“O CNC é o futuro e uma mais-valia”

“O CNC é o futuro e uma mais-valia”

“Quem tira este curso é um técnico altamente qualificado e, portanto, é muito pouco provável que depois tenha empregos precários, pois é uma área que garante empregabilidade”. A garantia é do coordenador dos cursos de Técnico de Maquinação e Programação CNC na ATEC, que coordena igualmente o curso de Técnico de Manutenção Industrial que “procura dotar os futuros técnicos com conhecimentos amplos, apostando-se fortemente nas componentes de mecânica, eletrónica e informática”. António Mouta, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, reconhece que “há uma certa dificuldade” em conseguir candidatos para estes cursos, “uns por falta de conhecimento e outros porque acham que a mecânica é uma atividade suja, o que já não corresponde bem à realidade”. O formador explica ainda que “os jovens têm mesmo que estudar”, porque os cursos têm uma componente teórica e “é preciso ter uma grande destreza mental”.

“Setúbal na Rede” – O que faz profissionalmente alguém formado em Manutenção Industrial?

 

António Mouta – O formando que frequenta o curso de Técnico de Manutenção Industrial sai preparado para desenvolver as suas competências nas áreas de automação, robótica, soldadura, electricidade e alguma parte de CNC. O curso abrange a área da manutenção industrial, na reparação, na montagem e criação de novos componentes. O seu carácter amplo permite que os formandos tenham uma formação transversal em diversas áreas.

SR – Este curso implica a polivalência?

 

AM – Antigamente, havia sempre um gabinete de manutenção onde se podia encontrar um especialista em cada uma dessas áreas. Hoje em dia, as empresas não podem ter um técnico para cada sector, pois é um investimento muito grande, pelo que tentamos rentabilizar ao máximo de modo a haver polivalência. Ao nível da manutenção, usa-se cada vez mais a substituição dos equipamentos, ou seja, quando verificamos uma avaria, substituímos o aparelho por outro e, entretanto, os técnicos reparam-no para poder ser reutilizado em caso de avaria de outro equipamento. Para além disso, actualmente, temos também a possibilidade de resolver as coisas através do telefone ou da internet, e os nossos técnicos têm essa polivalência, porque, no geral, todos têm conhecimentos transversais nas áreas necessárias ao sector da manutenção.

SR – A intervenção de um técnico de manutenção também é hoje diferente porque é tudo mais modular, bastando substituir uma peça por outra.

 

AM – Sim, há situações em que a máquina deixa mesmo de funcionar e a reparação tem que ser feita na hora, pois não convém que fique muito tempo parada, porque implica também uma paragem na produção. Hoje, é possível fazer encomenda de certos equipamentos em que o pedido pode ser satisfeito em 24 horas ou então podemos tê-los em stock, mas nas avarias mais graves é, realmente, necessário chamar o técnico. Portanto, um profissional da área de manutenção industrial com pouca experiência pode fazer a primeira intervenção na reparação do equipamento, mas, quando se trata de um problema mais grave, é chamado o técnico que trabalha no sector há mais tempo, porque já conhece muito bem a maquinaria e, portanto, tem uma polivalência muito grande e específica.

SR – É verdade que há cada vez menos mecânica e mais electrónica?

 

AM – Neste caso específico, estamos a falar de diversos tipos de equipamentos de grande porte, como, por exemplo, as máquinas de soldar e fresadoras, que têm uma forte componente electrónica. Estamos também a falar de linhas de montagem bastante grandes, como as de produção de automóveis e de outros equipamentos que são produzidos em grande escala. No caso dos automóveis, há realmente mais electrónica do que mecânica, mas cada vez há mais pessoas que sabem trabalhar com o sistema electrónico. No caso das avarias que podem ser resolvidas via online, normalmente, as máquinas estão ligadas através dos sistemas de internet e quando há uma avaria, com as autorizações que as marcas têm para entrar nos sistemas internos das empresas, é possível detectar e resolver o problema. Portanto, a formação nesta academia procura dotar os futuros técnicos com conhecimentos amplos, apostando-se fortemente nas componentes de mecânica, eletrónica e informática.

SR – Qualquer jovem apreende facilmente todos esses ensinamentos?

 

AM – Depende das situações. Há uma certa dificuldade em conseguirmos candidatos para estes cursos, uns por falta de conhecimento e outros porque, apesar de saberem o que faz um técnico de maquinação industrial, ainda acham que a mecânica é uma atividade suja, o que já não corresponde bem à realidade. Portanto, essa falta de conhecimento dos jovens leva-os a escolher cursos mais mediáticos. Nesta zona, tendo em conta o grande potencial fabril que existe, felizmente, há um conhecimento mais vasto sobre essas áreas e os jovens mais informados inscrevem-se com essa motivação e também porque têm familiares que trabalham no sector. Mas alguns alunos vêm, muitas vezes, ao desconhecido, pois pensam que podem gostar da área. Por outro lado, os próprios pais tentam aconselhá-los a escolher uma profissão que garanta empregabilidade. O grande problema é que os jovens têm mesmo que estudar, porque o curso tem uma componente teórica e é preciso ter uma grande destreza mental.

SR – Que balanço faz no geral?

 

AM – No geral, entre aqueles que vêm com algum conhecimento e com vontade de aprender a profissão e aqueles que vêm com incertezas, conseguimos ter, numa turma, um aproveitamento médio ou elevado na ordem dos 70 por cento. Alguns jovens, apesar de fazerem algum sacrifício, porque não é bem o que gostam, empenham-se e, normalmente, conseguem ter bons resultados. Nós tentamos sempre motivá-los e, muitas vezes, nesse processo, temos a ajuda dos pais.

SR – No que é que se baseia o curso de Maquinação e Programação CNC?

 

AM – Antigamente, as máquinas trabalhavam com a destreza manual dos técnicos, porém, hoje em dia, com a complexidade das peças, com a evolução tecnológica e todos os aspectos de design, houve a necessidade de colocar as máquinas em funcionamento automático, isto é, tornou-se essencial associar o computador à máquina mecânica. Portanto, o que este técnico aprende a fazer manualmente, com a ajuda do movimento mecânico da máquina, é programar uma peça com todos os pormenores da sua forma complexa. Ou seja, através da programação informática, que está em código, o especialista transforma o formato da peça em linguagem da máquina, escolhe e aplica as ferramentas, prepara todo o bloco de material onde vai ser feita a peça e, por fim, a máquina executa-a de forma perfeita. O técnico tem que ter atenção ao dimensionamento, porque as peças tem tolerâncias muito específicas. Todo este processo depende muito da capacidade técnica e intelectual do programador, pois tem que executar a forma correcta do objecto e escolher a programação adequada à máquina.

SR – Exige muita capacidade intelectual?

 

AM – Exige uma grande capacidade intelectual técnica. Programar não é complicado, mas necessita que o técnico tenha raciocínio lógico e capacidade de percepção em termos de visualização e saiba analisar desenho técnico, porque, muitas vezes, não temos a peça física para ver e é preciso imaginá-la noutras dimensões. A partir desses domínios, o formando pode fazer toda a programação.

SR – Os jovens nestas idades trazem essa capacidade já desenvolvida?

 

AM – Não propriamente. Podem trazer um raciocínio lógico que lhes permite navegar na internet e utilizar o computador, mas não é bem a mesma coisa. Aqui, eles têm que analisar e fazer a peça de acordo com uma determinada sequência lógica, a nível técnico. Depois desse procedimento, a fase que se segue é a da programação e, por vezes, não têm essa capacidade, porque também são muito novos e estão habituados a um ensino que não é técnico. No entanto, o curso está ao alcance de todos, só depende do empenho e dedicação dos formandos.

SR – Este curso oferece garantias de empregabilidade?

 

AM – A empregabilidade existe, só que já não é nos mesmos termos de antigamente, devido, em parte, à situação frágil do país. Apesar de haver muitas indústrias na região ligadas à Maquinação e Programação CNC, é a nível nacional, nomeadamente no norte de Lisboa, Leiria, Águeda e mesmo Porto e Braga, que se regista uma grande procura nesta área. Aqui na nossa região, também temos algumas fábricas que empregam os nossos formandos. Ultimamente, também nos têm chegado pedidos de multinacionais para integração dos nossos formandos em unidades fabris na Europa, principalmente na França e Alemanha

SR – E os outros formandos estão disponíveis para se deslocarem para longe?

 

AM – O problema é, precisamente, a disponibilidade dos formandos para ir para longe, porque ainda são muito novos e os pais também mostram alguma preocupação e apreensão nesse sentido. Alguns jovens são capazes de arriscar e aceitar propostas fora da sua área de residência se tiverem familiares a viver nas regiões onde há mais ofertas de emprego. Por outro lado, o salário também pode ser uma motivação e pode compensar a deslocação, embora não seja assim tanto como às vezes se pensa. Um técnico pode auferir vencimentos entre 900 e 1300 euros, num contexto já bastante bom. No entanto, quando começam a trabalhar, as condições são outras, evidentemente, porque ninguém oferece um ordenado médio a um jovem que acabou o curso sem, ao menos, conhecer as suas capacidades e a sua postura a nível profissional.

SR – O facto de serem formandos da ATEC oferece alguma garantia aos empregadores?

 

AM – Sim, percebemos que há uma grande preferência pelos nossos formandos através dos feedbacks que vamos recebendo das empresas com as quais colaboramos a nível da formação prática em contexto de trabalho, não só pela capacidade técnica, como pela atitude de humildade que denotam, pois estão sempre dispostos a trabalhar e a aprender. Neste momento, recebemos com alguma frequência vários pedidos de empresas, a nível nacional e internacional, de formandos nossos. Algumas multinacionais pedem-nos formandos com determinadas características para irem trabalhar na França, mas alguns têm sido colocados também na Suíça. Portanto, embora alguns vejam a distância como uma barreira, muitos são integrados nessas empresas.

SR – A humildade e a vontade de aprender são capacidades também treinadas aqui?

 

AM – Sim, treinadas e desenvolvidas. Hoje em dia, os jovens vêm com poucos valores de trabalho. Aqui, são habituados desde cedo a arrumar os laboratórios onde trabalham, de forma a deixar o ambiente de trabalho limpo e apresentável para os outros colegas. Portanto, tentamos sempre formar um técnico polivalente e proactivo, preparado mentalmente por nós para se adaptar às mais diversas situações. Como disse, notamos que muitos jovens não trazem consigo valores de trabalho nem civismo e é isso que nós queremos incutir. Portanto, são essas qualidades que distinguem os nossos formandos nas empresas.

SR – Dos jovens que aqui passam, há quem siga os estudos no ensino superior?

 

AM – O nosso objetivo é fazer com que os formandos percebam que têm que estar em constante evolução e saber o que há de novo. A nível profissional, se for necessário o estudante tirar um curso superior para melhorar as suas capacidades, deve fazê-lo. A nível escolar, também incutimos que o saber não ocupa lugar, ou seja, quantas mais habilitações literárias um formando tiver, melhor. É evidente que têm que analisar a rentabilidade do curso superior em termos de futuro, mas não podem nunca afastar essa possibilidade.

SR – Que argumentos pode utilizar para cativar formandos para estes cursos?

 

AM – Há dificuldades nos dois cursos, mas o de Manutenção Industrial é o que tem mais inscritos, porque as pessoas pensam que é mais fácil de perceber. Por outro lado, o curso de Maquinação e Programação CNC é muitas vezes associado aos computadores, mas a sua base é a máquina. Portanto, o que nós fazemos para cativar os candidatos é mostrar que, de facto, o CNC é o futuro e uma mais-valia, na medida em que não são só as máquinas de produção que utilizam peças de alta definição. Quem tira este curso é um técnico altamente qualificado e, portanto, é muito pouco provável que depois tenha empregos precários, pois é uma área que garante empregabilidade. Nós recebemos muitos pedidos de várias empresas a nível nacional para Técnico de Maquinação e Programação CNC e, muitas vezes, não temos respostas para essa procura, porque realmente poucas pessoas apostam neste curso.