Os trabalhadores portugueses terão de ser capazes de se adaptar a um mercado de trabalho em constante mudança, ao ritmo das evoluções tecnológicas e da resposta das empresas à crise económica. Foram estes alguns dos desafios assumidos pelos oradores convidados pela UGT Setúbal que participaram no colóquio “Portugal no contexto europeu – desigualdades e oportunidades no mercado de trabalho”, na Escola Superior de Ciências Empresariais (ESCE) do Instituto Politécnico de Setúbal, sábado à tarde.

“A digitalização vai trazer mudanças muito significativas à organização do trabalho e algumas já estão a decorrer fora da Europa”, garantiu Maria Mercês Borges, deputada à Assembleia da República. Os exemplos dados são bem conhecidos: progressos tecnológicos que estão a tirar o lugar às pessoas, como os carros autónomos que dispensam motoristas ou a informatização de tarefas que antes empregavam dezenas de trabalhadores numa empresa, como a contabilidade. “Vamos ter de nos adaptar a mudanças que vão ser muito rápidas”, frisou a deputada.

O problema do desemprego, que muito afecta a população jovem, foi um dos principais tópicos de reflexão no colóquio, tal como sublinhou Maria Mercês Borges. “A economia não cresce o suficiente para gerar empregos sustentáveis. E quando gera empregos, que empregos são esses, face às qualificações dos jovens e às competências dos trabalhadores que ficaram, entretanto, desempregados?”, perguntou.

No painel de discussão, a deputada ao Parlamento Europeu Liliana Rodrigues, por sua vez, explicou que “Portugal não é dos países onde o desemprego jovem é pior” e acrescentou que “a ideia de que temos de formar os alunos para o mercado de emprego envolvente não pode ser o ponto chave”. “Temos de ter isso em atenção, mas do ponto de vista das universidades não podemos estar constantemente a mudar os cursos”, apontou.

“O problema é não termos feito as mudanças estruturais que deviam ter sido feitas no mercado de trabalho”, continuou Liliana Rodrigues, certa de que em relação à igualdade de género no contexto laboral, “as mulheres, que são a maioria da população na Europa e são mais bem qualificadas, recebem menos 19% em termos salariais (por hora) do que os homens, e não ocupam muitos cargos de topo em todas as áreas”.

A encerrar a sessão no auditório da ESCE, a secretária geral adjunta da UGT, Ana Paula Bernardo, chamou a atenção para a necessidade de haver uma “regularização do trabalho associada à protecção social dos trabalhadores”, sendo que a UGT está “preocupada com a precariedade laboral” que se verifica no país.

Vítor Hugo Sequeira, ex-membro do comité económico e social europeu pela UGT, interveio também no colóquio, dando a conhecer o panorama dos recentes fluxos da emigração portuguesa, que estabilizou em torno das 110 mil pessoas por ano em 2013 e 2014. O encontro “Portugal no contexto europeu – desigualdades e oportunidades no mercado de trabalho” foi presidido por Boguslawa Sardinha, presidente da ESCE, e Rui Godinho, presidente da UGT Setúbal.