Laurinda Oliveira é montijense e fadista há cerca de duas décadas. E é nesta cidade que vai entoando a canção nacional, encontrando a forma de se ir valorizando cada vez mais num sítio certo, a horas desencontradas, no seu retiro fadista “Casa da Sogra”, onde, juntamente com colegas de profissão, dá largas ao seu sentir. A sua história é diferente… é marcada por um trauma.

“A minha mãe era fadista de profissão e esteve muitos anos no Faia, casa da D.Lucília do Carmo, como fadista residente. Quando ainda mal sabia falar já cantarolava o reportório todo dela”, revela Laurinda Oliveira, antes de se debruçar parte da história da sua vida.

Fala num trauma, quer contar?

O trauma não era meu, era do meu pai. Vivi-o com a separação da minha mãe do meu pai, que acabou por não me deixar nem sequer entoar uma nota musical de qualquer fado. Sempre que eu o fazia logo me mandava calar.

Depois fui algum tempo para um colégio e aí participava em tudo que era espectáculo, teatro componente dos coros, entre outros, mas nunca fado. O meu pai era amigo dos saudosos Fernando Farinha e do Sr. Maximiano de Sousa (Max), com quem comecei a ter alguma afinidade. Talvez tenha sido com eles que um dia tive o desejo de contrariar o meu pai e seguir um destino que me estava traçado do berço, ser fadista! Já era maior, casada, dona de mim, das minhas decisões.

E a estreia como foi?

Fui convidada para assistir a um espectáculo de fados e a certa altura, depois de alguns fadistas terem actuado, o sr. Manuel dos Vidros (guitarra) que trabalhava no Barco Montijo/Lisboa e que acompanhava os artistas juntamente com o Sr. Fernando Lima (viola) convidou-me para cantar.

Por que a convidou, se nunca tinha cantado?

Sabiam da minha ligação ao fado, e eu muito indecisa, acedi e cantei dois fados, um da Tereza Tarouca e outro da Amália. Foi ali que tracei o meu destino de fadista, porque, talvez até por simpatia, fui muito aplaudida, o que me incentivou a prosseguir, apesar de já ter então 30 anos.

Como prosseguiu depois a sua carreira?

A minha veia fadista continuou a explodir, já cantei em quase todo o País e até no estrangeiro. Vou muita vez cantar a Londres, a uma casa que me é familiar.

Como surge a sua “Casa da Sogra”?

É um refúgio fadista sem fins lucrativos, é outra das minhas loucuras. Está erguida dentro da minha quinta e aqui, de quando em vez, recebo os meus amigos fadistas e espectadores…

Mas tem um ar marialva…

Hoje sim, tudo a condizer com a nossa canção, mas no início chegámos a ter de nos sentar em fardos de palha. Foi erguida aos poucos, com muito amor ao fado por todas as razões que eu não digo mas vocês adivinham.

Quando acontece fado na “Casa da Sogra”?

Quando estou disposta a fazer o jantar para os meus convidados e para os fadistas e só depois é que acontece fado, até que a voz nos doa.

Porquê o nome de “Casa da Sogra”?

Ao princípio, a casa estava ainda desordenada, os amigos vinham de manhã, matavam um porco e iam ficando noite dentro, até o Sol raiar e quando se apercebiam da hora tardia, diziam: “Isto até parece a casa da sogra.” Sem querer, ficou batizada!

Como espera o futuro?

Continuar a cantar, a receber os amigos espectadores e fadistas, ir vendendo o meu CD, ir de quando em vez ao estrangeiro e sempre amando mais o fado.

Por último, como define o fado?

Um estado de alma!