“Conhecemos todos os alunos pelos seus nomes”

“Conhecemos todos os alunos pelos seus nomes”

“A grande vantagem” de ser uma escola pequena “está relacionada com a questão da proximidade”, o que permite uma entreajuda muito grande, sempre que há “possibilidades para isso”. Por outro lado, “a dimensão da escola obriga” a que a formação ministrada “necessite de poucos recursos em termos de equipamentos”. A orientadora educativa do curso de Técnico de Turismo da Escola Profissional Cristóvão Colombo considera, ainda assim, que o tamanho da escola “não levanta nenhuma desconfiança por parte das empresas quando se trata de acolher estagiários”. Alda Cabral, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, revela que o curso “tem sido muito procurado porque os alunos acreditam que tem saída profissional, uma vez que o país está orientado, em parte, para o turismo”.

“Setúbal na Rede” – Que tipo de procura tem o curso de Técnico de Turismo?

Alda Cabral – O curso tem sido muito procurado porque os alunos acreditam que tem saída profissional, uma vez que o país está orientado, em parte, para o turismo. Para além disso, o que os leva a escolher esta oferta formativa é o seu carácter mais amplo, pois os alunos podem trabalhar também noutras áreas e não exclusivamente no turismo. Por exemplo, na área da comunicação, eles podem colaborar como técnicos e ajudar nas tarefas de assessoria de imprensa. Podem ainda trabalhar na receção de um hotel, na área de alimentação e bebidas, na organização de eventos turísticos, na área de animação, entre outras. Portanto, dependendo da área que querem seguir, cada um faz o seu futuro e, normalmente, têm conseguido seguir um percurso ligado ao curso.

SR – Dos alunos que já aqui passaram, qual tem sido o percurso mais habitual?

AC – Penso que a maior parte exerce na área em que fez a formação profissional. Muitos alunos conseguem trabalho em hotéis e na restauração, mas depende muito dos interesses de cada um, daquilo que querem fazer profissionalmente. Às vezes, os jovens não sabem bem o que querem e, nesse caso, o nosso papel é encaminhá-los na melhor direção e, normalmente, vão à luta. Por outro lado, como têm estágio durante o curso, acabam por orientar-se em termos profissionais. E é curioso que, nos estágios, eles apresentam melhores resultados do que na escola, porque são esforçados e empenhados e veem aí o início do seu percurso profissional. Portanto, surpreendem-nos sempre pela positiva, pois só precisam de orientação.

SR – As empresas que os recebem em estágio estão preparadas para os orientar?

AC – Nesse campo, penso que ainda há um caminho a percorrer, pois devia haver um empenho maior entre os tutores das empresas e a escola, no sentido de procurar saber mais sobre o aluno em questão. Penso que assim seria mais benéfico para o aluno e para a empresa. No entanto, no geral, há uma abertura das empresas para receber estagiários e, nesse sentido, não temos razão de queixa.

SR – Como é a relação da escola com as empresas da região?

AC – Também poderia haver uma maior ligação, isto é, a escola deveria aproximar-se mais das organizações e o mundo empresarial poderia contactar mais o professor orientador. No entanto, penso que isso está relacionado com facto de sermos uma escola pequena. Enquanto orientadora educativa, trabalho mais com a parte pedagógica, em termos da relação do aluno com a escola e com os pais. A coordenadora do curso, por sua vez, tem mantido um contacto bastante aberto e muito prestável com as empresas.

SR – E a escola consegue adaptar a oferta formativa às necessidades reais do mercado de trabalho?

AC – Penso que sim. A escola não tem muitas condições, porque é pequena e não podemos ter aqui, por exemplo, um curso de metalomecânica, a não ser que os alunos fizessem a parte prática do currículo fora das instalações. Ou seja, teríamos que adaptar o curso de maneira a que os estudantes fizessem a parte teórica na escola e a parte prática no ambiente de trabalho. Essa solução poderá até ser uma perspetiva de futuro, porque a dimensão da escola obriga realmente a que a formação que aqui damos necessite de poucos recursos em termos de equipamentos.

SR – O plano curricular do curso de Turismo consegue reflectir as mudanças que acontecem no mundo do trabalho?

AC – Sim, cada formador tem essa obrigação e é uma responsabilidade que temos que assumir. A escola, a direção e os formadores têm muito essa preocupação. Pessoalmente, estou sempre à procura do que é mais atual e tento fazer com que os alunos estejam a par das novidades, para que saibam qual o melhor caminho a seguir. Quase todos os professores e formadores têm uma ligação muito forte ao mercado de trabalho e, portanto, trabalham na própria área em que estão a leccionar, mas também noutros tipos de mercados. O facto de sermos uma escola pequena não levanta nenhuma desconfiança por parte das empresas quando se trata de acolher estagiários. Aliás, somos muitas vezes procurados pelas próprias organizações para recrutar estagiários.

SR – Os estágios e, possivelmente, os futuros locais de empregos dos formandos distribuem-se por que área geográfica?

AC – Distribuem-se não só aqui pela região, mas também pelo Algarve, Madeira ou Lisboa. Aqui, o mercado é muito pequeno para todos e, por isso, tentamos sempre alargar as opções e eles conseguem adaptar-se noutros locais porque sentem o apoio da escola, uma vez que estamos em contacto permanente e temos sempre alguém disponível para os ajudar. Normalmente, são eles que escolhem os locais de estágios e, portanto, aceitam esse desafio por vontade própria.

SR – Como é que jovens de 17 ou 18 anos encaram o desafio de ir para o Algarve ou para a Madeira?

AC – Primeiro, encaram como umas férias, porque, no primeiro ano, o estágio tem a duração de um mês e é para eles uma novidade. Depois, assumem uma postura mais profissional e têm conseguido integrar-se. Nós procuramos sempre apoiá-los, porque ainda são muito novos e, para muitos deles, é a primeira experiência de trabalho. Mas sentem-se bem acolhidos e integrados e, muitas vezes, acabam por querer voltar.

SR – O feedback que têm por parte das empresas indica que os formandos que saem daqui estão ao mesmo nível dos de outras escolas?

AC – Sim, o que é surpreendente, porque eles estão a estagiar com estudantes de licenciatura e, certamente, não estarão ao mesmo nível em algumas situações. No entanto, em termos de desempenho das tarefas, estão igualmente capacitados, uma vez que têm classificações muito boas no estágio.

SR – Dos alunos que passam por este curso, a maior parte deles começa a trabalhar após o curso ou há casos de alunos que prosseguem estudos na universidade?

AC – Temos casos de alunos que prosseguem os estudos, pois o papel da escola é também incentivá-los nesse sentido e temos feito isso com a ajuda dos pais. Embora esta escola seja uma instituição de ensino vocacionada para o mercado trabalho, para a formação de profissionais, consideramos muito importante trabalhar no sentido de dar aos alunos a possibilidade de continuar os estudos e alguns têm essa abertura, porque, como gostam destas áreas, mesmo estando já a trabalhar, querem apostar numa formação de ensino superior.

SR – De que forma é que os cursos de Turismo e o de Organização de Eventos se cruzam?

AC – Há uma relação muito estreita entre os dois cursos, pois são muito parecidos e acho que se complementam, porque têm muitas disciplinas em comum. Por exemplo, nos estágios, em alguns casos, os alunos chegam a encontrar-se e há uma certa concorrência entre eles. Portanto, procuramos sempre realizar atividades em conjunto e, neste momento, estamos envolvidos em projetos de solidariedade social e, geralmente, eles trabalham bem juntos.

SR – Que tipo de projetos são esses de solidariedade social?

AC – Normalmente somos contactados por várias entidades para participar nos projetos de solidariedade social e colaboramos muitas vezes com o Banco Alimentar e com Câmara Municipal. No ano passado, desenvolvemos uma atividade com a Casa do Gaiato e os alunos mostraram-se disponíveis, porque são jovens solidários e não perguntam nunca se terão alguma recompensa. A escola envolve-se nesses projetos porque é uma oportunidade de os integrar numa sociedade que está em mudança e, mais tarde, eles irão também beneficiar de toda esta transformação.

SR – Há algum perfil específico do aluno que aqui chega?

AC – Não temos, necessariamente, um perfil delineado. Os alunos procuram-nos e normalmente integram-se de uma forma natural. No entanto, nem todos os jovens chegam motivados e nós passamos os três anos a tentar incentivá-los e, na grande maioria dos casos, temos sucesso. A grande vantagem de sermos uma escola pequena está relacionada com a questão da proximidade, porque tudo se sabe e tudo se tenta controlar, isto é, conhecemos todos os alunos pelos seus nomes e podemos ajudá-los no que precisarem, se tivermos possibilidades para isso.

Por outro lado, a desvantagem tem que ver com as infraestruturas, uma vez que, para determinado tipo de atividades, por exemplo, as salas são muito pequenas e não temos condições para juntar três turmas.

SR – Quais são as perspetivas de futuro para a escola?

AC – Este ano não vamos apresentar novos cursos porque a escola está cheia, mas para o próximo ano queremos propor novas candidaturas. Os cursos subsidiados pelo Ministério da Educação, em que o aluno só paga a matrícula, tal como numa escola de ensino regular, vão manter-se. Por outro lado, temos ainda outro tipo de oferta a nível privado, como, por exemplo, os cursos de Cabeleireiro e de Formação de Formadores. No entanto, com a crise, torna-se um pouco complicado apostar nessas ofertas, porque são cursos que não são subsidiados e as pessoas têm que pagar.

SR – A crise sente-se na escola?

AC – Claramente. Sentimos isso pela falta alimentação dos miúdos, que não tomam o pequeno-almoço e não têm dinheiro para o almoço. No entanto, como somos muito próximos dos nossos alunos, quando tomamos conhecimento dessas situações, ajudamo-los, normalmente com alimentos.

SR – E reflete-se no abandono escolar?

AC – Sim. Não é uma percentagem significativa, porque é uma escola pequena, mas temos casos desses, infelizmente. Alguns alunos deixam de estudar porque os pais ficaram desempregados e têm que trabalhar para ajudar a família. Temos também estudantes que vêm de longe e deixam de ter dinheiro para pagar o passe e, por isso, acabam por abandonar os estudos.