“A criação de redes é o futuro a nível de ensino superior”

“A criação de redes é o futuro a nível de ensino superior”

“Os recursos são cada vez mais escassos”, pelo que é necessário “aproveitar potencialidades de rede para diversificar e tornar a oferta formativa mais interessante para o mercado de trabalho”. Nesse sentido, a aposta da Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal vai no sentido de estabelecer parcerias, anunciando a criação de pós-graduações em conjunto com o Sines Tecnopolo e com o Instituto Politécnico de Leiria. A diretora da escola, Boguslawa Sardinha, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, considera “estratégica e importante a ligação com o mercado de trabalho”, com vista “a oferecer uma formação mais profissionalizada”. “Os alunos estão a apostar mais nos cursos que garantem empregabilidade” e a escola tenta-se posicionar de forma a “ajudar as empresas” dentro da sua área de intervenção.

Setúbal na Rede – Que novidades esta escola pensa apresentar no próximo ano letivo?

 

Boguslawa Sardinha – Para além da oferta formativa que já se encontra maioritariamente estabilizada, como as licenciaturas e os mestrados, estamos a lançar as pós-graduações, que contam com uma novidade na área de Marketing Turístico. Estamos também a trabalhar em conjunto com o Sines Tecnopolo no lançamento de duas pós-graduações, um MBA Executivo e outro em Negócios Internacionais. Esta é a nossa aposta estratégica, por isso estamos a tentar criar uma network que ligue as instituições e as empresas, para criarmos um novo posicionamento no mercado de oferta formativa, aliado também ao mercado de trabalho. Para além disso, estamos também a desenvolver uma pós-graduação em Contabilidade e Finanças Públicas, pois é um tema actual e muito pertinente.

SR Como chegaram a estas quatro novas propostas em termos de pós-graduações?

BS – A nossa aposta é criar ligações com outras instituições de ensino superior. Por conseguinte, o curso de Marketing Turístico tem que ver com o Instituto Politécnico de Leiria, nomeadamente com a Escola de Turismo e Tecnologia do Mar, e estamos a tentar desenvolver uma pós-graduação que poderá ter acesso ao mestrado em Peniche. Por outro lado, a nossa oferta formativa, em termos de finanças empresariais, está relacionada com o trabalho científico, bastante valorizado, que tem sido desenvolvido aqui na escola na área de contabilidade e finanças públicas.

SR – Qual a aplicação concreta da pós-graduação de Contabilidade e Finanças Públicas?

BS – Essa aplicação tem que ver com o facto de as regras contabilísticas e financeiras das instituições públicas serem um pouco diferentes em relação ao mercado em geral. Existem regras muito específicas que, com a situação que vivemos neste momento, têm de ser rigorosamente analisadas. Por conseguinte, existe, assim, uma grande necessidade de melhorar a formação das pessoas que trabalham nessas instituições, uma vez que os desafios são cada vez maiores.

SR – Será então uma pós-graduação dirigida a quem já está inserido no mercado de trabalho?

 

BS – Exactamente, pois temos em conta as necessidades específicas dos trabalhadores, não só da administração pública, mas de todas as instituições públicas, inclusive o Instituto Politécnico. Sabemos que estamos num período de contenção, mas é precisamente nestas conjunturas que as pessoas têm que investir numa formação que os consiga diferenciar dos pares. Portanto, é preciso pensar no futuro, nos conhecimentos que podem adquirir e na qualidade de trabalho que podem oferecer ao frequentarem este tipo de formação.

SR – A pós-graduação em Marketing Turístico e as de colaboração com o Sines Tecnopolo estão mais viradas para áreas de mercados em expansão?

 

BS – Nós consideramos o turismo, na nossa zona, uma questão fundamental e, portanto, deveria ser uma aposta estratégica. Por esse motivo, vamos lançar uma oferta formativa em parceria com alguém que já se encontra creditado, visto que a Escola de Turismo e Tecnologia do Mar é uma escola de renome no mercado do Turismo. Desta forma, pensamos que é uma boa aposta, uma vez que é uma área em expansão.

SR – Como se consegue articular dois politécnicos que se encontram afastados?

BS – Os estudantes que vão frequentar esta pós-graduação têm acesso ao mestrado em Leiria. Pretendemos organizar um ciclo de conferências e seminários em conjunto e convidar alguns docentes para visitarem a escola, para darem apoio a algumas unidades curriculares na área de turismo. Estes foram alguns dos pontos negociados aquando da elaboração da oferta formativa.

SR – Será viável para esses estudantes a deslocação a Leiria para fazer esse mestrado?

BS – A parte curricular, que exige presença nas aulas, é feita no Instituto Politécnico de Setúbal. Por outro lado, a parte da investigação poderá ser acompanhada à distância, por isso não implica uma deslocação semanal tão frequente.

SR – A colaboração entre politécnicos poderá ser uma nova realidade?

BS – Sim, porque o trabalho individual, hoje em dia, é completamente impossível e inviável. A criação de redes é o futuro a nível de ensino superior em Portugal. Os recursos são cada vez mais escassos, por isso temos que aproveitar potencialidades de rede para diversificar e tornar a oferta formativa mais interessante para o mercado de trabalho. Penso que é uma questão de tempo, mas quanto mais depressa adoptarmos este modelo de trabalho, mais rapidamente conseguiremos distanciar-nos da concorrência.

SR A colaboração com o Sines Tecnopolo evidencia também uma abertura, em termos de expansão territorial, que não era habitual no politécnico. Há essa perspectiva de conquistar espaço territorial?

BS – Não tem que ver com conquista, mas sim com cooperação. Existem necessidades num determinado espaço e competências noutro. Portanto, é uma questão de juntar as vontades e oferecer algo mais adaptado, diferenciado e interessante ao potencial estudante. A colaboração com o Sines Tecnopolo já existe há algum tempo, pois já lá tivemos um MBA Executivo a funcionar. Considero estratégica e importante esta ligação com o mercado de trabalho, é um posicionamento futuro, visto que estamos a oferecer uma formação mais profissionalizada e estamos também a mostrar alguma flexibilidade.

SR – Pode então dizer-se que a ESCE é uma escola bem integrada na região?

 

BS – Sim, sem qualquer dúvida, atendendo à origem dos nossos estudantes e onde trabalham. Temos que procurar oportunidades e oferecê-las ao mercado, pois os politécnicos têm um papel fundamental no desenvolvimento local e regional. Há que criar a oferta e os recursos humanos adequados às necessidades da região. Essa é a nossa missão.

SR – É feita uma monitorização da região por parte da escola?

 

BS – Felizmente, temos tido muitas ligações com o mercado de trabalho, principalmente porque oferecemos estágios e, desta forma, os alunos têm um contacto directo com as organizações. Organizamos também feiras de empresas, que obrigam a que as mesmas se desloquem à escola. Os nossos alunos têm também trabalhado nas empresas de região e, por isso, existe uma ligação quase pessoal. Queremos ir ao encontro das organizações para saber as necessidades que existem, de modo a criar uma oferta formativa dentro da nossa área de intervenção, que é bastante alargada.

SR – Quando diz oferta dirigida ao mercado, não está só a falar de ofertas que passam pelo ensino tradicional?

BS – Não, refiro-me também aos cursos breves, pequenas formações, entre outras. Estamos a estudar várias oportunidades e estamos interessados em preparar uma oferta à medida. De acordo com a necessidade do mercado, que é um dos aspetos que considero que seja do nosso interesse, pretendemos ajudar as empresas dentro da nossa área de intervenção.

SR – Como tem sido a colocação dos diplomados desta Escola?

BS – A escola é relativamente nova, mas os nossos alunos assumem uma posição de destaque, pois o Instituto Politécnico de Setúbal é reconhecido no mercado de trabalho. Temos bastantes alunos que trabalham na região, no distrito de Setúbal, e outros que estão a fazer carreira no estrangeiro.

SR – Como vê o posicionamento desta escola em relação à concorrência?

BS – Penso que os nossos diplomados já mostraram que conseguem competir nos mercados nacionais e globais. Em termos de mobilidade internacional, os nossos alunos têm tido bastante sucesso. Não são só as competências científicas, que são inquestionáveis, mas também as competências sociais, que aqui adquirem, são importantes no mercado de trabalho. É uma escola reconhecida a nível nacional, pela competência dos nossos diplomados.

SR – O facto de ser um politécnico não constitui ainda um estigma?

BS – Penso que existem realmente empresas que escolhem pela instituição de ensino, pois existem escolas de grande prestígio, a nível nacional, mas o que distingue os nossos diplomados das outras escolas é o “saber fazer”. Esse aspecto dá outras garantias aos potenciais empregadores. Penso que o estigma funciona um pouco ao nível de entrada na empresa, mas, no mercado de trabalho, temos tido um reconhecimento significativo dos nossos diplomados. É uma situação que persiste, mas isso não se tem verificado, visto que alguns dos nossos diplomados já são a primeira escolha e não a segunda.

SR – Consegue definir o perfil de um aluno que procura a Escola Superior de Ciências Empresariais?

BS – Temos cinco cursos diurnos e três que funcionam em regime pós-laboral e os alunos são todos ligeiramente diferentes. No entanto, conseguimos ver as percepções individuais, os comportamentos, as sensibilidades e as suas expectativas. A grande diferença poderá ser o facto de os nossos alunos terem a iniciativa e a capacidade de apostar e aceitar desafios.

SR – São alunos mais pragmáticos, na medida em que os cursos que a escola oferece têm que ver com as apetências do mercado, com a perspectiva de sucesso no mercado de trabalho?

BS – Penso que a expectativa em termos de empregabilidade é um dos aspetos que poderá influenciar as escolhas. Muitos dizem que é mais fácil ir para Gestão do que para Engenharia, mas, neste momento, existe alguma inversão dos papéis, pois temos alguns alunos que vêm melhor preparados, com um nível de conhecimentos, por exemplo, na área da matemática, bastante significativo. Contudo, penso que a avaliação dos mercados exerce uma grande influência nas suas escolhas. Por outro lado, o reconhecimento da escola e dos diplomados também é um aspecto positivo.

SR – A crise económica que temos vivido tem interferido com o perfil dos estudantes ou com o próprio direccionamento dos cursos?

 

BS – Penso que os alunos estão a apostar mais nos cursos que garantem empregabilidade. No entanto, a crise pode ser vista como uma oportunidade, associada à necessidade de se diferenciarem dos outros concorrentes no mercado de trabalho. Há realmente um indicador económico que pode inviabilizar a matrícula dos potenciais estudantes. Com efeito, nos dias de hoje, existe alguma tendência a que o ensino se comece a tornar novamente elitista. Esse é um aspecto muito grave, pois o ensino é uma forma de mobilidade social. Mas temos muitos alunos no regime pós-laboral que já se encontram no mercado de trabalho e voltam a estudar para se diferenciarem.

SR – Numa altura em que o sistema público está a ser repensado, nomeadamente o ensino, esta escola está tranquila em relação ao futuro?

BS – Não estamos tranquilos, evidentemente, nem podemos estar. Aliás, a tranquilidade no mercado de trabalho é uma coisa prejudicial, pois temos que estar atentos e tentar criar as oportunidades. Temos consciência das dificuldades que o futuro nos reserva, mas estamos a trabalhar no sentido de diminuir esses impactos.

SR – Como é que os indicadores desta escola permitem olhar para o futuro?

BS – Praticamente todos os nossos cursos foram avaliados, pois já só falta um. Apesar de termos recebido poucas avaliações, até agora, temos tido feedbacks positivos e isso dá-nos algum conforto. Obviamente que a avaliação tem sempre indicações de melhoria, que agradecemos bastante, pois o nosso objectivo é melhorar as possíveis falhas. Em relação à entrada dos alunos, não temos tido problemas, uma vez que, no ano passado, esgotámos todas as vagas e tivemos ainda mais candidatos, principalmente a nível das candidaturas de maiores de 23 anos. O financiamento é feito não só em termos de número de alunos, mas também em função de outros indicadores.

SR – O que escolheria como imagem de marca desta escola?

BS – A flexibilidade, a abertura, o pensamento out of the box, a criação de redes e a internacionalização. A nossa escola tem bons indicadores ao nível da mobilidade. Mas queremos melhorar ainda mais. Temos uma oferta formativa em inglês, que constitui uma vantagem competitiva a nível do IPS. Mas quero reforçar que gostávamos de trabalhar mais em projetos internacionais.