“A educação física tem um papel fundamental”

“A educação física tem um papel fundamental”Através da educação física a criança pode “aprender conceitos que vai aplicar ao longo da vida” e, por isso, é fundamental que exista nos planos curriculares. A coordenadora da licenciatura em motricidade humana do Instituto Superior de Estudos Interculturais e Transdisciplinares do Piaget de Almada considera que, com a educação física, as crianças vão “aprender a estar em grupo, a colaborar, a partilhar e a tomar decisões com o grupo”, capacidades de que vai precisar “ao longo da vida”, mas que lhe estão a ser negadas “porque os pais têm muitos medos”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Amália Rebolo Marques defende igualmente a importância do recreio e sustenta que os professores deviam passear de vez em quando nesse espaço, porque “conheciam melhor os alunos e descobriam que os miúdos não são exatamente o que são na sala de aula”. A docente, que coordena igualmente o mestrado em ensino da educação física, faz questão de explicar que “a motricidade humana é uma coisa para lá do corpo” pelo que os alunos do Piaget saem “não apenas formados em educação física ou especialistas em desporto, mas a ver para além disso”.

“Setúbal na Rede” – Qual a importância que tem a educação física no percurso escolar das crianças?

 

Amália Rebolo Marques – Acredito que os nossos programas de educação física, que estão feitos de forma a acompanhar a criança desde o primeiro ciclo até ao 12º ano, apesar de estarem muito focados nos desportos coletivos, têm coisas muito boas como, por exemplo, haver desde o primeiro ano de escola. E já no pré-escolar existem referências ao corpo nas orientações curriculares, porque a criança aprende com o corpo. A educação física tem um papel fundamental, especialmente ao nível do ensino básico, porque a criança pode aprender conceitos que vai aplicar ao longo da vida, como a questão da socialização. Se ela aprender a estar em grupo, a colaborar, a partilhar e a tomar decisões com o grupo, ela vai ter isso ao longo da vida. A educação física não é chutar uma bola ou fazer uma cambalhota, mas muito mais do que isso. E não estou a falar das questões da saúde porque isso é para os médicos. Mas a criança precisa de ter hábitos de vida ativa, de brincar, correr, saltar e utilizar objetos sem ter alguém que lhe diga que pode cair, porque caso contrário não aprende sequer a correr para apanhar um autocarro.

SR – É diferente hoje a forma como as crianças lidam com o exercício físico?

 

ARM – As crianças estão hoje muito limitadas na sua ação porque os pais têm muitos medos. Então as crianças ficam em casa e os pais estão descansados quando ela está em frente à televisão ou no computador, porque está quietinha e não corre o risco de cair, não tropeça ou não dá uma cabeçada. Mas está em risco de se tornar uma pessoa com muitos perigos de saúde, porque somos um corpo biológico, uns animais, e se não nos mexermos não vamos aprender sequer a lidar com o nosso corpo. Se a criança não aprender a tropeçar e a reagir ao tropeção, quando tropeçar aos 18 anos cai, mas se aprender aos quatro a tropeçar, pode cair a primeira vez mas à segunda já não cai. Ela vai treinar na sua cabecinha uma série de soluções para a pedra no caminho, para o tropeção e para o jogo com os outros.

Quando vimos as crianças a jogar a apanhada, elas estão também a treinar os seus músculos e a fazer preparação física. Um bebé precisa de tentar equilibrar-se, mas se a sala estiver vazia, ele só se vai levantar quando tiver força nos músculos para tal. Mas se tiver uma cadeira, ele vai levantar-se com aquela ajuda e vai descobrir que afinal o mundo é um bocadinho maior e então vai tentar andar para outra cadeira e descobrir mais alguma coisa. A evolução também acontece assim, em termos históricos, se não continuávamos a morar em cavernas e a atirar pedras ao vizinho.

SR – E não estamos a falar só do tropeção físico mas também em sentido figurado?

 

ARM – Podemos falar do tropeção físico mas também de outras dificuldades que a vida nos vai colocando e com os quais a criança tem que aprender a tomar decisões. A criança que for educada pela televisão corre o risco de tomar decisões em função da televisão e não em função da sua capacidade. Eu dou muita importância ao recreio, precisamente porque é onde ela vai usar a sua capacidade de decisão, sozinha ou com os amigos, sem ninguém a impor.

Costumamos dizer que a educação física é mais aberta, porque estamos a trabalhar com as crianças de uma forma diferente, mais livre, mas é o professor que controla. Posso dizer que são os alunos que escolhem os grupos e ficam todos contentes, mas quando o professor escolhe vai impedir aqueles quatro de ficar juntos porque vão dominar e os outros não fazem nada. Quando se usa a sociometria para identificar os alunos que são mais escolhidos, os que são excluídos ou aqueles que nunca ficariam juntos se não forem obrigados, vou promover melhores ou piores interações e incentivar trabalhos de cooperação entre alunos que nunca ficariam juntos. A educação física pode ajudar também a fazer isso.

SR – O que é a sociometria?

 

ARM – A sociometria é uma ciência que utiliza um questionário que pode ser muito básico e ser utilizado em qualquer circunstância em termos de grupos de pessoas. Perguntamos diretamente quem são as pessoas com que gostava de trabalhar ou, no caso das crianças, quem são os amigos com quem gostam de brincar e quem são os colegas da turma com quem não gostam de brincar e aí ficamos a saber quais são algumas uniões muito fortes. Em geral, as crianças escolhem-se mutuamente uma à outra em primeiro lugar quando são amigos, mas também acontecem coisas estranhas como aquela criança que alguém escolhe em primeiro lugar rejeitar essa mesma criança que a escolheu. Aí podemos ter questões complicadas de interação e vamos ter que trabalhar isso.

SR – E tem sido utilizado na escola?

 

ARM – Não tem sido muito utilizado na escola, mas no instituto estamos a motivar os alunos para utilizarem em termos de investigação e tivemos bons trabalhos finais de licenciatura de alunos que utilizaram o teste sociométrico para a identificação de ligações fortes e fracas nas turmas e de trabalho cooperativo que depois conseguiram mostrar que a metodologia era excelente para nos ajudar a gerir o clima na sala de aula. Se temos uma turma conflituosa e queremos trabalhar o bullying, não se pode chegar e perguntar quem são as vítimas e os agressores porque eles não dizem, mas posso fazer um questionário do tipo sociométrico anónimo.

SR – Que utilidade um trabalho deste tipo pode ter no dia-a-dia de uma escola?

 

ARM – Geralmente evitamos que sejam os alunos a fazerem os seus grupos de trabalho porque eles perdem muito tempo e na educação física temos duas questões que nos preocupam que é poder formar grupos conforme os objetivos mas sem juntar dois alunos que não se suportem e aí a sociometria ajuda-me a evitar isso. Se junto duas pessoas que não se podem ver, vou ter uma guerra naquele grupo e vão estragar o trabalho da turma. Já vi um estagiário a perder dez minutos numa aula porque deixou os miúdos escolherem e criaram-se conflitos. Só temos aquele tempo de aula, temos que o aproveitar, tem que ser tempo de aprendizagem, tempo útil, quer seja para a parte motora quer seja para a parte cognitiva, e perder tempo com estas questões é um disparate.

SR – Há professores a fazerem este trabalho com as turmas?

 

ARM – Alguns diretores de turma fazem, mas depois é pouco passado aos colegas. Isso acontece porque as pessoas associam isto a mais um trabalho, mas eu considero mais uma informação que vai ser útil no meu trabalho. Se conhecer melhor os grupos com que vou trabalhar, vou poder promover melhores aprendizagens e perco menos tempo a gerir as questões disciplinares. As pessoas não dão importância nenhuma ao recreio mas se não lhe dermos atenção vamos ter imensos conflitos que vão promover meia hora de discussão a seguir dentro da sala de aula. Isso evitava-se colocando alguma coisa com que eles possam estar ocupados e alguém com vontade de estar com eles, que pode ser um animador, um auxiliar de ação educativa ou um professor.

Era bom que os professores passeassem de vez em quando no recreio porque conheciam melhor os alunos e descobriam que os miúdos não são exatamente o que são na sala de aula. Por exemplo, temos alunos excecionais na sala de aula, alunos de topo, sempre de braço no ar e de caderno limpinho, e no recreio se os outros não fazem o que eles querem levam pancada. O professor não sabe disso porque os alunos não contam uma vez que têm receio. Não podemos invadir aquele espaço armados em polícias, até porque a vítima não quer sentir que alguém pode ser vítima por causa dele ou ficar marcado como vitima. Mas se andarmos por lá de forma positiva vamos evitar muita coisa. A experiência das escolas onde já implementámos alguns projetos de animação de recreios é que as crianças começam a interagir melhor entre elas.

SR – Existem programas de animação de recreios?

 

ARM – Existe mas só quando há vontade de o fazer. O programa de animação de recreios é uma coisa muito simples, pois basta ter alguém com vontade de chegar à caixa de materiais e pô-los cá fora. Podemos ter todos os tipos de materiais que eles utilizam de forma muito positiva, como algumas cordas. Se a escola for um espaço completamente vazio eles só têm o corpo para brincar e não me importo que eles brinquem à apanhada porque estão a treinar técnicas de marcação e desmarcação que vão ser ótimas para os jogos desportivos coletivos.

Mas também temos escolas onde eles não têm nada mas também não lhes deixam fazer o jogo da apanhada porque não querem que eles se mexam. As pessoas esquecem-se que foram crianças e não percebem que se a criança está parada está a estagnar. A criança tem que brincar e aprende com a brincadeira. Se a criança tiver prazer no que está a fazer ela vai aprender, vai fazer mais e vai querer mais. Por exemplo, pode-se ensinar geometria com dança e é por isso que a educação física é importante se o professor tiver essa preocupação de formação. É claro que dá muito mais trabalho mas discute-se menos com os alunos e temos menos problemas disciplinares se tivermos a preocupação de ter mais situações de prazer com a turma.

SR – Esta mensagem é transmitida aos alunos do Piaget?

 

ARM – Temos alunos que saem daqui fãs de algumas das nossas mensagens, como a questão do brincar e do prazer. Alguns seguem o percurso de treino e vão ter o prazer de ser treinadores de pessoas que escolheram aquela modalidade, mas temos outros que vão querer trabalhar em escolas e vão querer passar esta mensagem.

Eles saem daqui com essa formação, de que o desenvolvimento motor não é só até aos seis anos mas que era bom que aos seis anos as crianças soubessem correr, saltar, agarrar, passar uma bola, mas aos dez algumas não sabem correr e aos vinte vão tropeçar nos pés. E temos que nos preocupar com as pessoas ao longo da vida e também da terceira idade, porque temos pessoas a ir aos ginásios e a aulas de natação com oitenta anos e que se sentem bem. Temos agora o risco de os nossos jovens não chegarem lá porque estão mais inativos, estão muito mais parados, mas temos que lhes mostrar que têm que se mexer.

SR – Quem procura os cursos de educação física são geralmente pessoas desportistas por natureza?

 

ARM – Não têm que ser, mas são pessoas que vêm à procura de alguma coisa naquilo em que se sentem bem. Mas o curso é de motricidade humana, que permite ver para além da educação física e do desporto. O movimento humano não é apenas o corpo, temos que concordar com o professor Manuel Sérgio que é o pai desta ideia, e nós queremos que eles saiam daqui com essa consciência. Esse professor tem uma frase chave que diz que “para ser treinador de futebol não se pode saber só de futebol”.

Eu falo do movimento e da ação e quero que eles se mexam, mas não sou contra irem ao

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nem contra fazerem jogos eletrónicos, pois estes jogos estimulam alguma coisa na motricidade fina, na velocidade de reação e na tomada de decisões. Mas sou contra estarem horas à frente da televisão ou horas no computador.

A motricidade humana é uma coisa para lá do corpo pelo que queremos que os alunos saiam não apenas formados em educação física ou especialistas em desporto, mas a ver para além disso. Eu não fico descansada com um aluno que me diz que o dez chega porque quero que eles sejam realmente competentes naquilo que estão a fazer porque estão a trabalhar com pessoas. Se provocarmos uma lesão numa criança de seis anos podemos prejudicá-la para o resto da vida e os alunos têm que sair daqui com essa noção do risco.