Entrevista ao treinador José Couceiro

Na sua terceira passagem pelo Vitória, o treinador José Couceiro, entrevistado pelo Diário da Região por ocasião do 106.º aniversário do clube, revelou o imenso “orgulho” que sente por fazer parte do emblema setubalense. Numa altura em que a equipa ocupa, à 10.ª jornada, a 7.ª posição do campeonato com 13 pontos, o timoneiro lembra que há um longo caminho a percorrer . Para ter sucesso é fundamental o apoio dos adeptos. “São fundamentais”, frisa.

DIÁRIO DA REGIÃO (D.R.) – O que representa para si ser treinador do Vitória?

JOSÉ COUCEIRO (J.C.) – Claramente é um marco na minha carreira e um orgulho. Por tudo o que envolve, mas fundamentalmente pelo historial que o Vitória tem. Todos os que já por aqui passaram devem sentir-se orgulhosos por terem passado por este grande clube que representa mais do que a própria cidade de Setúbal.

D.R. – Em comparação com as ocasiões anteriores em que treinou o clube (2004/05 e 2013/14 e 2015/16), esta época é a mais difícil? 

J.C. – Dificuldades existem sempre, mas são diferentes. Não é fácil fazer essa comparação, mas a primeira época que aqui fiz, 2004/05, foi muito complicada. Estruturalmente, o Vitória tem que dar um salto e isso não deve ser entendido como uma crítica ao presente. As coisas já se arrastam há mais de 20 anos. Estamos a ficar para trás em relação a muitos clubes de I Liga que não têm a dimensão histórica do Vitória.

D.R. – O 7.º lugar da equipa no campeonato está dentro das suas expectativas?

J.C. – O 7.º lugar não me diz absolutamente nada, mas sim os 13 pontos que somamos. Estão dentro do que considerávamos ser possível fazer. O primeiro objectivo do Vitória é conseguir estar na I Liga. O segundo objectivo é consegui-lo de forma tranquila para não sofrer até ao limite. Se o conseguirmos, estando dependentes do número de jornadas que faltarem para o final da competição, tentaremos a melhor classificação possível.

D.R. – Sente que podem melhorar o futebol praticado até agora?

J.C. – Espero claramente que a equipa melhore a sua qualidade. O Vitória tem uma identidade e não tenho de lutar por alterá-la, mas sim reforçá-la. Se tivermos qualidade no jogo estaremos mais próximos de ganhar. Vou lutar sempre por a equipa ter qualidade e a capacidade para o fazer.

D.R. – Está preparado para perder em Janeiro alguns dos jogadores que tem no plantel?

J.C. – Não estou preparado, mas sei que pode acontecer. Todos os jogadores devem estar cientes que terão mais sucesso se a equipa o tiver também. Pontualmente pode haver sucesso individual, mas no geral é colectivo. A partir daí vem tudo o resto. Sei que abertura do mercado de Janeiro pode mexer com a equipa.

D.R. – Sente que vai ter necessidade de reforçar o plantel em Janeiro?

J.C. – O Vitória, bem como qualquer equipa, precisa sempre de melhorar. Neste momento isso depende de alguém poder sair. Se isso acontecer teremos de pensar se precisamos de outras soluções. Neste momento, temos mais soluções para uns sectores do que para outros.

D.R. – O Vitória tem lançado nos últimos anos jovens provenientes de escalões secundários e da formação. É uma aposta arriscada?

J.C. – Não há nada que nos garanta que essas apostas vão correr bem. Um clube como o Vitória não tem outra solução. Não há capacidade para contratar jogadores já ‘feitos’, por isso, tem de apostar em fazer crescer os seus jogadores dentro de casa. Devemos criar condições para poderem chegar à equipa principal. Como treinador, tenho de ter cuidado e não me precipitar na hora de os lançar para não os perdermos. É muito fácil meter os jogadores dentro do campo, mas temos de o fazer sem que eles se deixem afectar se as coisas não correrem bem.

D.R. – Tem insistido na necessidade de haver mais público a apoiar a equipa no Estádio do Bonfim. Que razões encontra para a dificuldade em atrair mais pessoas ao estádio? 

J.C. – O problema não é do Vitória. É uma questão geral que afecta mais clubes. O público é fundamental para que tenhamos uma boa prestação. A televisão e os intermediários no negócio ainda não perceberam que o futebol tem mais potencial com público nos estádios. As condições dos recintos também não são atractivas para as pessoas irem ao futebol. A pouca adesão de público não está relacionada com o preço dos bilhetes porque mesmo com ingressos baratos as pessoas não comparecem. Em Portugal, a postura tem sido: tenho aqui um jogo de futebol, as pessoas que venham cá. Temos de ser nós a trazer as pessoas para os estádios. Pessoalmente, acho que se conseguirmos cativar as senhoras para o futebol, conseguimos cativar toda a gente. Olhámos sempre para o público masculino, mas creio que, atraindo o feminino, traremos muito mais gente. Se houver êxito nessa medida, o ambiente será completamente diferente: será mais tolerante, menos violento e agressivo.

D.R. – Qual o melhor e o pior momento que viveu nas ocasiões em que assumiu o cargo de treinador no Vitória?

J.C. – O mais marcante aconteceu quando já não era treinador do Vitória. Ver a final da Taça de Portugal, em 2005, e sentir que aquela equipa também era minha foi especial. Na sequência da final ganha por essa equipa, ter recebido a medalha de mérito desportivo da Câmara Municipal de Setúbal foi o momento alto desde que aqui estou. O pior momento são todas as derrotas, é ter de engolir em seco…

D.R. – O Vitória acaba de celebrar o 106.º aniversário. Se pudesse escolher um presente qual seria?

J.C. –  A remodelação completa do Estádio do Bonfim e a construção de uma Academia.

D.R. – Que mensagem deixa aos adeptos na passagem de mais um aniversário do clube?

J.C. – Digo-lhes que são fundamentais para que o clube tenha sucesso. Estes jogadores sentem-se melhor e conseguem ter uma prestação muito superior quando sentem a força dos adeptos. Quero que percebam que os jogadores querem sempre que os vitorianos sejam felizes. Queremos que haja empatia. Quem vem a Setúbal percebe que há uma atmosfera diferente do clube com a cidade. Queremos reforçar isso. Só se consegue fazê-lo com uma relação de confiança. Faremos tudo para que o Vitória tenha sucesso. Precisamos deles. Infelizmente, para nós não estamos nos anos 60 ou 70. Bem gostava, estaria de ‘cadeirinha’. Não estamos. Não vale a pena puxar o filme atrás. O que podemos fazer é lutar por engrandecer o clube, razão que fez com que os adeptos criassem o ‘slogan’: “o Vitória não é grande, é enorme”.

Ricardo Lopes Pereira