Oitava campanha “Mariscar SEM Lixo” retirou 5.225 quilos de lixo e 3.710 embalagens de sal das praias da margem norte do Estuário do Sado, com a ajuda de mais de 300 voluntários de diversas empresas, na sexta-feira

A 8ª campanha “Mariscar SEM Lixo” teve um “impacto brutal” e conseguiu impedir que cinco toneladas de lixo fossem arrastadas para o mar na próxima tempestade de Inverno, afirmou a directora executiva e científica da Ocean Alive, Raquel Gaspar. Números: 419 sacos de lixo, 172 sacos com plástico e outros 190 sacos com lixo indiferenciado foram retirados das praias da cintura industrial do Estuário do Sado por mais de 300 voluntários, na sexta-feira.

“Num só dia, conseguimos duplicar o número de voluntários que já tínhamos tido – 271 voluntários em sete campanhas – e por isso demos um passo muito importante nesta campanha, ao envolver pessoas que podiam não estar sensibilizadas para esta questão”, afirma Raquel Gaspar. A campanha desenvolveu-se no âmbito de uma acção de voluntariado empresarial promovida pela Associação GRACE, que congrega várias empresas e da qual a Ocean Alive foi parceira, na região de Lisboa, já que o tema da acção deste ano é o “mar”.

Os voluntários estiveram entre as 10h e as 13h no areal da chamada Península da Eurominas (a seguir à LISNAVE) e em outras 12 praias na margem norte do Sado, ao longo de quatro quilómetros. Recolheram 5.225 quilos de lixo e 3.710 embalagens de sal deixadas pelos mariscadores. Nas sete campanhas realizadas até este mês, a Ocean Alive já tinha retirado 12.051 embalagens de sal, o que significa que no total já foram recolhidas mais de 15 mil embalagens e mais de dez toneladas de lixo.

“A causa deste lixo são as actividades portuárias, recreativas e de veraneio, as actividades da pesca e mariscagem (profissional e lúdicas) e as actividades relacionadas com a laboração industrial daquela zona, especialmente o enorme volume de camionistas e viaturas”, segundo a responsável. Além disso, as praias limpas na sexta-feira não tinham caixotes do lixo, um problema solucionado depois pela Câmara Municipal de Setúbal, que colocou “contentores de lixo em parte das praias limpas pelos voluntários”.

Uma das principais causas da poluição continua a ser o “mau hábito” dos mariscadores deixarem as embalagens de sal vazias espalhadas na margem à medida que apanham o lingueirão. No entanto, Raquel Gaspar ressalvou que “este mau hábito não é exclusivo dos pescadores ou dos mariscadores de Setúbal”, uma vez que “a maioria são mariscadores lúdicos que vêm ao lingueirão pelo petisco ou pelo isco”, oriundos de Sesimbra, Alcácer do Sal e até de Almada, bem como da margem de Tróia.

Empresas devem ajudar

A missão da Ocean Alive passa sempre por chegar à fala com a comunidade de mariscadores no terreno, de forma a sensibilizá-los para o problema da poluição marinha, enquanto as equipas limpam as praias. E “não é só a comunidade piscatória que tem dado origem a este problema”, aponta a co-fundadora da organização. Também os camionistas das empresas que operam na zona industrial têm uma quota-parte de responsabilidade, e por isso a Ocean Alive contactou as empresas para as envolver na campanha.

“Pedimos-lhes ajuda de recursos e divulgação, chegámos a contactar a Associação Empresarial de Setúbal mas só houve duas empresas que nos responderam”, lamentou. “Queríamos que as empresas nos abrissem a sua janela para chegarmos aos camionistas, caso a caso, e arranjar soluções para evitar que eles contribuam para este lixo”.

Com dificuldade em arranjar uma explicação para o facto de a maioria das empresas não ter acedido, ainda assim Raquel Gaspar mostrou-se convicta de que no futuro “mais empresas vão aderir”, porque “todos têm de dar a sua contribuição”.

Instalação construída por todos

A construção de uma instalação com milhares de embalagens de plástico em forma de pradaria marinha foi uma das principais actividades do dia e juntou todos os voluntários. Doze mil embalagens, depois de escolhidas e limpas, começaram a dar forma a uma estrutura, orientada pela artista Susana António (autora do projecto com seniores “A avó veio trabalhar”), no âmbito de uma parceria entre a Ocean Alive e a Fundação Calouste Gulbenkian.

“Queremos que as pessoas percebam o volume de plástico deixado nas praias”, explicou Raquel Gaspar. Quando estiver terminada, a instalação será colocada num “local público perto da actividade dos pescadores e mariscadores”, ainda a definir em paralelo com a Câmara e a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra.

Entretanto, as duas toneladas de lixo plástico apanhadas no estuário foram encaminhadas para uma empresa que faz reciclagem para mobiliário urbano. Já outros 56 sacos com vidro foram enviados pela autarquia para reciclagem na AMARSUL.

Segundo Raquel Gaspar, “a grande vitória do dia foi a marca deixada nos voluntários, que têm poder de decisão nas empresas e que nunca mais vão olhar para uma praia da mesma maneira. Tornaram-se mensageiras da protecção do mar”.

A Ocean Alive, cooperativa cultural sem fins lucrativos, vai realizar a próxima campanha “Mariscar SEM Lixo” no mês de Novembro, na zona envolvente ao cais palafítico da Carrasqueira ou então na Península de Troia (a data e local estão por definir). Até lá, já existem caixotes do lixo nas praias da zona industrial e os empresários e a comunidade foram sensibilizados. Tudo para acabar com a poluição das pradarias marinhas do Estuário do Sado.