Há três anos que o Magusto de São Martinho se comemora no Bairro do Troino. A festa é um exemplo de cidadania e dá outro brilho ao largo da Fonte Nova

O sol vai alto, aquecendo o largo da Fonte Nova onde a população se junta para participar na Festa de São Martinho do Bairro do Troino. No fogareiro montado à sombra, debaixo de uma estrutura de madeira, cinco membros da União de Freguesias de Setúbal, equipados com luvas, vão assando castanhas. No palco, o grupo “Ricardo e Amigos” toca música popular portuguesa.

Graciano Sousa, 37 anos, está no centro do largo com três copos vazios na mão. De chinelos nos pés, não resiste a soltar uns passos de dança ao ritmo da música. “Moro perto e tenho muitos amigos aqui”, diz. “Gosto da água-pé, do vinho e das castanhas. Conviver com as pessoas é o melhor”. Tal como ele, outras dezenas, do bairro e não só, juntam-se à festa e vão formando fila na bancada onde se distribuem as primeiras senhas gratuitas que dão direito a meia-dúzia de castanhas, batata-doce e um copo de sumo, água-pé, jeropiga ou cerveja sem álcool.

“A Cáritas Diocesana este ano juntou-se a nós e doou a aparelhagem de som e a cerveja”, conta Lucília Ferro, do Centro de Cidadania Ativa, que em parceria com a Cooperativa de Serviços e Solidariedade Social e com o grupo de voluntários Toma Lá Dá Cá, organiza a festa. Os quilos de castanhas e batata-doce, além da jeropiga e água-pé, foram angariados com a ajuda de mais de 30 doadores, entre habitantes do bairro, profissionais, estabelecimentos comerciais, empresas e associações. Um esforço coletivo que Graciano Sousa, brasileiro a viver em Portugal há 14 anos, valoriza: “O envolvimento das pessoas é fundamental na comunidade”.

Com o avançar da hora de almoço, os fregueses vão compondo as esplanadas dos restaurantes da Fonte Nova, onde se come o melhor peixe assado de Setúbal. Vitória Duarte, 47 anos, coloca a salada que chegou à mesa primeiro que o peixe e entra na conversa: “Não sabia que ia haver festa. Neste largo está-se sempre bem, também é agradável com música”. Música sim, mas então e as castanhas? A filha, Patrícia Correia, 26 anos, é que “adora” o fruto caraterístico do Magusto. A mãe gosta mais de batata-doce. Quem não sabe que havia festa é Paulo Magalhães, 28 anos, que também se prepara para comer o prato mais fresco da zona. Na sua opinião, o evento “devia ser mais divulgado”.

Os voluntários, jovens e menos jovens, vão distribuindo as castanhas em cones de papel de revista, o gesto típico que confirma a quadra do São Martinho. Mas o sistema de senhas e pagamento deixa algumas pessoas confusas, sem saber se pagam ou não aquilo que querem comer e beber. Lucília Ferro explica que após o consumo das primeiras senhas, as comidas e bebidas extra são compradas com um custo simbólico. A receita reverte para a comissão de festas do Bairro do Troino, a ser criada, com o propósito de tornar o bairro um centro de referência de eventos socioculturais e desportivos em que toda a população é convidada a participar.

Olga Morais, 52 anos, pertence à equipa do Centro de Cidadania Ativa há dois anos. Nesta edição da festa, que se realiza pelo terceiro ano consecutivo, preparou cartazes e agora circula pelo recinto de máquina fotográfica em punho e com uma moldura plastificada alusiva ao São Martinho na outra mão. “As pessoas acham esta moldura divertida e muitas pedem para lhes tirar fotografias”, conta, elogiando a vida bairrista em que se junta “um grupo muito bom de pessoas amigas”, empenhadas em proporcionar um grande divertimento. Olga gosta dos setubalenses, do clima e do peixe assado. E diz que na Rússia, em São Petersburgo (de onde é natural) “não há São Martinho”. Por isso, está ali a aproveitar, tal como a restante comunidade, o São Martinho do Bairro do Troino, um dos mais castiços de Setúbal.