“A ligação com a comunidade é fundamental”

“A ligação com a comunidade é fundamental”

A delegação do Barreiro da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça tem “uma série de projetos que procuram uma ligação ainda mais forte com a comunidade”, pois esta ligação “permite a integração dos alunos e o desenvolvimento de um conjunto de competências e qualidades que são transversais”. Outra das prioridades é garantir o acesso dos alunos ao ensino superior, porque “as pessoas mais habilitadas passam menos tempo no desemprego e, em média, recebem mais”. Há ainda uma preocupação grande com as questões sociais, pois, “com as dificuldades económico-financeiras que o país enfrenta, os alunos começam a pensar em desistir dos estudos para trabalhar e ajudar as famílias”. Pedro Leite da Silva, diretor da delegação, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, garante que, naquela escola, “os alunos trabalham muito mais do que os do secundário” e apresenta o “ambiente de bem-estar” como “fundamental no processo de aprendizagem”.

“Setúbal na Rede” – Que novidades podemos antever nesta escola para o próximo ano lectivo?

Pedro Leite da Silva – Será mais um projeto de continuidade, pois as novidades surgiram nos últimos dois ou três anos e o que temos neste momento é um processo de estabilização que nos permitirá passar para o próximo nível de qualidade. Há uma série de projetos que foram implementados em termos de ligação com o mercado de trabalho e com a realidade social do Barreiro, e, portanto, estamos num período de avaliação e desenvolvimento desses programas.

Temos estado a trabalhar na área do ambiente, no curso de higiene, com o projeto “Coastwatch” e, com o departamento de apoio social da Câmara Municipal, na Rede Integrada de Apoios (RIA), que foi construída pelos alunos de informática. Surgiram, igualmente, alguns projectos de animação, como, por exemplo, a representação de teatro nas escolas e a angariação de alimentos. Tomámos iniciativas, em parceria com outras escolas secundárias, que visavam o acolhimento de alunos vindos de outros países. Portanto, temos uma série de projectos que procuram uma ligação ainda mais forte com a comunidade e queremos continuar com esse desenvolvimento para acelerar o processo de entrada na realidade do trabalho.

SR – Essa ligação com a comunidade é a maior prioridade da escola?

PLS – É uma prioridade muito grande, mas não posso dizer que é maior, porque trabalhamos com várias frentes. Temos a ligação com a comunidade, que é fundamental, uma vez que permite a integração dos alunos e um desenvolvimento mais crítico de competências-chave, técnicas e transversais. Os alunos, para desempenharem uma profissão no futuro, precisarão de desenvolver um conjunto de competências e qualidades que são transversais, seja a pontualidade, a criatividade ou a capacidade de iniciativa. Portanto, essa ligação com a comunidade permite-nos acelerar este processo e potenciá-lo de uma forma que a sala de aula não permite.

Mas há também outras prioridades, como a questão do acesso ao ensino superior. É crucial combater a ideia de que Portugal é um país de doutores, porque não é. Temos falta de qualificações e o certo é que as pessoas mais habilitadas passam menos tempo no desemprego e, em média, recebem mais. Mesmo que haja pessoas com licenciaturas a trabalhar numa caixa de supermercado ou a servir à mesa, o que é que certo é que, quanto menos estudos tiverem, mais dificuldades as pessoas terão para arranjar trabalho. Portanto, trabalhamos muito orientados para um processo de integração no mercado de trabalho, mas também para possibilitar a entrada dos alunos em politécnicos ou universidades, para darem continuidade aos estudos.

Há uma outra prioridade, que se prende com o apoio social que oferecemos ao nosso grupo de alunos, porque, com as dificuldades económico-financeiras que o país enfrenta neste momento, apesar de a escolaridade obrigatória ser o 12.º ano, os alunos começam a pensar em desistir dos estudos para trabalhar e ajudar as famílias.

SR – Como é que a escola consegue lidar com esse tipo de problemas?

PLS A escola tem feito um diagnóstico, o mais precoce possível, das dificuldades dos alunos e das famílias e procura sempre dar apoio no sentido de orientação vocacional, na criação de estratégias para os alunos que já têm emprego, na compatibilização dos horários e, pontualmente, em termos de deslocação. Há muitos casos complicados, pois é uma situação transversal em qualquer uma das nossas seis delegações. É um cenário dramático e sentimos que recuámos muitos anos em termos de acesso à educação.

SR – Esse problema do foro económico e social, exterior à escola, afeta o seu funcionamento, nomeadamente em termos de rendimento que os alunos possam ter?

PLS – Sim, afeta. É muito difícil para um aluno ver a sua família desagregar-se e continuar com bom rendimento escolar. Mas torna-se mais complicado quando os alunos deixam de ter dinheiro para pagar o passe escolar, o que é dramático, porque estamos a falar de um passe dentro do Barreiro, que ronda os vinte euros por mês, mas apresenta-se como um obstáculo para aqueles que querem continuar a estudar, e isso não devia ser equacionável num país desenvolvido como o nosso.

SR – Há desistências dos estudos?

PLS – Sim, já tivemos algumas desistências. Em termos de escala, somos um núcleo muito pequeno, temos cerca de 150 alunos por ano. Há aqui a ideia de escola pequena que nos permite um acompanhamento muito personalizado dos alunos e uma ligação muito forte com as famílias, mas isso é uma escolha estratégica da nossa instituição de ensino. No entanto, este ano tivemos cerca de cinco alunos que abandonaram a escola por motivos económicos, dois que emigraram e três que desistiram para trabalhar.

SR – Disse que a escola aposta na continuidade dos estudos para o ensino superior, mas o ensino profissional é visto, muitas vezes, como uma via rápida para o mercado de trabalho.

PLS – Há uma perceção na comunidade de que o ensino profissional é um “parente pobre” do ensino, mas, desde 2004, que há a indicação de que existe uma igualdade de direitos entre o ensino regular e o profissional. No entanto, há dois anos, essa classificação sofreu pequenas alterações nos níveis de qualificação atribuídos pela União Europeia, que passaram a estar divididos em oito níveis, sendo que o quarto corresponde ao profissional e o terceiro ao secundário. Ou seja, o curso profissional atribui uma qualificação superior em relação ao secundário regular.

Os nossos alunos trabalham muito mais do que os alunos do secundário. Têm não só componentes socioculturais, como científicas e 1600 horas de componente prática e estágio. O ensino secundário regular está orientado, fundamentalmente, para a preparação para os exames nacionais, mas essas provas não avaliam a capacidade de trabalhar em conjunto, de resolver problemas do dia-a-dia e, por isso, é um modelo que apenas se aplica à escola. Desta forma, nós oferecemos duas qualificações, para o mercado de trabalho e para a escola, de modo a darem continuidade aos estudos. Portanto, os alunos do ensino profissional, em média, estão muito melhor preparados.

SR – Mas estes alunos não estão em igualdade de circunstância com os outros alunos para seguirem os estudos?

PLS – Não, não estão. Exemplo disso são os exames nacionais, pois os nossos alunos do 12.º ano estão em estágio e têm que pedir uma folga para poderem ir ao exame. Além disso, têm ainda a apresentação da PAP, que é a prova final do curso. Por outro lado, os alunos do secundário já interromperam as aulas e estão em exclusiva preparação para os exames. Portanto, não estão em igualdade de circunstâncias e há uma série de indicadores muito curiosos que evidenciam isso.

Por exemplo, os alunos que prosseguem estudos na área em que fizeram a sua preparação profissional estão, geralmente, muito melhor preparados no primeiro ano de faculdade. Prova disso é que o aluno do curso de Gestão e Formação de Sistemas Informáticos tem quase 500 horas de programação, o que lhe dá uma vantagem em relação aos alunos do ensino regular, do curso de Ciências e Tecnologias, que não têm aulas práticas de programação. Portanto, isso cria, inevitavelmente, uma diferença monumental na universidade, porque o estudante do ensino profissional tem uma preparação diferente.

SR – Há um perfil comportamental próprio dos alunos desta escola?

PLS – Há um conjunto de ideias muito importante, como, por exemplo, a capacidade de intervenção, do ponto de vista cívico. Mas, do ponto de vista profissional, temos um foco na assiduidade, na pontualidade, no trabalho de equipa, na capacidade de iniciativa e numa preparação que lhes permite não ter medo de errar. Estas são algumas das competências que trabalhamos de forma sistemática, do 10.º ao 12.º ano. Temos também uma abordagem diversificada dentro da sala de aula, pois as turmas são constituídas por alunos com diferentes níveis de conhecimento. Portanto, adaptamos o currículo a cada aluno, aos que têm maiores dificuldades e trabalham para o desenvolvimento das suas competências e aos que querem ir mais longe.

SR – Também há a ideia de que quem opta pelo ensino profissional é o aluno que quer um percurso mais facilitado.

PLS Temos alunos que, de facto, têm percursos de insucesso escolar, mas temos também muitos alunos que terminam o nono ano e querem seguir estes cursos porque pensam que será o mais adequado para a profissão que querem seguir. Em termos de indisciplina, não temos problemas praticamente nenhuns e temos um trabalho de enorme confiança com os alunos.

Enquanto escola, assumimos uma posição estratégica que se prende com a qualidade de ensino e, independentemente da condição socioeconómica dos nossos alunos, o objetivo é dar-lhes a melhor instrução possível. Neste momento, trabalhamos com processos de tutoria, uma novidade na escola, em que elementos da nossa instituição acompanham individualmente um aluno na criação de planos, em que o próprio estudante define as soluções para os seus problemas e as suas prioridades.

SR – Que feedback é que as empresas vos dão sobre essas competências técnicas e comportamentais dos alunos?

PLS – O feedback que nos dão das empresas tem sido bastante positivo, porque os alunos estão disponíveis, bem preparados e são empenhados. Isso tem que ver também com o facto de a escola fazer um acompanhamento muito diferenciado, uma vez que um aluno tem sempre um professor que o acompanha individualmente. Numa base semanal, o docente pede ao aluno uma apreciação do estágio que está a fazer. Posteriormente, faz uma visita ao local de estágio, a cada quinze dias, de modo que o aluno faz uma auto-avaliação do seu trabalho e a empresa, por sua vez, faz a avaliação do desenvolvimento do estagiário.

SR – Que vantagens e desvantagens tem esta escola por ser a delegação de um grupo?

PLS – Somos uma associação que junta seis delegações: Porto, Vila Nova de Famalicão, Lisboa, Barreiro, Beja e Seixal. Não temos muitas dificuldades em termos de relação com os alunos, mas do ponto de vista interno existem algumas, porque exige uma comunicação muito maior entre delegações a nível do acompanhamento das nossas normas e de implementação de determinados processos. É uma situação comum, pois cada vez que é preciso fazer uma alteração, obriga um acompanhamento maior por parte da sede. O facto de estarmos descentralizados exige mais diretores e mais administrativos. Há uma distribuição nula de lucros, uma vez que somos uma associação sem fins lucrativos. Por isso, tudo o que seja valor positivo de cada escola é investido em material e qualificação de pessoal. Pontualmente, em termos de vantagens e ligações, trabalhamos em eventos muito importantes, como, por exemplo, o 25 de Abril. Este ano fomos a Vila Viçosa e fizemos uma celebração com as delegações, pois é uma forma de fazer com que os alunos se cruzem e contactem uns com os outros.

SR – Há alguma justificação particular para o facto de uma das seis delegações da escola ser no Barreiro?

PLS – A aposta no Barreiro surgiu no início da escola, que existe desde 1992, pois pensamos que há, de facto, qualquer coisa que precisa de ser repensada nesta região. A câmara promoveu este ano um primeiro encontro para rever a carta educativa e um dos assuntos que, enquanto escola, levámos a essa discussão foi a questão do insucesso. No Barreiro e Moita, só a escola de Santo André tem média positiva nos exames nacionais, e é tangencial, pois todas as outras escolas apresentam resultados negativos. Portanto, há aqui um problema grave e não tem que ver só a questão da centralidade ou com o envelhecimento da população, pois há muitos focos de pobreza no Barreiro.

SR – O que é que identificaria como imagem de marca desta escola?

PLS – Por um lado, a proximidade e familiaridade e, por outro, a distinta qualidade de ensino que oferecemos, que é, de facto, diferente. O ambiente de bem-estar é fundamental no processo de aprendizagem, para combater as dificuldades e progredir.