Entrevista a Fernando Oliveira, presidente do Vitória

Por ocasião do 106.º aniversário do Vitória Futebol Clube, o Diário da Região foi ao encontro do presidente Fernando Oliveira com o objectivo de traçar o retrato actual do clube. O desempenho da equipa principal de futebol, as dificuldades de gestão, o chumbo das contas e as eleições de 2017 foram alguns dos temas abordados pelo dirigente que lidera o leme embarcação sadina há oito anos consecutivos.

Diário da Região (D.R.) – Apesar de muitos problemas, o Vitória festejou mais um aniversário. Qual o estado de espírito do presidente por ocasião dos 106 anos de vida do clube?

Fernando Oliveira (F.O.) – O meu estado de espírito é de satisfação. Reconhecemos que o nosso trabalho tem sido profícuo. Não damos importância a uma ou outra crítica de pessoas que conhecemos e sabemos quais são as suas intenções. Nem sequer lhes respondo porque não vale a pena. O Vitória é muito mais importante do que as pessoas. Estamos regozijados porque estamos no clube há uns anos e a equipa tem-se mantido, umas vezes melhor e outras pior, na I Liga. O Vitória cá está e recomenda-se ao contrário de clubes que têm desaparecido do mapa do futebol nacional.

D.R. – Em termos de gestão, como está o clube e comparação com há um ano?

F.O. – Muito melhor.Temos uma equipa competitiva com dois jogadores para cada lugar. O treinador deve ter muitas dores de cabeça para escolher a equipa nos jogos. Estamos convictos que vamos ter resultados ao longo da época que nos vão permitir andar mais tranquilos e não andarmos pelos altos e baixos que, infelizmente, tivemos na segunda volta do campeonato anterior. Este ano o plantel é muitíssimo bom.

Não é só no futebol que o clube segue o seu caminho. Nas modalidades amadoras, graças à dedicação das pessoas que lideram os diferentes departamentos, dos treinadores e atletas, há um trabalho muito meritório. Enalteço tudo o que essas pessoas têm dado ao clube. Já no próximo dia 27, por exemplo, vai decorrer mais uma iniciativa importante, a Caminhada e a Corrida do Vitória, que é mais um evento que vem engrandecer e demonstrar o papel importante que clube tem junto da comunidade.

D.R. – Está surpreendido com os 13 pontos e o 7.º lugar que o Vitória ocupa à 10.ª jornada?

F.O. – Estávamos à espera de ter mais pontos. As duas derrotas que tivemos em casa [Paços de Ferreira e Marítimo] podiam ter-se traduzido em pontos que nos permitiriam estar na casa dos 16/17 pontos. O futebol é assim. Estamos habituados a este tipo de situações. Temos de ir à procura de recuperar do prejuízo dessas duas derrotas em casa. Já o fizemos na jornada anterior, em Moreira de Cónegos [triunfo por 1-2], e não vamos ficar por aqui.

D.R. – Que presente gostaria de ter recebido neste aniversário?

F.O. – Desejo a médio/curto prazo ir à final de uma taça. É esse o nosso desejo e a nossa ambição. Estamos convictos que os sócios do Vitória ficariam muito agradados e merecem-no.

D.R. – Em termos de assistência, a lotação no Bonfim tem estado aquém do desejado. O que se passa?

F.O. – Não sei. Temos tomado algumas medidas como a de reduzir o preço do bilhete de sócios de cinco para três euros quando adquirido até à véspera dos jogos. Os sócios com quotas em atraso têm sempre soluções para continuarem a ser sócios. Não queremos que se afastem. Mesmo quem tiver dois/três anos de quotas em atraso podem dirigir-se ao clube porque nós arranjamos soluções. Não desistam e venham ver os jogos.

D.R. – Pensa que a equipa vai precisar de ser reforçada em Janeiro?

F.O. – Não.O plantel que construímos dá-nos todas as garantias. Construímos a equipa para não termos os problemas que tivemos o ano passado. Mesmo que saiam alguns, temos um plantel que dá cobertura a essa situação.

D.R. – A aposta na formação e em atletas de escalões inferiores é fundamental? Quais os jogadores que poderão emergir e estar entre as revelações do campeonato?

F.O. – Há vários. Alguns jogadores já estão a despertar a cobiça de alguns clubes. Não há propostas concretas mas há a hipótese de alguns se poderem transferir. Estamos atentos. Temos aqui atletas com talento muito acima da média e estamos convictos de que vamos ter procura para poderem ser negociados num futuro muito próximo.

D.R. – Quão importante foi o regresso do treinador José Couceiro?

F.O. – Fizemos opções. É um treinador imbuído da mística do Vitória e isso é fundamental. Conhece muito bem o sentir e pulsar dos sócios e isso ajudou à sua contratação. Não há duas sem três e esperamos que consiga dar-nos a possibilidade de ganhar alguma das taças.

D.R. – Que apoios tem o clube recebido da parte das empresas da região?

F.O. – Já fizemos reuniões com várias empresas sediadas na região mas não fomos bem sucedidos. As empresas têm as suas dificuldades e também não parecem estar muito voltadas para o futebol. Estamos atentos e sempre disponíveis. Lembro, no entanto, que temos uma fidelização muito boa de marcas como a Kia, uma marca de prestígio internacional. Além disso, marcas de referência como a Giovanni Galli, o Hospital da Luz, a Betclick são nossas parceiras, facto que demonstra a vitalidade e confiança que depositam em nós.

D.R. – Sendo o nosso jornal distribuído em toda a região, que mensagem gostaria de deixar aos adeptos do futebol de outros concelhos que lêem a presente entrevista?

F.O. – Nós não queremos que essas pessoas mudem de clube. Cada um tem o seu preferido, mas gostaríamos que o Vitória fosse para eles, pelo menos, o seu segundo clube. Gostaríamos que essas pessoas se associassem ao Vitória. Estamos disponíveis para fazer campanhas nas diferentes freguesias das cidades do distrito. Não temos dúvida nenhuma que, mais dia menos dia, terá de acontecer. Quanto maior for o Vitória maior será o nossa região. Percebemos que estamos paredes meias com dois clubes de referência internacional, o Benfica e o Sporting. Não é fácil intrometermo-nos no meio deles.

D.R. – Faz parte dos seus planos recandidatar-se nas próximas eleições?

F.O. – Não sei. O futuro a Deus pertence.

D.R. – A decisão depende de quê?

F.O. – A família é fundamental e sinto que a tenho prejudicado. Todas as semanas fazia caminhadas de oito/nove quilómetros e nunca mais as fiz. O futebol é absorvente e agarra as pessoas porque não se podem distrair dos problemas do dia a dia. O Vitória é um clube que exige muita atenção. Temos dedicado aqui a nossa vida em prol do Vitória. Quando se proporcionar tomarei uma decisão. Para já, o desejo da minha família é que não o faça.

D.R. – Quem gostaria de ver como presidente?

F.O. – Não posso indicar ninguém para não ferir susceptibilidades. Sei é que o clube já passou por problemas gravíssimos e ninguém se chegou à frente. Durante dez meses, dois funcionários do Vitória, Marco Santos e Paulo Grencho, estiveram a dirigir o clube. O Vitória exige muita atenção, responsabilidade e dedicação e estas duas personalidades fizeram-no sozinhos, de peito aberto, para o clube não morrer. Na altura, o clube foi abandonado e só não morreu porque estas duas pessoas assumiram a responsabilidade de dirigir o Vitória. Pergunto: porque razão as pessoas que falam tanto não se chegaram à frente quando o clube estava abandonado?

D.R. – Como viu o chumbo das contas na última Assembleia Geral?

F.O. – Não foi surpresa para nós. Já sabíamos que isso ia acontecer. Foi tema propalado nas redes sociais. São pessoas conhecidas porque fizeram oposição e disseram mal de Jorge Goes, Chumbita Nunes, Carlos Costa e todos os dirigentes, mas nunca tiveram personalidade nem categoria para assumirem os destinos do Vitória. Prova disso é que o clube esteve à deriva e só se limitam a criticar. Essas pessoas não fizeram nada aqui e alguns até fugiram. Essas pessoas deviam ter vergonha. Eu, no lugar deles, não tinha carácter para aparecer.

D.R. – Qual a sua prioridade no tempo que ainda tem no mandato atual?

F.O. – A nossa preocupação é conseguir ter os ordenados em dia com os jogadores. O Vitória foi badalado durante anos com notícias a dizer que não pagava os vencimentos aos seus jogadores. Isso nunca mais se ouviu e os sócios devem sentir-se orgulhosos. É evidente que também pretendemos lançar bases para o futuro no sentido de garantir a sustentabilidade do Vitória.

D.R. – Como por exemplo?

F.O. – Temos o projecto da Academia e o contrato com a NOS. A partir de 2018, o Vitória fica com uma almofada completamente diferente da que existe hoje. Quanto à Academia, qualquer projecto tem de ter a sua viabilidade na Câmara Municipal. Fizemos um levantamento ao terreno e a implementação do que pretendemos. A Câmara já aprovou e agora estamos a fazer o projecto que será submetido à Câmara. Estamos a fazer diligências junto de pessoas para que possam ser nossos parceiros no projecto.

D.R. – Que mensagem deixa aos adeptos?

F.O. – Todos os anos a minha mensagem é de esperança. Estamos convictos que o Vitória terá um fim bom no Bonfim. O Vitória merece pelo estatuto que criou e que tem.


«Prestações do PER às Finanças e Segurança Social estão em dia»

Na hora de fazer o balanço do trabalho realizado na história recente, Fernando Oliveira enumera vários aspectos relacionados com várias temáticas. No que às contas da Sociedade Anónima Desportiva (SAD) diz respeito, o presidente frisa a “valorização activa dos activos (plantel) e a situação líquida positiva”. O “cumprimento dos acordos com Estado (Segurança Social e Autoridade Tributária”, bem como os “contratos de direitos televisivos celebrados que asseguram o futuro”.

Com os Processos Especiais de Revitalização (PER) em curso (clube e SAD), o dirigente lembra os benefícios directos que o mesmo trouxe. “No caso do clube, 5,7 milhões de euros de juros vencidos foram perdoados. No PER da SAD foi possível fazer uma poupança de 4,7 milhões de euros”, referiu, garantindo que “as prestações do PER à Autoridade Tributária e Segurança Social estão em dia”.

As parcerias estabelecidas com diversas empresas também permitiram “ultrapassar as exigências regulamentares” no que ao estádio diz respeito. “Além das obras levadas a cabo na zona dos camarotes (presidencial e lugares de imprensa) foram feitas intervenções de beneficiação na iluminação do estádio”. Ao nível da redução dos custos energéticos também foram efectuadas ao nível da maquinaria existente nas instalações.

Com o objectivo de poder no futuro continuar a celebrar contratos de formação, o Vitória está a preparar o processo de certificação como entidade formadora. Foi também apresentada na Federação Portuguesa de Futebol a candidatura a fundos destinados à formação para melhoria de instalações e recursos humanos e tecnológicos. Fernando Oliveira lembra também o papel da autarquia nas obras realizadas na zona envolvente do Estádio do Bonfim e do Pavilhão Antoine Velge.

Ricardo Lopes Pereira