros de investigação, e mesmo nas próprias universidades, foi lançada uma política para empregar doutorados, o que poderá fazer frente ao desemprego de pessoas com esta formação.

SR – Embora também se ouça falar de casos em que as pessoas são recusadas porque têm habilitações a mais.

FS – Há casos desses, evidentemente. Particularmente, neste instituto ainda não temos doutoramento e, por isso, não tenho essa perceção. Os mestrados que temos são profissionalizantes e são, portanto, uma condição para exercer a profissão, nomeadamente de psicólogo e de professor, mas, a minha perceção é que, cada vez mais, as pessoas apostam na sua formação. O que se passa em Portugal, hoje em dia, no meu ponto de vista, é que as pessoas, quando fazem o doutoramento, ainda estão a pensar em enveredar por uma carreira académica. No entanto, as organizações que conheço, que fazem desenvolvimento em Portugal, normalmente, vão integrando os doutorados. A questão é que, na maior parte das empresas, o desenvolvimento e inovação ocorre essencialmente no estrangeiro.

SR – Não faria mais sentido que os cursos de Professor de Educação Física e de Música estivessem na Escola Superior de Educação que funciona paredes meias com o ISEIT?

FS – A legislação diz que o ensino para o terceiro ciclo e para o secundário é promovido pelos institutos ou pelas universidades. Seguindo essa legislação, também as licenciaturas de base já são lecionadas no ISEIT.

SR – Como se gere a convivência no Piaget de Almada entre uma escola politécnica e um instituto universitário?

FS – As duas escolas partilham espaços, recursos humanos e a área da docência. Não há uma competição entre elas porque as áreas estão definidas pela própria legislação, e, uma vez que temos conseguido dar um apoio mútuo, esta parceria tem sido uma grande mais-valia.

SR – Não há uma diferença de “estatuto” por o ISEIT ser de ensino universitário e a ESE é politécnico?

FS – Não há essa diferenciação nem por parte dos alunos, porque são públicos-alvo, interesses e cursos diferentes. Apesar de as escolas terem um cariz diferente, acima de tudo, a identidade do Instituto Piaget, a qualidade do ensino e a excelência dos cursos é o que cada escola tenta promover. Penso que temos conseguido passar essa imagem.

SR – Sente que a imagem do Piaget nem sempre é a mais positiva?

FS – Os nossos alunos e docentes reconhecem a qualidade do ensino e a identidade do Instituto Piaget. A visão menos positiva que pode haver vem de pessoas que não conhecem o instituto, mas penso que isso está a mudar. É preciso tempo para desenvolver projetos, mas, neste momento, estamos numa fase muito boa.

O facto de sermos uma instituição pequena permite-nos manter contacto com os antigos alunos, que nos vão relatando situações e dando feedbacks positivos. A crise tem também ajudado a fortalecer esses contactos e temos sabido aproveitar essa ligação que nos permite levar outra imagem da escola lá para fora. Por outro lado, muitos convidados ou professores de outras instituições, quando nos visitam, ficam muito surpreendidos com a nossa forma de promover o ensino e com o nosso posicionamento nos processos de avaliação, e, portanto, temos recebido feedbacks muito positivos.

SR – A crise sente-se no dia-a-dia da instituição?

FS – Há já alguns anos que sentimos, aqui em Almada, uma grande redução no número de alunos. No entanto, este ano letivo a escola não sofreu nenhuma alteração no número de ingressos, mas tivemos algumas desistências, essencialmente, por dificuldades económicas.

SR – O facto de este instituto estar em Almada é também definidor das suas características, ou seja, é uma escola que se relaciona com a região?

FS – Sim, sem dúvida. Por um lado, muitas vezes, quando vamos apresentar os cursos ou tentar fazer parcerias com instituições, algumas pessoas mostram-se reticentes por estarmos localizados na margem sul e, infelizmente, verificamos que há ainda esse estigma. Seria importante para as duas cidades, Lisboa e Almada, estarem mais ligadas, porque acho que temos muito boas condições. Por outro lado, apesar de captarmos menos alunos da margem norte, estamos muito bem integrados neste concelho, porque termos também parcerias muito fortes com a câmara municipal e com algumas empresas.

Temos desenvolvido um projeto de gestão das actividades de enriquecimento curricular, que tem permitido empregar alguns dos nossos antigos alunos. Esta parceria também tem ajudado na implementação dos estágios nas escolas do concelho, uma vez que a nossa perspetiva é desenvolver a extensão da universidade à comunidade. Portanto, gostaríamos de, para o ano, ter alguns dos estagiários de Psicologia integrados numa clínica comunitária que estamos a tentar desenvolver. A ideia é promover serviços de psicologia a um custo muito mais barato ou mesmo sem qualquer custo. Estamos ainda a desenvolver uma associação de alunos e ex-alunos, chamada Piaget Junior Consulting, que vai permitir aos estudantes trabalhar com pessoas de áreas diferentes e poderá ser uma forma de aumentar a empregabilidade, na medida em que essa é uma das nossas preocupações.

SR – É possível traçar um perfil dos alunos que procuram este Instituto?

FS – Sendo uma instituição de ensino superior, o nosso objectivo é captar alunos que vêm pelo acesso normal, isto é, pretendemos que esses estudantes escolham o nosso instituto para estudar. Uma vez que apresentamos flexibilidade de horários, temos também no acesso pelos maiores de 23 anos um público muito importante que também nos tem procurado e pode estudar em regime pós-laboral.

SR – O que escolheria como argumento para alguém escolher o ISEIT?

FS – Muitos dos nossos alunos vêm por referência de outros que já cá estudaram e isso é sinal de que interiorizaram a identidade da instituição e adquiriram competências que lhes permitiram desenvolver muitos dos trabalhos que estão a promover. A imagem de qualidade de ensino tem sido comprovada pelos resultados obtidos, quer pelos feedbacksdos alunos e empregadores quer pelos próprios processos de avaliação que estão a decorrer, de carácter administrativo, académico e pedagógico, que vamos respondendo de forma positiva.