A “brincadeira” da corrida foi-os juntando em provas de atletismo por todo o país. Até competirem como equipa, foi um passo curto. Hoje, a Time Runners Setúbal Sadoport soma aos troféus a ambição de levar o desporto e o nome da cidade mais longe

“A corrida é o desporto mais fácil que qualquer pessoa pode fazer”. A ideia é de Ezequiel Fernandes, o treinador que prefere avaliar-se mais como orientador de uma das mais recentes equipas de atletismo de Setúbal. Quando começaram a competir, em 2014, os atletas da Time Runners Setúbal Sadoport ainda não eram uma equipa, tão-pouco tinham um nome com que se pudessem anunciar. “Tivemos a ideia de formar uma equipa quando fomos fazer uma prova a Troia, onde as inscrições podiam ser feitas por equipas que tivessem pelo menos três atletas. E nós, como corríamos sempre juntos, mas individualmente, decidimos inscrever-nos como grupo e arranjámos um nome assim um pouco à pressa”, conta Paulo Fernandes, o mentor do grupo.

O nome de equipa pensado em cima da hora (“Time Runners”, algo como “correr contra o tempo”) foi o primeiro impulso para o projeto desportivo começar a crescer. Convocar um treinador foi o passo seguinte. “Na verdade, eu já estava reformado e fui repescado”, brinca Ezequiel Fernandes, que se dedica ao atletismo desde os 16 anos. Setubalense, começou por correr nos jogos juvenis que se realizavam nas maiores cidades do país, nos anos 70, federando-se depois nas modalidades de futebol, andebol e atletismo. A corrida ficou-lhe no sangue. Foi treinador de vários escalões de atletas nas principais coletividades sadinas, além de ir colecionando quilómetros em provas de corta-mato, pista e montanha. “O importante é a pessoa ir à procura de outras descobertas. Talvez eu seja uma das pessoas que estão nisto há mais tempo”.

Luciano Carreira, por sua vez, também aceitou o convite para se juntar à equipa como atleta, é o membro mais recente e acredita que o importante é divertirem-se juntos nos treinos e marcarem presença nas provas. “Sermos uma equipa traz-nos muitas vantagens: juntar quem mais sabe a quem menos sabe, juntar companhia para treinar e para partilhar algumas boleias e despesas. Todos fazemos isto por gosto e para queimar calorias”.

As oportunidades de competir como equipa foram surgindo, ao início, conforme o tipo de provas em que participavam – estrada, montanha ou pista. “Assim que começámos a correr em equipa, começámos a conseguir alguns prémios e a ganhar visibilidade. E tendo isso, é fácil arranjar pessoas que acreditem em nós”, explica Paulo Fernandes. Uma vez que trabalha na Sadoport, propôs aos responsáveis da empresa a atribuição de um patrocínio e a resposta do Comandante Carlos Santos, do Terminal de Setúbal, não podia ter sido mais positiva. “Os meus colegas não acreditavam que eu conseguisse um apoio destes”, revela. “A minha luta sempre foi garantir um patrocínio, para que não houvesse despesas com as provas”.

A empresa, que opera um dos maiores terminais de contentores do país, permitiu a compra dos equipamentos dos atletas e cedeu um escritório nas suas instalações, cobrindo as despesas de inscrição e deslocação das provas, além de dar o acesso aos balneários para que os atletas possam desempenhar a atividade desportiva da melhor forma. Um apoio importante que o treinador Ezequiel valoriza como sinal de um “sentido desportivo e de sociedade”. Luciano Carreira concorda: “Um grupo de malta que quer correr e manter-se saudável dá uma imagem interessante para a empresa”.

 

“Melhor do que passar a meta”

Desde o ano passado que a Time Runners Setúbal Sadoport veste oficialmente a mesma camisola, fruto do patrocínio que receberam – um “trampolim” para continuarem a correr com a paixão de sempre, como Paulo Fernandes refere. Com o tempo, as metas cruzadas em primeiro lugar foram-se tornando mais próximas, assim como os prémios conquistados individualmente. Ganharam o troféu de 1º lugar na Primeira Corrida Atlântica Comporta-Troia, depois o 8º lugar na Corrida do Monge – Circuito Nacional de Montanha, o 1º lugar no Raid de Vale dos Barris, em Palmela, e o troféu de 2º posição do 1º Trail da Quinta do Pinhão. E se no início tinham por hábito convidar qualquer pessoa que soubesse correr, hoje o processo de “recrutamento” é muito mais exigente, com vista a atingir outro patamar de competitividade. A ideia é ter até 13 atletas com condições para serem muito bons.

Os dez atletas, com idades entre os 20 e os 59 anos, têm consciência de que o envolvimento ativo na equipa tem implicações no seu dia-a-dia pessoal e familiar. “Torna-se difícil conjugar as provas, os treinos e a vida familiar. É com muito sacrifício que fazemos isto”, assegura Paulo Fernandes. Mas, sempre que podem, convidam as próprias famílias a participar quando há caminhadas ou corridas para escalões infantis. Para Ezequiel, o dever de alcançar um equilíbrio é bastante simples: “Se pusermos a família de lado, ou nos casamos com o atletismo ou nos divorciamos da nossa mulher”.

Luciano Carreira e Francisco Calvo, que entretanto se junta à conversa, não têm dúvidas em relação ao papel que as famílias representam na equipa. “Numa prova de 40 quilómetros, estar alguém que nos dê apoio é melhor que passar a meta. O apoio familiar é incondicional”. Esse espírito confere unidade ao grupo e motiva a organização de almoços regulares, até pelo Natal. “Darmo-nos todos como uma família é o que nos transforma numa grande equipa”, diz o mentor.

A Time Runners Setúbal Sadoport está empenhada, para já, em dar-se a conhecer ao público, conquistando novos prémios e um terreno mais destacado entre os milhares de equipas amadoras de atletismo que existem no país.  A constituição dos estatutos oficiais virá a seguir, bem como a entrada prevista de atletas femininas, com vista a garantir a igualdade de género. “Esta é a equipa que me faltava, por isso é que estou aqui”, garante Ezequiel Fernandes. Em comum, todos têm a paixão pela corrida, sabendo que o caminho, neste caso, faz-se correndo.